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Violência
Entre 1996 e 2003, mais de um quinto das crianças
entre um e seis anos de idade morreu de “causas externas” —
é assim que os sistemas de saúde classificam os registros de violência
ou acidentes. E entre o primeiro e o quarto ano de idade, 5% sofreram agressões.
Como assim? Só 5% foram agredidas? Bem, agredir uma criança, principalmente
se o agressor é um adulto, já é por si só um ato
revoltante, uma grande covardia. Portanto, esse índice não deveria
ser nem de 0,1%. Acontece que os registros oficiais não mostram verdadeiramente
o tamanho do problema, principalmente no que diz respeito aos casos de violência
doméstica.
Infelizmente, muitos adultos pensam que “criança
apanha porque merece”. Você, com certeza, já ouviu alguém
dizer que “o tapa educa”. É assustador, mas muitos pais pensam
assim mesmo: batem e imaginam que estão “educando”, “impondo
limites”. E o que acontece quando a criança ou os amigos resolvem
reclamar da situação? Para muitos adultos, criança “só
fala bobagem”, “exagera”, “vive no mundo da lua”.
Dificilmente alguém leva a sério uma criança quando ela
diz que está sendo vítima de violência, ainda mais se for
em casa, e se quem bate são os pais. Ou seja, graças a esses dois
traços da nossa cultura, muitos (muitos mesmo!) casos de violência
contra a criança acabam escondidos em casa e não aparecem em estatísticas.
É pequeno o número de pessoas julgadas e punidas por algum tipo
de violência contra a criança, principalmente contra aquelas com
menos de seis anos de idade. Não há ainda no Brasil uma rede integrada
de órgãos que investiguem e punam agressores de crianças
com eficiência. As delegacias de proteção à criança
e ao adolescente têm desempenhado um bom trabalho, mas há poucas
delas distribuídas pelo país (24 no relatório, e em apenas
16 estados). E os processos dificilmente são levados em frente, já
que o número de varas especializadas para julgar os acusados é
ainda menor (apenas quatro em todo o Brasil, segundo o relatório).
Síndrome do Bebê
Sacudido
Esse é o nome dado a uma das ocorrências mais comuns entre
crianças de até nove meses. Você já deve
ter visto nos jornais: são aqueles casos de adultos que, irritados,
sacodem violentamente seus bebês. Em uma criança pequena,
um movimento assim pode causar graves fraturas, hemorragias e até
mesmo levar à morte. |
Violência sexual
Estudos do Laboratório de Estudos da Criança
(Lacri) da Universidade de São Paulo mostraram que, em 2005,
um sexto dos casos de violência doméstica contra adolescentes
de até 19 anos envolvia algum tipo de abuso sexual. O agressor
é quase sempre algum parente. Traumatizadas, muitas dessas crianças
fogem de casa e vão parar em rotas de exploração
sexual. De acordo com o Ministério da Saúde, há
pelo menos 26 dessas rotas em operação no País. |
O combate à violência contra a criança só começou
a ser levado a sério no Brasil depois de 1998, quando o assunto passou
a ser considerado questão de saúde pública. A partir de
várias discussões levantadas pela sociedade desde então,
foi lançada a Política Nacional de Redução da Morbimortalidade
por Violência e Acidentes, em 2001. Uma das medidas recomendadas pela
política foi a criação de Núcleos de Prevenção
da Violência e Promoção da Saúde, que têm como
função elaborar estratégias de combate à violência
em suas regiões, além de mobilizar a sociedade para contribuir
nessa luta. Até 2006, havia 65 núcleos instalados no País.
Outra conseqüência da política foi a norma instituída
pelo Ministério da Saúde de que profissionais de saúde
são obrigados a notificar o Conselho Tutelar se atenderem casos suspeitos
de maus tratos contra crianças. Isso ajuda a aproximar o diálogo
entre instituições de saúde e de segurança pública,
unindo esforços importantes na luta contra a violência.
Combatendo o problema
na raiz
Os pesquisadores da UNICEF acreditam que, para se combater
a violência contra a criança, não adianta só
“tratar a vítima”. É importante planejar ações
mais completas, que não apenas punam os culpados, mas também
ajudem a identificar e tratar ambientes familiares doentios onde a violência
possa se manifestar. Atualmente, as ações têm dado
pouca atenção à família como um todo. Normalmente,
apenas a criança vítima direta da agressão e sua
mãe são atendidas. O pai e os irmãos são
esquecidos. |
Pobreza e violência
Uma casa onde falta dinheiro para se viver com dignidade
é um ambiente propício para o aparecimento da violência.
Por isso, é preciso dar atenção a políticas
de geração de emprego e renda. |
Em alguns casos, a violência doméstica torna-se um problema tão
grave na vida da criança que a obriga a se afastar da família,
pelo menos por um tempo. Normalmente, ela vai para um abrigo administrado pelo
governo. Atualmente, o Brasil tem 19.373 crianças vivendo em 589 abrigos.
O Estatuto da Criança define que o envio de crianças a abrigos
é a última medida a ser tomada em caso comprovado de violência,
pois deve-se sempre procurar opções que preservem os vínculos
familiares. Mas esses lugares têm sido usados de forma indiscriminada.
Metade das crianças atualmente abrigadas no Brasil recebe visitas regulares
de suas famílias, o que nos leva a pensar: elas não deveriam estar
em casa, junto de suas famílias?
A permanência desnecessária de uma criança em um abrigo
pode gerar conseqüências graves para seu desenvolvimento. Por exemplo:
os abrigos, como estão configurados hoje, não oferecem nenhuma
atividade que prepare os jovens para se virarem no mundo lá fora, apenas
os tornam cada vez mais dependentes de outras pessoas. Isso sem falar nos constantes
casos de violência física e psicológica que acontecem em
muitos desses lugares. Alguns deles até aplicam a prática do castigo
em seu dia-a-dia, agredindo a criança ou isolando-a do restante do grupo.
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