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Por César Munhoz
Reportagem atualizada em 14/08/06.
Desde o fim de semana do Dia das Mães,
o Brasil vem assistindo, assustado e impotente, à maior demonstração
de poder e ousadia feita pelo crime organizado na história do país.
Na madrugada de 13 de maio de 2006, a cidade de São Paulo presenciou
uma série de ataques a postos e carros de polícia. Foram mais
de 60 ocorrências em poucas horas, deixando 32 mortos, incluindo civis.
Nem mesmo policiais em dia de folga e famílias de policiais escaparam.
Sobrou até para os bombeiros. Na manhã de sábado, 18 presídios
em todo o estado estavam dominados por rebeliões, com mais de 100 reféns.
Era o Primeiro Comando da Capital — PCC —, principal grupo criminoso
do estado, mostrando suas garras. Os atentados eram uma resposta à decisão
de isolar no Departamento de Investigações sobre o Crime Organizado
— Deic — um grupo de oito presos, que incluía Marcos Camacho,
o “Marcola”, principal líder do PCC.
| São Paulo em pânico |
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| Foto: Mauricio Lima/AFP |
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Saldo dos ataques de
maio:
• 73 rebeliões
• Mais de 60 ataques
• Pelo menos 7 agências bancárias incendiadas
• Pelo menos 45 ônibus queimados
• 162 mortos
- 40 policiais, guardas e agentes penitenciários
- 122 civis (a maioria, durante ações policiais)
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Ataques de julho:
• 102 ocorrências contra 118 alvos apenas na primeira noite.
• Mais de 60 ônibus destruídos total ou parcialmente. |
| Fontes: Ministério Público
Estadual de São Paulo e portal Terra. |
Mesmo com toda a força policial nas ruas,
a gravidade da situação só crescia, até que no domingo
os alvos deixaram de ser apenas os postos de segurança: ônibus
e agências bancárias foram incendiados, e as mortes chegaram a
72. Enquanto isso, as rebeliões se espalhavam por presídios do
Mato Grosso do Sul e Paraná. Com a tragédia aparecendo em todos
os noticiários, o medo tomou conta do país. A maior cidade brasileira
começou aquela semana com apenas 2/3 dos ônibus nas ruas, e o rodízio
de carros foi suspenso, causando engarrafamentos gigantescos. Além das
vidas perdidas, São Paulo sofreu também um prejuízo de
milhões de reais, já que as empresas pararam no meio da tarde
e, em algumas regiões, nem chegaram a funcionar. No início de
julho, o PCC voltou a atacar, também por causa da transferência
de líderes para centros de segurança máxima. Dessa vez,
os crimes foram ainda mais intensos e aleatórios, não poupando
nem mesmo comerciantes.
O país ficou novamente em alerta em agosto: 13 mil presos foram liberados para passar o Dia dos Pais com a família. Apesar de o número de ocorrências naquele fim de semana ter sido relativamente pequeno em comparação com os ataques anteriores, mais uma vez o PCC chocou o país ao seqüestrar o repórter Guilherme Portanova e o auxiliar técnico Alexandre Calado, ambos funcionários da Rede Globo. Eles ficaram 40 horas em cativeiro e foram libertados apenas depois que a rede de televisão cumpriu a exigência dos criminosos: exibir um vídeo no qual integrantes da organização criticam o sistema carcerário e fazem novas ameaças. De acordo com informações do site Terra Magazine, esta seria a nova estratégia do PCC: seqüestrar celebridades e transformar as ocorrências em atos políticos.
A instabilidade e o medo permanecem até hoje,
e os dias se alternam entre períodos de calmaria e alarme, com notícias
de novos ataques e rebeliões. Isso sem falar da reação
policial, que tem sido duramente criticada: mais de 100 pessoas foram mortas
durante as ações policiais, e acredita-se que pelo menos 30 não
tenham qualquer ligação com grupos criminosos (como se o fato
de terem essa ligação desse à polícia o direito
de executá-las).
A sensação de insegurança é reforçada
por boatos de que as pausas nos ataques só ocorrem porque o estado estaria
fazendo acordos com o PCC. A hipótese de que isso realmente esteja acontecendo
é apavorante: estaria a situação da segurança pública
no país tão fora de controle que agora o estado precisa negociar
com criminosos para “garantir” o bem-estar da população?
Maria Cristina Figueiredo,
diretora pedagógica do Colégio Sion, situado no bairro
de Higienópolis, em São Paulo
Depoimento enviado ao portal em 18/05/06 |
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| Foto:
Divulgação |
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“Na segunda-feira
(15/05), quando cheguei ao Colégio Sion, situado em um bairro
residencial de classe média, mas próximo ao centro, já
sabia da situação na capital e no interior de São
Paulo. Todos comentavam o que havia ocorrido desde sexta-feira, mas
como algo distante de nós...
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Não tivemos faltas
além das normais, seja de funcionários, professores ou alunos.
Entretanto, em torno das 9h começaram a chegar notícias
(por meio de pais, telefone ou professores que entraram mais tarde) sobre
estações do metrô sendo atacadas, assim como bancos
em bairros próximos, e muitas ameaças aos policiais (temos
alguns batalhões aqui nas proximidades). Nesse momento, eu, juntamente
com minha equipe, optei por antecipar as atividades pedagógicas
da tarde, e passamos em todas as salas contando o que estava acontecendo,
aconselhando a todos que fossem diretamente para suas casas. Optamos também
por suspender treinos esportivos e outras atividades extraclasses. Até
então, manteríamos as aulas das crianças à
tarde.
No entanto, às 12h, quando tudo parecia organizado, vários
carros de polícia passaram na contramão em frente e nos
fundos do colégio, e fomos avisados de que alguns atentados estavam
ocorrendo a poucos metros do Sion. Depois de checar a veracidade dos
fatos, via TV e rádio, optamos por telefonar para os pais e,
às 16h30, fechamos a escola, já avisando que as aulas
de terça-feira estariam suspensas.
Eu, que moro no mesmo bairro onde fica o colégio, saí
de lá às 17h e só consegui chegar em casa 40 min
depois, tamanho o trânsito. O clima era horrível... Tudo
estava fechado: shoppings, padarias, bares, etc. Só me lembro
de ter visto algo semelhante na década de 70, em plena ditadura,
época em que havia uma perseguição e um certo clima
de terror em relação aos estudantes.
Com base nesse relato, é possível imaginar como está
sendo conviver com algo assim tão próximo de nós
e a nossa responsabilidade para com as inúmeras famílias
que deixam seus filhos conosco. Por outro lado, embora a situação
continue preocupante, estamos vivendo num clima de inúmeros boatos
e não podemos nos tornar reféns deles. Ontem mesmo fomos
comunicados pela própria polícia do bairro que alguns
atentados em série iam ocorrer. Tentamos checar as informações
com outras escolas, postos policiais e jornalistas, e todos afirmaram
que nada havia de concreto. Dessa vez, optamos por não suspender
as atividades, mas orientar pais e alunos para não se exporem.
Com tudo isso, São Paulo, a cidade que não pára,
tem estado absolutamente morta a partir do início da noite.
No governo, vejo impotência e falta de líderes. Fico pasma
ao constatar que um elemento que está preso em uma cadeia de
segurança máxima seja capaz de liderar várias facções
do maior estado do Brasil (e de outros estados também) usando
um celular. Enquanto isso, nossos governantes - que estão livres,
têm todas as condições de acionar o Exército
e as polícias Civil e Militar e são assessorados por deputados,
senadores e juristas - não conseguem ao menos proteger a população.
Tenho grande preocupação com nosso futuro: quem serão
os futuros líderes? Será que nosso país cairá
nas mãos de alguém que tem seu poder ligado ao narcotráfico?
A falta de liderança, a corrupção e a ‘fogueira
de vaidades’ que caracterizam nossos governantes acabam por colocar
em risco toda a população. Isso sem contar os salários
dos policiais e as condições precaríssimas dos
presídios. Em resumo: PROBLEMA SOCIAL + PROBLEMA ECONÔMICO
= REVOLTAS E VINGANÇAS.
Acho que esse tipo de coisa não vai acabar, pois as causas não
foram resolvidas. Resta saber quem é que vai ganhar essa ‘queda
de braço’.
Espero, sim, que a educação familiar e escolar possa colaborar
de maneira efetiva para que nossas crianças e jovens consigam aprender
com o erro de nossa geração e se transformem em Homens e Mulheres
(com letra maiúscula) melhores do que nós, para serem cidadãos
mais atuantes do que temos sido.” |


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