Foto:
Gregório Cardoso Tapias Ceccantini |
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A Mata Atlântica,
que originalmente ocupava mais de 1 milhão de Km2,
sobrevive hoje em cerca de 100 mil km2. |
A Mata Atlântica foi, muito provavelmente, uma das primeiras
visões que a tripulação de Cabral teve quando
chegou ao Brasil. Nessa época, a exuberância da mata
se estendia desde o Rio Grande do Norte até o Rio Grande do
Sul e ocupava mais de 1 milhão de quilômetros quadrados.
Os primeiros desbravadores das terras tupiniquins descreveram,
durante anos, a Mata Atlântica como uma floresta intocada,
de enorme riqueza natural, que levou muitos dos que aqui chegaram
no início da colonização a acreditar que o
“paraíso na Terra” estava nas Américas.
A floresta era ocupada por grupos indígenas tupis relativamente
numerosos, como os tupinambás, que já praticavam a
agricultura, mas em perfeito estado de harmonia com a vida vegetal
e animal.
Em contrapartida, a relação do colonizador com a
floresta e seus recursos foi, desde o início, predatória.
Os colonos não percebiam a importância dos benefícios
ambientais que a cobertura florestal nativa trazia, além
de serem motivados pela valorização da madeira e do
lucro fácil. Esses fatores levaram à supressão
de enormes áreas da floresta para a expansão de lavouras
e assentamentos urbanos e à adoção de práticas
de exploração seletiva e exaustiva de espécies
como o pau-brasil — o que aconteceu antes mesmo da exploração
do ouro e das pedras preciosas.
Para se ter uma idéia, o monopólio da exploração
do pau-brasil pela Coroa portuguesa só terminou em 1859,
quando essa percebeu que o volume contrabandeado era superior ao
das vendas oficiais e surgiram os corantes produzidos a partir do
alcatrão mineral. Assim, foram mais de três séculos
de extração predatória sem que sequer o processamento
da madeira para extração do corante tivesse sido desenvolvido
na colônia, agregando algum valor ao produto ou gerando postos
de trabalho.
"Terra Brasilis", como ficou conhecida a nova colônia
de Portugal, teve a origem de seu nome diretamente ligada à
exploração do pau-brasil e, portanto, ao início
da destruição da Mata Atlântica. Calcula-se
que 70 milhões de árvores foram levadas para a Europa.
Atualmente, a espécie vive graças ao trabalho de grupos
ambientalistas que fazem seu replantio.
Novo Mundo: sinônimo de riqueza fácil
A exploração predatória da Mata Atlântica
não se limitou ao pau-brasil. Outras madeiras de alto valor
para a construção naval, edificações,
móveis e outros usos — como tapinhoã, canela,
canjerana e jacarandá — foram intensamente exploradas.
Segundo relatórios da virada do século XIX, em Iguape,
cidade do litoral sul do estado de São Paulo, não
havia mais dessas árvores num raio de sessenta quilômetros
da cidade. O mesmo se repetiu em praticamente toda a faixa de florestas
costeiras do Brasil. A maioria das matas consideradas "primárias"
e hoje colocadas sob a proteção das unidades de conservação
foram desfalcadas já há dois séculos.
Outro grande problema era a retirada de epífitas —
vegetais que vivem nas árvores, como bromélias, cactos
e orquídeas —, também responsável pela
destruição de grandes áreas de florestas, cujas
árvores eram simplesmente derrubadas para facilitar a extração
dessas plantas.
Além da exploração dos recursos florestais,
existia também um significativo comércio exportador
de couros e peles de onça (que chegaram ao valor de 6 mil
réis, o equivalente ao preço de um boi na época),
veado, lontra, cutia, paca, cobra, jacaré, anta e de outros
animais; de penas e plumas e de carapaças de tartarugas.
Não é à toa que quase todas esses animais estão
em processo de extinção.
A esse modelo predatório de exploração dos
recursos da flora e da fauna somou-se o sistema de concessão
de sesmarias por parte de Portugal, favorecendo a combinação
altamente destrutiva da Mata Atlântica. O proprietário
recebia gratuitamente uma sesmaria e, após explorar toda
a mata e consumir seus recursos, a passava adiante por um valor
irrisório, solicitando outra ao governo; ou simplesmente
invadia terras públicas. Firmava-se o conceito de que o solo
era um recurso descartável, pois não fazia sentido
manter uma propriedade e zelar por suas condições
naturais e sua fertilidade, já que ela poderia ser substituída
por outra sem custo. Destruir, passar a propriedade adiante e receber
outra era um excelente negócio.
“Em se plantando, tudo dá”
No mesmo período de extração do pau-brasil,
as terras férteis do Nordeste do país e que estavam
na Mata Atlântica eram utilizadas para a produção
do açúcar. A floresta ia sendo derrubada e, em seu
lugar, surgiam imensos canaviais. A madeira ia para fornos a lenha,
usados no processo de fabricação de açúcar,
além de servir para fazer caixotes para o embarque do produto
para a Europa.
Depois do século XVII, a floresta continuou sendo derrubada
para outros usos da terra. No século XVIII, a descoberta
do ouro em Minas Gerais abriu grandes feridas na Mata, mas foi o
Ciclo do Café que mais a devastou. O Ciclo começou
a se expandir ainda naquele século e se arrastou até
a metade do século XIX, principalmente em São Paulo,
Minas Gerais, Rio de Janeiro e Paraná.
Resultados catastróficos
Foto: Secretaria
de Estado do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos
do Paraná |
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A Jaguatirica está
ameaçada de extinção, apesar de ser um
dos animais símbolo da Mata Atlântica. |
A exploração madeireira da Mata Atlântica teve
importância econômica nacional até muito recentemente.
Segundo dados do IBGE, em meados de 1970, a Mata Atlântica
ainda contribuía com 47% de toda a produção
de madeira em tora no país, num total de 15 milhões
de metros cúbicos — produção drasticamente
reduzida para menos da metade (7,9 milhões) em 1988 devido
ao esgotamento dos recursos ocasionado pela exploração
não-sustentável.
Atualmente, a Mata Atlântica sobrevive em cerca de 100 mil
km2. Seus principais remanescentes concentram-se nos estados das
regiões Sul e Sudeste, recobrindo parte da Serra do Mar e
da Serra da Mantiqueira, onde o processo de ocupação
foi dificultado pelo relevo acidentado e pela pouca infra-estrutura
de transporte.
Segundo estudos recentes — realizados pela Fundação
SOS Mata Atlântica em parceria com o INPE (Instituto Nacional
de Pesquisas Espaciais) e o Instituto Socioambiental e publicados
em 1998 —, entre os anos de 1990 e 1995, mais de meio milhão
de hectares de florestas foram destruídos em nove estados
nas regiões Sul, Sudeste e Centro-oeste, que concentram aproximadamente
90% do que resta da Mata Atlântica no país. Uma extensão
equivalente a mais de 714 mil campos de futebol foi literalmente
eliminada do mapa em apenas cinco anos, a uma velocidade de um campo
de futebol derrubado a cada quatro minutos. Essa destruição
foi proporcionalmente três vezes maior do que a verificada
na Floresta Amazônica no mesmo período.
Se isso continuar a acontecer, em 50 anos, o que sobrou da Mata
Atlântica fora dos parques e outras categorias de unidades
de conservação ambientais será eliminado completamente.
Vale lembrar que esses desmatamentos não estão ocorrendo
em regiões distantes e de difícil acesso. Ao contrário,
derruba-se impunemente enormes áreas de florestas a poucos
quilômetros de cidades como São Paulo, Belo Horizonte
e Rio de Janeiro.
Da Mata Atlântica original, sobraram 456 manchas verdes,
irregularmente distribuídas pela costa atlântica brasileira.
Embora isso represente apenas 7% da floresta original de 100 milhões
de hectares praticamente contínuos, ainda é uma vasta
área, equivalente aos territórios da França
e da Espanha juntos.
Além disso, salvar a Mata Atlântica é uma
questão de “sobrevivência econômica”:
em suas imediações, vivem hoje cerca de 100 milhões
de pessoas e, pela sua delimitação geográfica,
circulam 80% do produto interno bruto nacional (PIB).
| O que chamamos de Mata Atlântica são, na verdade,
várias matas que têm em comum o fato de estarem
próximas ao oceano Atlântico e em áreas
de campos e mangues. São lugares bastante úmidos,
onde chove muito durante todo o ano. Isso garante a permanência
constante de rios e riachos e a imensa manutenção
da variedade de espécies vegetais e animais, a biodiversidade.
Por causa das condições exclusivas que a floresta
proporciona, muitos animais só são encontrados
na Mata Atlântica, um refúgio para espécies
que, fora dela, já teriam desaparecido.
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