Sempre de bermuda branca e blusas alegres, de preferência
floridas e abertas até o peito. Flagrado pelas câmeras
em seu recanto, Jorge Amado (1912-2001) adorava exibir-se irremediavelmente
de sandálias e sentado em sua rede. À sombra, jogando
conversa fora com as visitas, como quem faz cafuné em alguém,
era o que retrato da serenidade de quem cultiva a arte de viver.
De uns tempos pra cá, o sorriso fácil e a pinta de
bon vivant já não faziam mais parte da vida
do mestre. A amargura de ver-se amuado em casa, cuidando da saúde,
volta e meia no hospital, terminou por minar seu moral. A última
internação foi ontem, às pressas, e certamente
havia alguém rezando aos orixás para que tudo não
passasse de mais um susto.
Pena que envelhecer não combinasse com o baiano de Itabuna.
E que a progressiva perda da vitalidade, da visão e da capacidade
de ler e escrever fosse insuportável para o criador de mulatas
sensuais, negros robustos, corpulentos e suados da colheita de cacau
e pescadores destemidos lançando-se ao mar.
Leia
uma das últimas entrevistas de Jorge Amado, dada há
quatro anos. O autor já não esconde a melancolia.
Às 19h30, apenas meia hora depois de dar entrada no hospital
Aliança, em Salvador, uma parada cardiorrespiratória
roubou a vida de um de nossos maiores escritores, traduzido em 48
idiomas e lido em 52 países. Jorge estava triste e angustiado
por não ter forças para concluir dois livros inacabados
o romance Bóris, o Vermelho e Histórias
do Rio São Francisco , que lutava para escrever
há cinco anos.
Era noite de lua cheia, como tantas que retratara, traduzindo em
palavras o som dos atabaques, as andanças no Pelourinho do
boêmio Quincas Berro dÁgua ou o cais do porto
em que os capitães de areia se refugiavam após um
dia de peripécias.
Foi ele quem melhor captou a ginga de seu povo, desde seu primeiro
livro, No País do Carnaval, lançado há
70 anos, em 1931. Eram histórias da gente oprimida e desvalida,
da Bahia e do Brasil, que lhe valeram perseguições
e conduziram-no ao exílio.
Vários de seus livros (Cacau, Suor, ABC de Castro Alves)
estiveram na mira da censura, nos anos negros da ditadura getulista.
Lançado em 1937, em pleno Estado Novo, o livro Capitães
de Areia é queimado em praça pública, tachado
de subversivo. Em 1941, exila-se na Argentina.
A luta pela liberdade de expressão marcaria mais uma vez
a sua vida. Em 1970, junta-se ao escritor gaúcho Érico
Veríssimo e ameaça não publicar mais seus livros
no Brasil caso a censura prévia aos livros persistisse.
Da chamada Geração
de 30, Jorge Amado foi o escritor que acompanhou mais de perto
a trajetória do Partido Comunista. Ao ponto de, em seu retorno
ao Brasil, eleger-se deputado federal pelo PCB em 1945.
Três anos mais tarde, é cassado como todos os representantes
comunistas do Parlamento. Sua casa em Nova Iguaçu é
invadida por agentes do Dops. Resultado: novo exílio, dessa
vez em Paris, Praga e Moscou. Do segundo exílio, só
pôde retornar ao Brasil nos anos 50, década de sua
consagração definitiva.
Em 1958, publica Gabriela, Cravo e Canela. A primeira edição
esgota-se em duas semanas. A morena sabor de cravo e cor de canela
arrebatou a todos e foi eternizada na atuação de Sônia
Braga e na voz de Gal Costa. Gabriela, musa inspiradora de tantos
filmes, seriados e novelas de TV, é um símbolo tão
marcante da mulher brasileira quanto a Garota de Ipanema.
O sucesso do best seller foi tamanho que a Academia Brasileira
de Letras se viu obrigada a reconhecer o talento do autor e escolhê-lo
para ocupar a cadeira de número 23, apesar de seu estilo
reconhecidamente coloquial, nem sempre visto com bons olhos pelos
ilmortais.
Consulte o site da Academia Brasileira de Letras: http://www.academia.org.br/imortais.htm
Cansado de guerra, Jorge Amado será cremado às 17h
de hoje, três dias antes de completar 89 anos. Seu corpo foi
velado no Palácio da Aclamação, antiga residência
do governador. Suas cinzas serão depositadas nos jardins
da casa de número 33 da Rua Alagoinhas, no bairro do Rio
Vermelho, de onde conquistava diariamente, o coração
de sua esposa, Zélia Gattai, seus dois filhos e milhares
de fãs em todo o mundo.
No dia 10 de agosto, a Bahia estaria em festa. Por conta de seu
falecimento, estará de luto oficial, decretado pelo governador.
Na capital baiana, em pleno Pelourinho, foi inaugurada a Fundação
Casa de Jorge Amado, como parte das comemorações
dos 80 anos do escritor. Ela é como um coração
pulsante zelando para que a obra do autor continue viva na memória
de seus leitores.
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