As dificuldades financeiras inverteram o fluxo de migração
entre Japão e Brasil. A “terra do Sol nascente" passou, no
final do século XX, a ser um dos principais países a acolher brasileiros.
E, mas mais uma vez, os imigrantes não encontraram o paraíso que
estavam buscando.
Da mesma forma que o Japão enfrentou uma grave crise econômica
entre os séculos XIX e XX, o Brasil passou por um período de recessão
na década de 80, ao mesmo tempo em que profundas mudanças políticas
estavam acontecendo. Nessa época, o Japão vivia o auge de sua
economia.
Pioneiras no processo de terceirização, as pequenas empresas
nipônicas recebiam encomendas de grandes organizações. Nelas,
não havia perspectiva de carreira ou ascensão profissional, o
que não interessava aos jovens japoneses que ingressavam no mercado de
trabalho.
Por causa disso, essas empresas começaram a buscar mão-de-obra
em países como Coréia do Sul, China e Filipinas. Os trabalhadores
estrangeiros foram denominados dekasseguis, palavra japonesa que significa
"trabalhar fora de casa".
No Brasil, surgiram empresas que estabeleciam o contato entre os candidatos
e os empresários que necessitavam de mão-de-obra. Elas cuidavam
tanto da documentação necessária como das condições
de moradia e trabalho dos dekasseguis.
Em 1990, o “Plano Collor” reforçou ainda mais a emigração
dos nikkeis — descendentes de japoneses que vivem fora do país
— para o Japão.
Paralelamente, no Japão, foi criada a Reforma da Lei de Controle de
Imigração, que impôs maior rigor no controle de entrada
de imigrantes e, ao mesmo tempo, demonstrou que havia clara preferência
em favor dos descendentes de japoneses. De certa forma, essa lei favoreceu os
brasileiros, já que a maior colônia japonesa se encontra no Brasil,
e a relação de consangüinidade e a proximidade cultural passaram
a ser consideradas pelos contratantes orientais.
Custo Social
Para Leda Reiko Nakabayashi Shimabukuro, fundadora e coordenadora do Grupo Nikkei
de Promoção Humana, que, entre outros trabalhos, desenvolve o
projeto Tadaima — um espaço de reflexão e apoio a trabalhadores
brasileiros que atuaram no Japão —, o custo social dos dekasseguis
é muito alto. “Nosso grupo se dedica à recolocação
profissional, principalmente da comunidade japonesa em São Paulo. Das
pessoas que ajudamos, descobrimos que 30% são de ex-dekasseguis
que não conseguem emprego no país”, conta Leda.
Ela afirma que, quando chegam ao Japão, os dekasseguis enfrentam
inúmeras dificuldades. “Mesmo parecendo japoneses, os descendentes
são tratados como estrangeiros no Japão. O primeiro impacto que
eles sentem é a diferença de língua. Poucas pessoas que
vão para lá dominam o japonês e, como não existem
analfabetos por lá, isso gera preconceito”, explica.
Para a coordenadora, após passarem vários anos no Japão
fazendo trabalhos braçais, os brasileiros que retornam não conseguem
emprego no mercado nacional. “Mesmo juntando uma boa soma de dinheiro,
na volta, eles não têm como manter o mesmo padrão salarial,
até mesmo porque sua experiência é incompatível com
os empregos que pagam bem no Brasil e eles estão acostumados com uma
média salarial de U$ 2,5 mil, que ganhavam no Japão”, explica.
Leda conta que poucos são os brasileiros que têm êxito
ao montar seu próprio negócio com o dinheiro acumulado no Japão.
“Como eles não tem experiência em administração
de empresas, acabam falindo”, afirma.
Para ela, outra dificuldade encontrada pelos imigrantes que retornam ao Brasil
é a readaptação cultural. “A vida no Japão
costuma ser dura, por isso, as pessoas idealizam o Brasil como sendo melhor
do que realmente é. Muitas trabalham em empresas japonesas por mais de
cinco anos e, quando voltam, encontram uma realidade bem diferente”, conta.
Ela diz que a língua e o relacionamento com a família são
grandes obstáculos para os ex-dekasseguis.