1. Central de Atualidades
  2. Reportagens
  3. Índios (que sobraram) do Brasil

ENTREVISTA:

José Elias Teixeira é aluno do Centro Interescolar Abílio Paulo, de Criciúma/SC

José Elias voltou da aldeia duplamente impressionado: com a perda da cultura local e as ameaças de invasão da reserva por agricultores locais. Sua turma, porém, foi até lá para levar uma esperança. Ela instalou um sistema de energia solar para iluminar uma escola.
Para ter mais informações sobre esse projeto internacional de cooperação escolar para promover a aplicação de energias renováveis, acesse a página: http://www.iutu.net/xyzbr.htm

José Elias (primeiro à esq.), prof. Amarildo Goulart, Pierre e Jacks: em outubro de 2000, eles passaram uma semana entre os Tremembé, no Ceará.

Como foi a expedição dos alunos à aldeia tremembé?
A idéia consistia em levar eletricidade a localidades onde não havia rede de energia. Passamos um dia em Fortaleza só para aprender a parte técnica. Oito escolas estavam envolvidas: duas da Alemanha, duas de Portugal e quatro do Brasil. Entre estas, a escola alemã do Rio de Janeiro e a nossa.
Depois que nos passaram tudo sobre a placa solar, a bateria, as luminárias e as tomadas, íamos para o campo em duas equipes: uma seguia para um assentamento de pescadores em Itapipoca, a 300 km de Fortaleza, e a outra, para a aldeia indígena. Para fazer esse trabalho, nós tínhamos um técnico para acompanhar cada equipe e nos dar apoio para explicar aos índios o funcionamento dos aparelhos. Ficamos cerca de dez dias no interior do Ceará, em Almofala, onde vivem os índios tremembé.

E, chegando à tribo, como foi o contato dos alunos com a comunidade indígena?
Primeiro, o pessoal do IDER [Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Energias Renováveis] fez uma palestra para nós. Eles nos disseram como era aquele povo e que sempre houve disputa com os brancos, porque estes tentavam invadir as terras indígenas. Até hoje, alguns agricultores estão dentro da área que os índios pedem que seja demarcada. Eles também falaram que outras aldeias foram extintas. O povo branco impôs sua cultura tomando a terra dos índios.

Por acaso, vocês chegaram a presenciar, nesses dez dias, algum momento de conflito, ameaça de invasão ou coisa parecida?
Não, não. O pessoal do IDER escolheu aquele local exatamente porque hoje ele está mais calmo, tem uma estabilidade boa. Eles disseram que não fariam esse projeto se houvesse algum problema de segurança. Éramos todos alunos.

E, com mais estabilidade, os índios tremembé estão começando a prosperar, tanto que um dos objetivos dessa central elétrica era alimentar uma escola. Vocês chegaram a conhecer essa escola? Ela estava funcionando?
Sim, a escola estava em funcionamento durante o dia. Era realmente uma construção indígena, toda de pau-a-pique, bem rústica, de palha mesmo, com algumas carteiras e quadros. Nossa idéia era levar energia solar para iluminar a escola à noite e formar uma rede elétrica capaz de suportar uma TV, um videocassete e um microcomputador. Também havia o projeto de um poço artesiano e de uma bomba para abastecer a escola e a comunidade de água.

Como era a vida nesse vilarejo? Há muita miséria no dia-a-dia dos índios?
Era como uma cidadezinha pobre do Brasil. A vida deles é baseada na agricultura e na pesca. É uma vida bem básica e as casas são muito pobres. O problema é que eles estão em discussão com o pessoal da região, com os brancos e alguns agricultores, por causa da demarcação da terra.

Que aspecto da cultura indígena vocês conheceram na semana em que estiveram com os tremembé?
Deu para ver que eles tinham perdido muito da cultura deles. Poucas pessoas falavam a língua deles, por exemplo. Alguns índios até mesmo trabalhavam fora da aldeia. Vimos que existiam mais coisas perdidas do que preservadas. Eles organizaram uma noite de rituais para nós e só nessa festa realmente deu para perceber que eles têm uma cultura muito forte.

Alunos instalam painel solar para iluminar escola indigena da aldeia, que fica no município de Itarema/CE

Eles explicaram qual era o significado dos rituais?
O significado da festa era demonstrar a amizade.

Como foi essa festa?
Eles nos deram comidas típicas, mas disseram que não era todo dia que faziam aquilo. Eram comidas para festas.

Que comidas eram essas?
Peixe, basicamente. Também dançaram conosco e nos deram uma bebida [mocororó] de caju fermentado que eles próprios fizeram. Eles a enterram na areia e a deixam fermentando por um tempo.

Havia música também?
Tinha um tipo de tambor, mas havia também instrumentos de corda. Não era um violão normal, mas dava para perceber que também não era um instrumento tradicional deles.

Quer dizer que até na música a influência do branco na vida dos índios era marcante?
É, o que nos chocou mais foi essa perda da identidade dos índios.

A expectativa que vocês tinham antes de ir à aldeia era essa? Ou vocês esperavam encontrar os índios todos nus, com cocares de penas?
Não achávamos que o povo se vestisse como na época da chegada dos portugueses ao Brasil, mas imaginávamos que a cultura estaria mais preservada. A própria raça deles já está muito misturada, com o branco, com o negro. Eles são bem mestiços... As construções em que moram são casas normais. Enfim, eram iguais às casas da comunidade de pescadores de Itapipoca.

Você acha que a escola não seria uma tentativa de promover mais a cultura indígena entre eles, para que eles "aprendessem" mais sobre sua própria cultura?
Exatamente. Foi o que o secretário da Educação nos falou. A idéia é tentar dar um suporte para que os índios tenham aulas especiais voltadas para a cultura deles. A escola, como você disse, é uma tentativa de resgatar a cultura indígena.

No que essa viagem, essa chance que pouquíssimos alunos no Brasil têm de conhecer uma aldeia, ajudou você a compreender os problemas dos índios?
Você abre mais a sua cabeça para o que está acontecendo ao seu redor. Esse é um país imenso e, às vezes, você não tem noção do que acontece. A gente também passa a ter mais respeito pela cultura dos outros, não só pela do índio... Aqui em Santa Catarina existem muitas tribos, mas não é preciso conhecer todas para entender uma coisa que acontece aqui. O que acontece lá, a perda da cultura, também acontece aqui. É uma cultura bonita que tivemos oportunidade de ver. Existe a necessidade de resgatar isso.




Entrevistas
  >José Elias
     Teixeira

  > Eliane Cassol
quarup
  > a lenda
  > Orlando
     Villas Boas
Mapa dos parques e terras indígenas no Brasil
  Povos indígenas mais conhecidos do país
 

Veja como estavam distribuídas as nações indígenas no Brasil antes da colonização.

Outras reportagens >>
 << Voltar