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ENTREVISTA:

Eliane Maria Trevisan Cassol é diretora da Escola Indígena de Educação Básica Cacique Vanhkré, em Ipuaçu/SC

Quem dera que a Escola de Educação Básica Cacique Vanhkré fosse diferente das demais escolas indígenas só pelo acesso à tecnologia. Pelo que se tem notícia, ela é a única que permite aos índios brasileiros concluir o ensino médio, estudando sua língua e cultura. O êxito é tamanho que a escola aprovou sete alunos no vestibular passado.

colégio: A planta circular reproduz a forma mais freqüente de montagem das aldeias e construções indígenas. O círculo, além disso, possui aí elevado valor simbólico, místico ou religioso, representando o Todo. Entre cada par de salas de aula, foi criada uma sala de apoio, onde se pode acender o "fogo de chão", para aquecer os ambientes e reforçar a imagem da aldeia, o lar comum.

A senhora poderia contar um pouco da história da escola?
Antes da Constituição de 1988, as escolas em áreas indígenas eram como as regulares. Pela nova Constituição, que tem um parágrafo dedicado à educação indígena, os índios têm direito a uma escola diferenciada, intercultural, bilíngüe, específica e comunitária. Então começaram as discussões com as comunidades sobre essa escola "diferenciada" e sobre as questões de grade, currículo e material didático.
Mas foi no final de 94 e começo de 95 que essas discussões começaram no estado de Santa Catarina. Foi criado, através da Secretaria de Educação, o Núcleo de Educação Indígena (NEI). O NEI tem representantes das comunidades indígenas, lideranças, professores índios e não-índios para pensar essa escola diferente. Foram organizados cursos de capacitação para professores que atuam em escolas indígenas a fim de que eles tenham condições de voltar às comunidades e discutir com elas as questões da grade e do currículo.

E como é essa divisão de professores na sua escola? Quantos fazem parte da aldeia indígena?
Nós temos 16 professores índios e 12 não-índios. São 28 ao todo. Depois desses cursos, os índios começaram a querer ministrar as aulas nas escolas deles. Como a secretaria viu que não havia índios habilitados, foi criado no estado de Santa Catarina um curso chamado Magistério Bilíngüe, que habilita os índios a trabalharem como professores de língua portuguesa e de língua kaingang. Os nossos professores estão fazendo esse curso, que é ministrado no período de férias. A previsão para o seu término é em 2002.

A senhora comentou esse desejo dos índios de ministrarem as aulas. Mas, na maior parte das aldeias, até os professores têm um nível de escolaridade muito baixo ou são semi-analfabetos. Esse foi um dos problemas que vocês tiveram de enfrentar?
Sim, no início a escola possuía 160 alunos e um número bem menor de professores do que hoje. Em 94, 95, havia somente dois professores índios. Como foi dada a possibilidade de os próprios índios assumirem a educação e a maior parte deles não tinha habilitação, houve a preocupação do estado em criar esse magistério. Hoje, nós já temos índios cursando faculdade ou o magistério bilíngüe.

Outro problema que os povos precisam superar é que nem todas as línguas indígenas têm um registro escrito. Pelo jeito, isso não acontece com a língua kaingang, não é?

Ela tem, sim. Quando eu iniciei o meu trabalho aqui, em 95, a gente viu que os alunos vinham para a escola falando somente o português. Ainda hoje eles vêm, pois não praticam mais a língua materna em casa. 75% da comunidade não fala mais a língua nativa. É na escola que os alunos têm os primeiros contatos com ela. Para acelerar esse processo de aprendizado, fizemos uma contratação diferenciada. Como não havia professores índios habilitados que falassem a língua, foram contratados dois professores para cada série de 1a a 4a, um para trabalhar o português, outro para trabalhar a língua kaingang. São dois professores na sala de aula, um índio e outro não-índio. De 5a a 8a e no ensino médio, nós temos três aulas semanais de língua kaingang.
O nosso currículo diferenciado abrange ainda a cultura e a arte indígena. Em outras escolas, são trabalhados a arte, o desenho. Aqui são trabalhados o artesanato, a tapeçaria, a tecelagem, o colar e os adornos.

ginásio: Estruturas armadas em forma de abóbada, com nervuras em arcos ou semi-arcos de troncos flexíveis, foram usadas pelos Kaingang para sustentar a cobertura de construções ancestrais. Essa forma, remotamente semelhante à "casca do tatu", inspirou a cobertura do Ginásio

Eu pude ver, por fotos, que há uma preocupação de contextualizar ao máximo a escola, tanto que a arquitetura dos prédios faz referência aos animais da região e elementos conhecidos pelos índios. O que mais diferencia a escola Cacique Vahnkre das demais?
Além das disciplinas e do trabalho com dois professores em sala, o material didático também é diferente. A maioria foi produzida nos cursos de capacitação, por professores índios e não-índios, com a especificidade da área indígena. Os alunos também aprendem com os mais velhos. Os professores organizam projetos e no dia-a-dia os alunos saem e fazem pesquisas sobre a alimentação kaingang, a questão da religião, das habitações, das ervas medicinais... Tudo isso são trabalhos feitos junto com a comunidade.

A escola procura então fazer um resgate cultural?
Isso. Porém, os antropólogos não acham certo usar a palavra "resgate". Eles preferem falar em "fortalecimento da cultura indígena". Outro aspecto diferente da nossa escola em relação às demais é que não temos professores efetivos...

Como assim? São professores voluntários?
Não. Nas escolas comuns, os professores passam por uma seleção. Aqui, quem escolhe os professores é o cacique da comunidade. São as lideranças indígenas. Esses professores estão em constante avaliação. Ao final do ano, se o professor não desempenhou um bom trabalho, o cacique o substitui. Os professores sabem que estão sendo avaliados e, por isso, são bem esforçados.

A informação que tenho é que a escola Cacique Vanhkre é a única escola a dar ao índio brasileiro uma formação até o ensino médio. É isso mesmo?
De que a gente tem notícia, é a única. Já temos um projeto, que está sendo pleiteado pelo cacique, para criar uma universidade no próximo ano, só para índios também.

Por estarem concluindo o ensino médio e saindo da escola com um diploma, os índios têm deixado a aldeia para buscar uma ocupação em grandes cidades?
Por enquanto, não percebemos isso. A primeira turma concluiu o ensino médio no ano passado. E todos os alunos permaneceram na aldeia, alguns até como professores, porque, além da nossa escola, há mais nove na aldeia, na terra indígena Chapecó. Alguns alunos já assumiram atividades como a de professor em outras escolas e na nossa. Aos poucos, eles estão ocupando o espaço dos professores não-índios. À medida que vão se formando, vão ocupando o espaço do branco.

Da turma que concluiu o ensino médio, sete alunos foram aprovados no vestibular. Foi feito algum curso preparatório com esse fim?
Não, não foi feito nada (risos). É por isso que nós estamos muito contentes com os resultados. Foi satisfatório para a comunidade e para os professores porque os nossos objetivos estão sendo alcançados. Formaram-se quatorze alunos. Desses, dez prestaram vestibular e sete foram aprovados.

A senhora destacaria outras conquistas que a escola tem alcançado?
É importante ressaltar que a educação indígena vem evoluindo também em relação ao número de matrículas. Em 95, tínhamos 165 alunos e hoje contamos com 550 na nossa folha de matrícula, da pré-escola ao ensino médio. Além dos ensinos fundamental e médio, nós temos agora em nossa escola o Ceja (Centro de Educação de Jovens e Adultos), que funciona no período noturno. O Ceja é para quem deixou de estudar e hoje tem 100 alunos.
A nossa escola participou, em 99, do Prêmio de Gestão Escola Referência, do estado de Santa Catarina, e ganhou. Nós ganhamos porque estamos muito voltados para a comunidade.

A escola já tem a sua homepage (http://www.caciquevanhkre.rct-sc.br). Os alunos têm acesso à Internet?
Sim, a primeira escola do estado de Santa Catarina em que foi instalada a Internet foi a nossa.

As outras escolas indígenas do país não têm demonstrado interesse em conhecer a experiência de vocês?
Nossa! Escolas indígenas e não-indígenas também. A gente até fez um cronograma de visitação e abriu um espaço às sextas-feiras para outras escolas nos visitarem. Para você ter uma idéia, já temos visitas agendadas até o mês de julho! Nós fazemos apresentações para quem vem nos visitar e saímos para dar palestras em outras escolas.

 




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