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Índios
(que sobraram) do Brasil
Cerca de 0,2% da nossa população são índios.
Quem já teve a posse de todo o território nacional agora ocupa
12% do mapa. De um total de 350 mil indígenas remanescentes, aproximadamente
50 mil deixaram as reservas para viver nas cidades ou no campo. Mesmo quem ficou
na mata, na maior parte das vezes, passou a ganhar a vida como se fosse um caboclo
ou ribeirinho. Para recuperar sua língua, sua cultura e seu passado,
os índios dependem da demarcação de suas terras e do acesso
à educação diferenciada.
Difícil
dizer quantos eram os índios antes do Descobrimento. Calcula-se que havia
entre 2 e 6 milhões de indivíduos. Mas um palpite otimista não
resolve muita coisa. Ao contrário: quanto maior a estimativa, mais desoladora
parece a realidade dos primeiros habitantes do Brasil. Atualmente, eles não
passam de 350 mil, o equivalente a três Maracanãs lotados. Você
sabe o que isso quer dizer? É possível que, ao longo de nossa
história, a população indígena tenha sido dizimada
ao ritmo de um milhão por século!
A tragédia indígena não se mede só pelo número
de mortos. Tal massacre esconde uma perda ainda mais dramática, porque
irreparável. Etnias inteiras foram riscadas do mapa, levando consigo
sua cultura e a contribuição que poderiam ter legado à
identidade do país. Hoje, o número de agrupamentos indígenas
se resume a um quinto do que havia antes de Cabral chegar. Das 216 tribos restantes,
apenas 16 rejeitam o contato com não-índios e mantém intactos
seus costumes.
Diversidade pouco conhecida
Se certas aldeias
são até hoje totalmente desconhecidas dos indigenistas, este não
é o desconhecimento mais grave do "homem branco". Muita gente
ignora a importância da imensa riqueza cultural dos índios e faz
de conta que eles não existem. Quer uma prova? Duvido que você
acerte esta pergunta: quantas línguas são faladas no Brasil? Se
respondeu "uma, o português" e achou que está abafando,
passou foi longe. Há cerca de 170 línguas e dialetos nativos em
uso no país.
Você acha que é preciso ir à Amazônia ou ao Parque
Indígena do Xingu para saber o que se passa nas tribos? Pois saiba que
pode haver aldeias embaixo do seu nariz. Os únicos estados onde não
há povos indígenas são Piauí, Rio Grande do Norte
e o Distrito Federal. Com um pouco de atenção, você se dá
conta de que a influência indígena está em toda parte, até
neste texto! É só voltar ao primeiro parágrafo: Maracanã
vem do tupi-guarani e é o nome dado a uma espécie de papagaio.
Leis que demoram a sair do papel
Justamente porque
a importância cultural dos índios é pouco conhecida, eles
continuam tendo seus direitos desrespeitados. Em 1973, o Supremo Tribunal Federal
elaborou o Estatuto do Índio, determinando a demarcação
de todas as terras indígenas num prazo de cinco anos. No entanto, passados
quase 30 anos, só 252 das 568 reservas indígenas foram homologadas.
Um marco na regularização de terras indígenas é
o Parque Indígena do Xingu, no norte do Mato Grosso. Foi criado em 1961
pelo então presidente Jânio Quadros, sob orientação
dos sertanistas Cláudio e Orlando Villas Bôas. As rixas de tribos
rivais são coisa do passado. Hoje o parque abriga um caldeirão
étnico onde quatro mil índios de 14 etnias aprenderam a conviver
em paz.
Terras exploradas
Nesse caso, porém, a demarcação não foi suficiente
para proteger as terras da exploração de garimpeiros, madeireiros
ou agropecuaristas. Nos últimos 30 anos, um quinto da cobertura vegetal
foi removido por eles. Ao sul da reserva, a mata virgem cede espaço a
plantações de soja e arroz. Mais de 200 serrarias cortam cerca
de 2,6 milhões de metros cúbicos de madeira por ano, a oeste da
reserva - mais de 90% extraídos de forma predatória. Quase duas
mil fazendas no lado leste já derrubaram um milhão de hectares
para a criação de gado.
Índio quer educação, senão cultura vai morrer
Mas não basta preservar a terra, é preciso proteger sua cultura.
Um parágrafo da Constituição de 1988 assegurou aos índios
uma educação diferenciada, bilíngüe e multicultural.
Passou a ser obrigatório que as crianças aprendessem o bê-á-bá
de sua língua materna. Mas somente em 2001 saíram os primeiros
resultados que indicam em que pé anda a educação dos curumins.
O primeiro censo sobre educação indígena, do Instituto
Nacional de Pesquisas Educacionais (Inep), aponta que existem 93.037 alunos
matriculados.
Dois terços desses alunos (66%) estão matriculados em 1.392 escolas
indígenas, onde trabalham 3.998 professores. Três entre quatro
mestres (76,5%) são de origem indígena. Nesse balanço,
o que mais entristece é saber que quase metade dos professores (48%)
sequer completou o Ensino Médio, formação mínima
exigida para dar aulas.
Mas uma notícia deixa no ar a expectativa de que tais determinações
passem a ser cumpridas com mais vigor. A índia da etnia Pareci Francisca
Novantino Pinto de Ângelo tomou posse, em 18 de março de 2002,
no Conselho Nacional de Educação (CNE). Como primeira representante
indígena na Câmara de Educação Básica, ela
terá um mandato de quatro anos para elaborar normas e regulamentações
que visem a garantir o acesso de índios ao sistema educacional brasileiro.
Proteção ao índio
Como se vê, os índios precisam de mais do que arcos e flechas
para defender seus direitos. Dos cinco séculos de contato com o colonizador,
a história da proteção dos indígenas se resume a
menos de 100 anos. Em 1910, foi criado o Serviço de Proteção
ao Índio (SPI), chefiado pelo Marechal Cândido Mariano da Silva
Rondon - descendente de índios que trabalhou para melhorar as condições
de vida dos povos indígenas. Ele deu início ao período
de pacificação dos índios e de reconhecimento de seu direito
à posse da terra e de viver de acordo com seus costumes.
No ano de 1967, o SPI foi extinto por causa de denúncias de irregularidades
administrativas. Naquele mesmo ano, foi criada a Fundação Nacional
do Índio (Funai) para estabelecer uma política de pacificação
entre tribos rivais e o bom relacionamento das populações indígenas
com a sociedade. Mas, com um orçamento anual de R$ 4,5 milhões,
não é de se espantar que o Parque do Xingu mais pareça
uma ilha ameaçada por todos os lados. A quantia é insuficiente
para vigiar os 580 territórios indígenas existentes no país.
Números promissores
Mas parece haver uma luz no fim do túnel. Segundo o Instituto Socioambiental
de São Paulo, a população indígena cresceu 17% entre
1995 e 2000, taxa mais alta que a dos demais brasileiros. Outra novidade é
que o número de tribos também tem aumentado. Há 216 diferentes
tribos no Brasil, dez a mais do que o apurado na última pesquisa, de
1995. O futuro dos povos indígenas no país é incerto. Se
está afastada a hipótese do desaparecimento dos índios
no Brasil, é imprescindível uma clara política compensatória
por parte do Estado para que eles cresçam com dignidade.
Faça parte dessa tribo
A seguir, você vai conhecer três histórias. Quem conta a
primeira é José Elias Teixeira.
Em outubro de 2000, ele, três colegas e o professor Amarildo Goulart viveram
uma experiência e tanto: puderam conviver por uma semana com os índios
tremembés, de Almofala, no Ceará.
A segunda história é contada por Eliane
Cassol. Ela fala de uma escola que é coisa rara para os padrões
do ensino indígena. Está a anos-luz da construção
de pau-a-pique dos tremembés: tem até Internet! Para terminar,
damos a palavra ao maior indigenista brasileiro vivo, Orlando
Villas Bôas. Ele descreve a origem do ritual indígena que está
entre os mais conhecidos no país: o o
quarup, a festa dos mortos. Mais que uma reportagem, este é um convite
para você fazer parte da tribo de quem acompanha com atenção
os destinos dos povos indígenas no Brasil e deseja que sejam resguardados
a cultura e os direitos de quem estava aqui muito antes das caravelas.
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Fotografias:
Almofala, município de Itarema/CE
Aldeia dos índios tremembé
No alto, com o cocar, o cacique da tribo, João Venança

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