| O que jamais deveria acontecer está
acontecendo cada vez mais cedo. Para ser preciso, aos 13 anos e quatro
meses, em média. Recém-chegados à adolescência,
é nessa idade que os jovens brasileiros têm usado drogas
pela primeira vez. Se quando ouve falar em "experimentar drogas"
você pensa em maconha ou cocaína, é hora de rever
seus conceitos. O álcool é a droga usada com mais freqüência
por jovens no Brasil.
Embora igualmente precoce, o consumo de drogas ilícitas
só costuma ocorrer em média um ano e meio depois da
primeira tragada ou do primeiro copo: aos 14,9 anos. Por mais que
o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), em seu artigo
81, proíba a venda a menores de 18 anos de "substâncias
com risco de criar dependência", em qualquer esquina
pode-se burlar a lei e comprar um maço de cigarros ou um
litro de cachaça.
A permissividade é tanta que, em 13 das
14 capitais brasileiras pesquisadas, mais da metade dos 16,619 mil
jovens (entre 11 e 24 anos) entrevistados não se acanharam
ao assumir o uso de álcool. E revelaram que a entrada no
mundo das drogas também pode incluir no cardápio solventes,
inalantes e medicamentos à base de anfetaminas, usados no
tratamento de depressão e obesidade. São esses os
resultados da Avaliação de Prevenção
às DST/Aids e Uso Indevido de Drogas nas Escolas de Ensino
Médio e Fundamental.
Lápis, cadernos e drogas
Quem prestou atenção ao título do levantamento,
divulgado no início de julho de 2001 pela Unesco, já
deve ter notado outra faceta desse drama. Não foi à
toa que o estudo investigou o uso de drogas na escola. Ainda segundo
dados da Unesco, a escola é o local que mais os jovens associam
ao consumo de drogas. Fizeram parte da pesquisa 340 escolas, sendo
101 particulares. Além dos alunos, foram ouvidos 3,05 mil
professores e 4,53 mil pais. Eis alguns dos resultados:
- 40% dos alunos disseram ter visto uso de drogas nas proximidades
da escola;
- 30% presenciaram um colega usando drogas nas dependências
da instituição;
- 30% dos pais disseram ter visto usuários ou traficantes
ao redor da escola.
Leia a entrevista sobre o uso de álcool
em escolas ))
Rio de Janeiro e Porto Alegre são as capitais com o maior
número de jovens (15%) que admitem ter usado algum tipo de
droga ilícita. De acordo com a pesquisa, pode-se elaborar
um ranking de cidades onde o contato com a droga é mais prematuro.
São Paulo é a capital onde os jovens têm contato
mais cedo com drogas lícitas (13,3 anos) e ilícitas
(14,4 anos).
Em Belém, foi registrada a ocorrência mais tardia
de contato com cigarros e bebidas alcoólicas (14,5 anos).
Manaus se destaca por ter a melhor média entre as capitais,
no que se refere ao contato com drogas ilícitas (16,6 anos).
Goiânia e Maceió são as cidades em que menos
jovens confessam o uso de drogas ilícitas, apenas 3%. A capital
goiana também é a que apresenta o menor índice
de usuários de bebidas alcoólicas. Ainda assim, lá
o problema atinge 48% dos jovens.
Uso de drogas é tabu em escolas particulares
É o primeiro estudo da Unesco sobre o uso de drogas por estudantes
brasileiros. O Centro Brasileiro de Informações sobre
Drogas (Cebrid) já é veterano em pesquisas desse tipo.
Dedica-se ao tema desde 1997. Elisaldo Carlini, professor da Universidade
Federal de São Paulo (Unifesp), é responsável
por uma pesquisa que ouviu o que 15 mil alunos tinham a dizer. Segundo
ele, o uso de drogas ainda é um tema tabu nas escolas particulares.
A maioria delas simplesmente fechou suas portas à pesquisa,
o que fez com que ela ficasse restrita à rede pública.
O índice de estudantes que assumem ter usado algum tipo de
droga alguma vez na vida fica entre 19% em São Paulo e 30,5%
em Porto Alegre. O estudo verificou o crescimento do consumo de
cocaína entre os jovens, porém as drogas que estão
no pódio das mais usadas por estudantes, em nove das dez
capitais pesquisadas, são o álcool e o tabaco, seguidos
por solventes e inalantes. A maconha fica apenas em quarto lugar,
sendo os garotos os maiores consumidores. (Fontes: Unesco, Correio
Braziliense e Folha de S. Paulo)
LEIA MAIS - Entrevistas:
Além das pesquisas que mostram que o consumo de álcool
e cigarros é mais preocupante que o uso indevido de drogas
ilícitas, outros trabalhos estão procurando desfazer
mitos sobre o uso indevido de drogas entre os jovens.
O livro Qual é o barato, de Paloma
Klisys, e o filme Bicho de Sete Cabeças,
de Laís
Bodanzky, com Rodrigo Santoro no elenco, lançam
novos olhares sobre as drogas. Eles questionam o excesso de
culpa atribuído aos jovens e denunciam a omissão,
o despreparo e os discursos ineficazes usados pela família
e pelas escolas para lidar com o problema. |
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