Era tarde na Escola Estadual Coronel Benedito Ortiz quando vários alunos
que estavam em recuperação aproveitavam o horário de recreio
no pátio. A escola fica em Taiúva, uma cidadezinha no interior
de São Paulo com aproximadamente 5 mil habitantes e que, de tão
pequena, é classificada como uma daquelas cidades que nem estão
no mapa.
 |
| Edmar Aparecido Freitas, violência simbólica
teria levado à tragédia. |
Mas um ex-aluno da escola, Edmar Aparecido Freitas, de 18 anos, chamou a atenção
para a cidade. Naquela tarde de 27 de janeiro, ele pulou o muro, cumprimentou
a zeladora e se dirigiu ao pátio. Sem dizer uma palavra, Edmar sacou
de um revólver e abriu fogo contra seus ex-colegas. Recarregou a arma
e recomeçou a atirar. Com os disparos, feriu sete pessoas. Em seguida,
foi até a residência do caseiro e parou em frente à esposa
deste, a qual, implorando para ser poupada, viu o jovem disparar um último
tiro contra a própria cabeça.
Horrorizados, os habitantes da cidade, bem como a opinião pública,
perguntam-se: o que levou o jovem a agir dessa forma? Segundo os investigadores
do crime, Edmar era “gordinho” durante a infância e boa parte
da adolescência e, por isso, tornou-se alvo de chacotas por parte dos
colegas. Mesmo quando conseguiu emagrecer, os outros alunos não o deixaram
em paz. Isso teria sido o bastante para deflagrar a tragédia.
O delegado encarregado afirmou que o crime já vinha sendo planejado
há pelo menos dois meses. Além disso, um amigo de Edmar provavelmente
sabia o que estava por vir, pois foi comprar as balas juntamente com o jovem.
Em uma entrevista para o Portal, uma semana antes da tragédia, a pesquisadora
Miriam Abramovay lembrava o massacre na Escola Secundária Columbine.
Em 20 de abril de 1999, a pacata cidade de Littleton, no Colorado, foi palco
da maior chacina em um estabelecimento escolar ocorrida até hoje nos
EUA. Mascarados e fortemente armados, Dylan Klebold e Eric Harris, ambos de
18 anos, invadiram aquela escola e executaram 13 pessoas. Horas depois, cercados
pela Swat, suicidaram-se.
Miriam lembrava que 17 alunos sabiam que o crime iria ocorrer, mas não
foram capazes de contar a ninguém e evitar que o massacre acontecesse.
“Isso provou que não havia confiança entre essa juventude
e qualquer elemento da escola ou até mesmo os pais para que eles contassem
o que estava acontecendo. A escola não é aberta para discussões
e, muitas vezes, os adultos não escutam ou até fecham os olhos
para o que se passa com os alunos”, diz.
 |
| Dylan Klebold e Eric Harris. Culto ao ódio levou
ao maior massacre em uma escola nos EUA. |
Não só nesse detalhe o relato da pesquisadora “antevia”
o que se passou em Taiúva. Para ela, a violência simbólica
(agressões verbais ou discriminação racial, por exemplo,
como o problema enfrentado pelo “gordinho” Edmar) está presente
nas escolas brasileiras, mas “finge-se que não está lá”.
“A violência na escola sempre existiu. O que não estava lá
era, por exemplo, a entrada de armas. Como vivemos numa sociedade mais violenta,
isso acaba por exacerbar essas pequenas formas de incivilidade que, por menores
que sejam, causam muito sofrimento”. Deixando de lado casos tão
extremos, Miriam lembrou que a violência não se restringe a um
problema individual, pois um aluno que é constantemente molestado tem
grandes chances de não passar de ano e nem mesmo vai querer continuar
indo à escola.
Coincidência ou não, os crimes em Littleton e em Taiúva
ainda guardam outra semelhança: tanto na residência de Edmar quanto
nas casas dos estudantes americanos foram encontradas propagandas nazistas,
marca registrada da cultura de ódio.
Professora da Universidade Católica de Brasília, a socióloga
Miriam Abramovay se dedica ao estudo dos jovens escolarizados do Brasil. Entre
muitos trabalhos que publicou, destacam-se Gangues, Galeras, Chegados e Rappers
(Editora Garamond, 1999) e Escolas de Paz (Edições Unesco,
2001). Recentemente, ela coordenou a pesquisa “Violência, Drogas
e Aids nas Escolas”, que já originou os livros Escola e Violência
e Escola e as Drogas (Edições Unesco, 2002). Miriam, uma
das mais respeitadas especialistas do assunto no país, é também
vice-coordenadora do Observatório sobre Violências nas Escolas
no Brasil e consultora do Escritório das Nações Unidas
para o Controle de Drogas e Prevenção ao Crime (UN ODCCP) e do
Banco Mundial de pesquisas e avaliações em questões de
gênero, juventude e violência.
Para ela, a representação social que as pessoas têm da
escola é de um lugar tranqüilo, seguro e de paz. “Quando pensamos
em qualquer coisa ligada à infância ou à adolescência,
pensamos em espaços protegidos. Quando a escola passa a ser um espaço
não protegido, de violência, todos sentem, não só
os jovens”, lembra. “Daí para a cultura do ódio é
um passo”.
Cultura de paz
Na série de reportagens que o Portal preparou sobre a cultura de paz,
a pesquisadora e outros especialistas falam sobre esse assunto, que é
essencial para desarmar o verdadeiro estado de guerra instalado no país.
É impossível pensar em soluções para a violência
sem considerar questões como a qualidade das relações familiares,
a capacidade de lidar com frustrações, os valores transmitidos
em casa, na escola e na mídia, o uso de drogas, o acesso à educação.
É impossível falar em cultura de paz sem falar em transformação
e sem questionamento de valores e comportamentos.
“Cultura de paz é um conjunto de transformações
necessárias e indispensáveis para que a paz seja o princípio
governante de todas as relações humanas e sociais”, explica
Feizi Milani, presidente do Instituto Nacional de Educação para
a Paz e os Direitos Humanos.
Ele explica que paz, ao contrário do que muita gente pensa, não
significa ausência de ação, monotonia, passividade. Pelo
contrário, é algo dinâmico, em contínua construção,
que exige permanente diálogo para inverter os valores que levam à
violência, como o individualismo, a competição, o ódio
e o preconceito.
|