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| Capa
do relatório do UNICEF |
Quem nunca assistiu a essa cena? O pai ou a mãe
promete um baita presente à criança que arrumar o
quarto, fizer a lição ou raspar tudinho que tem no
prato. Quando os pais caem na armadilha de combinar uma recompensa,
a meninada logo alimenta a esperança de, quem sabe, ganhar
o brinquedo dos sonhos. Já pensou a choradeira que seria
se, na hora de cobrar o que foi combinado, todas as crianças
descobrissem que a promessa era grande demais, que ela foi dita
da boca pra fora ou, por algum motivo, não seria cumprida?
Mal comparando, é mais ou menos isso que
as crianças do mundo inteiro vem sentindo nos últimos
dez anos. Uma imensa frustração. Tudo porque, em setembro
de 1990, chefes de Estado dos cinco continentes assumiram metas
ambiciosas para os anos 90 e encheram o mundo de otimismo. Disseram
que iriam reduzir drasticamente a subnutrição, a mortalidade
materna e infantil, que todas as crianças teriam acesso à
escola e à água potável. Falaram também
que iriam melhorar a vida de crianças portadoras de deficiência,
trabalhadoras, refugiadas ou envolvidas em conflitos armados, vítimas
de abuso sexual ou das mais variadas formas de violência.
Mas basta ler um pouquinho do relatório
assinado por Carol Bellamy, diretora-executiva do Fundo das Nações
Unidas para a Infância (Unicef) para ver que não foi
bem isso que aconteceu. O livro se chama Situação
mundial da infância 2002. Ela conta que houve progressos,
sim, na defesa dos direitos da criança. O principal deles
foram os milhões de vidas salvas graças à distribuição
da vacina tríplice e à erradicação da
pólio em 175 países. Por outro lado, ela dá
um merecido puxão de orelha nos líderes nacionais
que ainda permitem que mais de 600 milhões de crianças
vivam na pobreza e que 100 milhões delas, a maioria meninas,
estejam fora da escola.
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| Carol
Bellamy: crianças foram "traídas". |
Para mostrar como certas
coisas continuam na mesma, a autora inventou uma historinha triste.
Ela imaginou que uma garotinha chamada Ayodele tinha nascido bem
naquele setembro de 1990, em algum vilarejo da África Ocidental.
No texto, Bellamy explica por que a menina, agora com 11 anos, foi
"traída". Ela diz que, se Ayodele sobreviveu aos
primeiros cinco anos de vida, dois de seus irmãos morreram
prematuramente, vítimas de doenças infantis que poderiam
ser prevenidas ou tratadas facilmente, e que não houve incentivo
algum ao seu potencial de aprendizagem. Ayodele continua sem saber
ler, escrever ou fazer as operações básicas.
No vilarejo em que mora, sequer faz idéia dos seus direitos.
Leia
também a entrevista dada por Wanderson Oliveira, 15,
que fez parte de um júri internacional que elegeu
um projeto de defesa dos direitos da criança ->>
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