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Reformar pra valer
Sempre que se intensifica a discussão em torno da corrupção
e do mau funcionamento do Estado brasileiro, vem à tona a questão
da reforma política. Até hoje, o termo foi usado muito mais como
elemento de barganha durante a campanha eleitoral, mas o fato é que a
reforma política é um processo fundamental para o amadurecimento
da democracia brasileira. É preciso rever tanto as regras ligadas diretamente
ao jogo eleitoral quanto aquelas que regulam a atividade dos políticos
depois de eleitos.
| Foto: Jose Cruz /
ABr |
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| Reforma
política: sai ou não sai? |
O processo eleitoral sofreu mudanças neste ano, algumas já válidas
para estas eleições (conheça
as principais). Outras ainda estão sendo analisadas, como,
por exemplo, a questão do voto para deputado ser proporcional, distrital
ou misto. Entenda:
• Proporcional: é o modelo usado hoje no Brasil. Um deputado pode
se eleger com votos de qualquer eleitor da sua unidade federativa. A quantidade
de votos de legenda (votos não creditados a um candidato específico,
mas sim ao partido) determina quantos deputados cada partido pode eleger para
aquele estado. Os mais votados do partido recebem as vagas.
• Distrital: cada estado é dividido em “x” distritos
(todos com o mesmo número de eleitores), e cada um elege um representante
(o número de distritos em todo o país é equivalente ao
número de cadeiras no Legislativo).
• Misto: o número de distritos no país equivale à
metade das vagas. Portanto, metade dos deputados é escolhida pelo sistema
distrital e metade nos moldes do sistema proporcional.
Especialistas acreditam que o sistema distrital ajudaria muito a estreitar
o compromisso entre os deputados e as regiões que representam e também
a aproximar os partidos da população. Também amenizariam
problemas como as disputas dentro dos partidos, que, entre outras coisas, estimulam
conchavos e geram corrupção. E, se esse modelo parece radical
demais aos olhos da classe política atual, Fernandes da FGV sugere o
distrital misto, que causaria efeitos parecidos: “O sistema distrital
misto já torna os partidos mais legítimos e mais fiscalizáveis”.
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Saiba mais sobre esses sistemas, seus prós e contras, e casos de aplicação
em outros países.
O financiamento público de campanha
é mais um assunto na pauta da reforma política atual. Sua
finalidade seria cortar pela raiz o mal do clientelismo, evitando que
os candidatos se comprometessem com financiadores privados e os favorecerem
depois de eleitos. O próprio governo bancaria as campanhas dos
partidos, e o dinheiro seria dividido de acordo com a representatividade
de cada sigla no Congresso.
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O governo, de certa forma, já “patrocina”
as campanhas eleitorais. O horário eleitoral gratuito em rádio
e televisão é gratuito para os candidatos, mas não
para o governo e, portanto, não para você, cidadão.
O valor referente à compra dos horários é deduzido
na declaração de imposto de renda das emissoras.
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A idéia parece boa. O problema é implantar a
medida sem que antes se garantam maneiras efetivas de fiscalização
sobre a distribuição do dinheiro. Também preocupa a questão
dos tais “partidos nanicos”. “Que partidos serão financiados?
Estes todos que existem aí, incluindo os de aluguel?”, alerta Jorge
Maranhão, do Instituto Millenium. Dessa forma, o financiamento público
apenas alimentaria ainda mais esse mercado negro do horário eleitoral.
• Conheça a proposta do financiamento público de campanha
atualmente em debate.
Outra questão polêmica é a da Lei da Inelegibilidade, que,
apesar do nome, não tem tornado ninguém inelegível. Ela
possibilita, por exemplo, que deputados abram recursos que conservam seus direitos
políticos, mesmo que eles tenham contra si provas de envolvimento em
esquemas corruptos. Basta que ainda não tenham sido julgados em última
instância. E, graças à lentidão da Justiça
no Brasil, esses deputados dificilmente são julgados antes das eleições
seguintes, isso quando o crime não prescreve antes do julgamento, mandando
todo o processo para o lixo. “Essa lei deveria ser declarada inconstitucional”,
revela Maranhão. “A constituição diz que é
inelegível o candidato contra o qual houver provas de fraude e corrupção.
Não interessa se ele foi julgado ou não”. As discussões
atuais acerca da reforma política levam em conta essa lei, mas, como
temem os especialistas, ela está entre os temas que podem não
receber a atenção merecida, justamente porque mexem em interesses
particulares de gente muito poderosa.
Vai ou não vai?
Outra crítica que se faz à reforma política é:
afinal, ela será feita ou não? De um lado, estão aqueles
que pregam uma reforma “em doses homeopáticas”, com uma lei
sendo aprovada aqui, outra ali. Do outro, está o governo, propondo que
se forme uma Assembléia Constituinte para resolver a questão de
uma vez, em um esforço concentrado. O fato é que nenhuma das idéias
é totalmente boa. Uma reforma feita aos poucos pode ser ineficiente justamente
porque, assim como os problemas têm causas em comum, as soluções
para eles também se “entrelaçam”. Por exemplo: digamos
que se aprove hoje uma lei “resolvendo” a questão do financiamento
público de campanha. Seis meses depois, ao discutir a adoção
de um modelo distrital ou misto para o voto, é possível que se
precise rever pontos de uma lei já aprovada. Enfim, isso geraria uma
bagunça interminável, e nada se resolveria, pelo menos não
satisfatoriamente.
O presidente Lula defende a formação de uma Assembléia
Constituinte para aprovar a reforma política. Uma das justificativas
seria a de que uma reforma feita pelo Congresso pode acabar em leis que favoreçam
o próprio Congresso. No entanto, essa é uma proposta considerada
“cínica”. “É conversa de quem quer ‘melar
o jogo’”, diz o representante do Instituto Millenium. Assim como
o argumento de Lula, o dele também faz sentido. A Ordem dos Advogados
do Brasil (OAB) só admite a formação de uma Constituinte
em momentos de ruptura nacional, o que, segundo a entidade, não seria
o caso do momento atual. Enquanto não se decide por um caminho ou por
outro, a sociedade se pergunta: afinal, o Brasil tem jeito?
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