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 Reportagens > O Brasil em Pauta: Corrupção

A corrupção em outros países

Já percebemos que a corrupção não é uma exclusividade do Brasil. Mas como será que esse mal que atinge as sociedades e retira o dinheiro de investimentos fundamentais, como a educação e a área social, é combatido em outros países? Vamos conhecer dois casos, o italiano e o chileno, considerados um sucesso no combate à corrupção ao longo da década de 1990.

A Itália e a Operação Mãos Limpas

No início dos anos 90, a Itália foi varrida por duas grandes operações policiais que envolveram a justiça e parte da classe política: a Força Tarefa Antimáfia e a Operação Mãos Limpas. A primeira buscou investigar e combater a Camorra, máfia que agia em Palermo e Nápoles; e a segunda, lutar contra o que no Brasil chamamos de “crime do colarinho branco” e que envolve a “lavagem de dinheiro”, seja de mafiosos, empresários ou funcionários públicos.

Liderada pelo juiz Antonio Di Pietro, a Operação Mãos Limpas teve início com uma denúncia realizada por um pequeno empresário da área de limpeza que prestava serviços à cidade de Milão, que, cansado de pagar propina para ganhar a conta do asilo da cidade, resolveu denunciar tal prática. Decidido a não pagar suborno, fez um acordo com o desconhecido Antonio Di Pietro, então um procurador de justiça. A partir desse contato, foi armado um esquema que envolveu gravadores, cédulas marcadas e, é claro, policiais. A confirmação do ato de corrupção explodiu como uma bomba na Itália, pois envolvia valores cobrados dos empresários e queriam financiar campanhas políticas do Partido da Democracia Cristã e do Partido Socialista, que há anos ocupavam o poder na Itália.

A partir de 1992, quando isso ocorreu, a Itália viveu uma verdadeira enxurrada de denúncias: centenas de pessoas presas e suicídio de empresários corruptos, funcionários públicos e políticos. Os juízes que investigavam as denúncias precisavam andar com guarda-costas e, mesmo assim, alguns deles foram assassinados. Enfim, a Itália precisou tirar pedaços da própria carne para combater e controlar a corrupção no país. Hoje, apesar do problema ainda existir, ocorre em um nível que possibilita um controle e o combate mais eficaz.

O caso chileno

Na América Latina, também há bons exemplos de combate à corrupção, como é o caso do Chile. Nesse país, foram tomadas medidas como a redução de 80% no número de cargos comissionados e a implantação de mudanças no sistema de financiamento de campanhas eleitorais.

A primeira visava a evitar a grande quantidade de pessoas contratadas para exercer atividades em cargos comissionados nas várias esferas de governo (federal, estadual e municipal), pois, conforme apontam estudos e especialistas, a corrupção tende a ser mais freqüente entre funcionários não estáveis, que são admitidos por amizade, apadrinhamento ou outro tipo de relação que não seja a aprovação em concurso oficial e público.

“Não sou totalmente contra cargos de confiança”, explica Marcos Fernandes Gonçalves da Silva, professor da FGV-EAESP e autor do livro Economia Política da Corrupção (Editora Senac, 2002). Na visão dele, em muitos casos, a criação de cargos de confiança é uma forma que se encontra de enfrentar um sistema extremamente burocrático de contratações públicas. “É uma anomalia. O ideal seria não ter tantos cargos de confiança. Você acaba tendo porque o Estado não anda.”



Outro campo em que o Chile buscou melhorar sua situação em relação à corrupção foi o dos leilões e licitações: passou a fazer uso maciço da Internet para divulgar os editais. Vale a pena lembrar que licitações e leilões públicos são eventos que, em geral, envolvem grande quantidade de dinheiro e, por isso, são muito visados em atos de corrupção, como fornecimento de informações privilegiadas ou mesmo a elaboração de “editais viciados”. Com o uso da Internet e a divulgação das informações a um número maior de pessoas, é possível reduzir as possibilidades de fraudes em compras públicas. Graças a medidas como essas, o Chile aparece no ranking da Transparência Internacional como o país menos corrupto entre os da América Latina.

Edital é, de forma geral, um aviso oficial, publicitário etc. publicado na imprensa ou afixado nos lugares públicos. É chamado “viciado” quando contém pedidos ou exigências que apenas uma das empresas concorrentes pode suprir.



Outra experiência que vale ser avaliada é a do presidente Vicente Fox, no México. Como você verá no tópico seguinte, a corrupção está diretamente ligada ao fenômeno do clientelismo. Ele assumiu o país após aproximadamente 70 anos do que o professor Marcos Fernandes chama de “ditadura disfarçada, um governo de partido único [referindo-se ao Partido Revolucionário Institucional]”. A saída de Fox para tentar evitar o clientelismo em seu governo foi a de contratar headhunters (caçadores de profissionais) para descobrir os melhores executivos do México e chamá-los para cargos de alto escalão. “A idéia parece boa, mas é perigosa, pois não se pode despolitizar completamente a gestão do Estado,” explica o professor. “É preciso ter no governo pessoas ligadas a partidos que vençam eleições e garantam a continuidade dos projetos.”

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