| Espetáculos
de cidadania
Eles têm entre 12 e 17 anos e moram
na periferia de Salvador. Não se reúnem
para ensaiar um espetáculo qualquer, mas para
dar um salto definitivo em suas vidas. Quando mais uma
vez se fecharem as cortinas de um espetáculo
do Centro de Referência Integral de Adolescentes
(Cria), esses adolescentes terão discutido os
problemas que enfrentam em sua família, na escola
e na comunidade de que fazem parte.
Na hora de bolar o texto, cada um contribui
para criar coletivamente a peça. Ao final da
encenação, chega o momento de transformar
o teatro em sala de aula e debater com a platéia
as questões que o espetáculo levanta.
Por isso, preferem chamar suas peças de ações
educativas. Longe de formar atores profissionais, o
objetivo do Cria é fazer desses jovens referências
para outros.
Carla Lopes é a prova viva de que
a tática de passar essa bola adiante funciona.
"Foi fazendo teatro que eu me descobri adolescente,
mulher, cidadã, negra, descobri meus direitos,
deveres, defeitos e qualidades. E me descobri educadora",
lembra. A adolescente de anos atrás é
hoje coordenadora do núcleo teatral e assina
sua primeira "ação educativa".
Diálogos põem frente a frente pais
e filhos para discutir as dores e delícias dessa
convivência.
Na entrevista a seguir, Carla Lopes fala
de seu trabalho como diretora e da peça Escola:
Falta mais o quê? Desde 95, a montagem discute
o que as escolas precisam fazer para ficar com a cara
dos adolescentes. O sucesso da peça é
tanto que o Cria pretende lançar um livro sobre
como ela deve ser montada e como a escola pode criar
seu próprio grupo teatral.
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| O
Cria venceu o prêmio Criança
2000, da fundação Abrinq: projetos
para adolescentes reconhecidos em todo o Brasil. |
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Vocês desenvolvem projetos em
arte-educação. Por que trabalhar com teatro?
A gente trabalha com arte-educação, mais
especificamente com linguagem cênica, porque é
através do teatro que se consegue dizer as coisas
mais difíceis. A gente consegue rir juntos, chorar
e se emocionar. O teatro que a gente faz qualquer um
pode fazer. Estamos nos permitindo mostrar nossas dificuldades,
dores e delícias. E estamos permitindo que os
outros identifiquem isso e vejam que podemos dar um
salto juntos.
Em que repousa a metodologia, a filosofia
do Cria?
O Cria surgiu a partir de uma bolsa individual de Maria
Eugênia Millet, nossa coordenadora-geral, que
sempre trabalhou com teatro. Ela foi atriz por muito
tempo e também fazia cenários e figurinos.
Com a bolsa, ela passou a disseminar a metodologia que
já utilizava com sucesso: fazer um teatro que
tivesse a cara e expressasse o que era ser adolescente,
o desejo e as dificuldades, a indignação
com a falta de espaço e as desigualdades da sociedade
em que a gente vive.
Que respostas vocês têm
procurado para esses jovens que querem se expressar
e procuram o Núcleo de Teatro do Cria?
Eu posso falar de mim. Eu era adolescente e fiz oficinas
de teatro com a Maria Eugênia. Estou com ela desde
antes da criação do Cria. Foi fazendo
esse teatro que eu me descobri adolescente, mulher,
cidadã, negra, descobri meus direitos, deveres,
defeitos e qualidades. E me descobri educadora. A resposta
é a gente tentar falar da gente mantendo a dignidade,
e saber que as dificuldades existem, mas nada é
impossível. Elas existem, mas com esforço,
determinação e sabendo exatamente o que
se quer, temos condições de transformar
a realidade... Porque o que a sociedade tenta fazer
o tempo todo é negar o nosso potencial, negar
o que somos. Hoje em dia, você é o que
você tem. Se não tem nada, fica perdido
no mundo.
Uma das propostas do Cria é
promover uma criação teatral coletiva.
Como isso se traduz na prática?
O início de todo o nosso trabalho é o
"quem sou eu?" É você conseguir
se colocar, independente do que as pessoas estão
dizendo que você é. É se ver e tentar
colocar isso para fora. As peças são uma
criação coletiva porque a gente respeita
o que cada um traz, o que cada um sabe, e acaba reconstruindo
conceitos a partir da vivência de cada um
sem certo ou errado , a partir de como a gente
se sente, da experiência de você dizer quem
é e quais são seus sonhos e seus medos.
E essa criação coletiva
acontece desde a escolha do tema até a elaboração
do texto a ser encenado?
Normalmente, são quatro temas básicos:
educação, sexualidade, etnia e cidadania.
A partir daí, a gente vai desmembrando e, de
acordo com necessidade do grupo e das pessoas, inclui
outros temas.
E quantos jovens o Cria atende em seu
núcleo de teatro?
Tem aproximadamente 40 jovens no grupo de teatro. A
gente está com a peça Diálogos,
que é o mais novo trabalho do Cria. Colocamos
pais e filhos, irmãos e irmãs, adolescentes
e vizinhos em cena. Temos pais e mães discutindo
e passando pelo mesmo processo que os adolescentes conosco.
Então, no total, estamos com umas 50 pessoas.
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| Para
Carla Lopes, teatro do Cria expressa o que
é ser adolescente: desejo, dificuldades
e indignação com as desigualdades
sociais |
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Essa turma se renova de quanto em quanto
tempo?
Abrimos inscrição em todo início
do ano. Em janeiro, apresentamos as peças. Na
verdade, a gente não classifica como peça,
mas de ação educativa, porque logo depois
da peça abrimos um grande debate com o público.
O mais importante para nós é o retorno
da platéia, saber de que forma as coisas bateram
e por quê. A gente levava as peças às
escolas dos meninos do núcleo teatral. Como atendemos
um número pequeno de jovens, esses meninos, automaticamente,
se tornam multiplicadores.
A idéia, então, é
que esses meninos multipliquem essa experiência
montando um grupo de teatro em sua escola ou na comunidade
em que vivem?
Não só grupos de teatro. A gente trabalha
com um grupo de teatro, mas não forma atores.
A gente faz uma formação para a cidadania.
Escolhemos o teatro porque é uma forma de dizer
com mais clareza, com mais alegria, tocar em coisas
que são difíceis de tocar, mas sem tanta
dor. Aqui a gente passa por uma capacitação
intensa. Está se enxergando de verdade.
Ao mesmo tempo que trabalhamos a vertente artística,
estamos trabalhando o pedagógico, a educação.
Ao mesmo tempo que trabalhamos com dinâmica, com
improvisação, paramos também para
discutir conceitos, discutir o texto e para definir
aonde a gente quer chegar e o que sabe sobre o tema.
Esses meninos têm que assumir um compromisso com
eles mesmos e com a instituição. Têm
que ser uma referência porque as outras pessoas
não estão tendo a mesma oportunidade que
eles. Então são vários os resultados,
desde grêmios e grupos de teatro que eles montam
na escola até reunião de associação
de moradores para fazer palestras. Eles são muito
atuantes mesmo e se tornam uma referência na escola,
na comunidade e nos lugares que freqüentam.
A educação brasileira,
apesar de ter nascido com o teatro que os jesuítas
trouxeram para catequizar os índios, se afastou
muito do teatro. Como tem sido para as escolas receber
peças teatrais ou formar grupos a partir de um
de seus alunos?
A recepção é sempre muito boa.
Às vezes, claro, o pessoal da escola fica inquieto,
fica mudo. Em algumas escolas, as peças que a
gente leva são o primeiro contato das pessoas
com o teatro. É sempre gratificante porque, após
a peça, tem sempre um desenrolar, tem sempre
um grupo se formando. As pessoas se reúnem para
discutir seus direitos com os professores e a gente
acaba quebrando as barreiras, a distância entre
professores e alunos.
Vocês já têm quatro
peças no repertório do Cria, mas eu gostaria
que você falasse, especificamente, da peça
Escola: falta mais o quê? Nesse processo de criação
coletiva, quais foram as principais carências
da escola que os jovens apontaram?
Quando começamos essa peça, era muito
engraçado. A gente estava improvisando... Pegamos
três tópicos para trabalhar: a escola que
temos, a escola que queremos e a escola de que precisamos.
Na escola que nós temos, a gente viu o caos total,
cheio de depravações, o caos! Na escola
que queremos, ninguém queria nada. Pensaram numa
escola-clube, com alunos e professores de sunga, videogame
na sala de aula e tal. Com a discussão, vimos
que o que a gente precisa é que a escola que
temos funcione!
Já temos a estrutura, mas ela precisa funcionar
amplamente. São várias carências.
A maior delas é que não estão ensinando,
não estão querendo mais que as pessoas
pensem. É uma coisa bem massificada, principalmente
na escola pública. Você decorou, você
escreveu e acabou. O raciocínio, o estímulo...
Não se estimula mais a perguntar, a querer saber,
a aprender.
Vimos também a falta de informação,
tanto de professores como de alunos, quanto aos seus
direitos e deveres e o distanciamento da família
em relação à escola. A gente vem
de instituições praticamente falidas.
A família, com o decorrer dos anos, adquiriu
outra característica, por causa do corre-corre
do dia-a-dia. Antigamente, a família era bem
mais estruturada. Hoje você não tem tantas
referências do modelo do pai e de mãe ou
da conversa com os pais. Ou o pai e a mãe trabalham,
ou a pessoa não tem pai ou mãe. Aí,
a família, que não tem muito tempo para
olhar pela criança ou adolescente, joga os filhos
na escola, como se ela tivesse obrigação
de suprir tudo. E a escola também é uma
instituição que anda falindo... E como
ela vai atender a tudo isso? Quem vai formar os professores?
E nesse debate que vocês promovem,
como a platéia reage quando todas essas questões
são levantadas? O público se manifesta
de alguma forma?
Essa peça existe desde 1995 e já foi vista
aqui em Salvador, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro,
São Paulo, Minas Gerais. Em qualquer lugar, a
sensação é a mesma. Tanto alunos
da escola pública como de escolas particulares
têm uma identificação total com
o que está sendo dito sobre as carências
da escola e sobre como deve ser a escola que queremos.
As manifestações são inúmeras.
É professor que se identifica, aluno que se identifica,
porque a peça é um grande faz-de-conta.
No final perguntamos o que podemos fazer para transformar
isso. As pessoas falam muito espontaneamente, apontando
as falhas da escola e se apontando não só
como vítimas, mas como sujeitos capazes de transformar
a sua escola.
A peça sofreu modificações
nesses cinco anos?
Ela foi montada para divulgar o prêmio Vamos Redesenhar
a Escola, do Unicef e da Fundação Odebrecht,
aqui em Salvador. Eles procuraram a Maria Eugênia,
que é a diretora da peça, e nós
montamos o espetáculo. Com o tempo, a gente viu
que ela era tão completa que não dava
para parar de apresentá-la. Então, a cada
ano, quando entram mais pessoas no grupo, a peça
é retrabalhada, porque as pessoas trazem suas
vivências e apontam novas necessidades. Hoje a
gente já fala um pouquinho da Lei de Diretrizes
e Bases (LDB) e está querendo entrar um pouco
nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN). Tudo
com muita dinâmica e muito humor para que não
fique aquela coisa puramente didática. A peça
tem 35 minutos e é um faz-de-conta muito engraçado...
Como é a narrativa, ela tem
um enredo central?
Não. Ela é dividida, como já disse,
em a escola que temos, a escola que queremos e a escola
de que precisamos. É tudo uma grande brincadeira.
Até a gente cair na real, ou seja, até
falarmos da relação professor-aluno, falamos
da relação da família com a escola,
da relação entre os professores e demais
segmentos da escola.
As escolas não têm pedido
o texto ou autorização para remontar esse
espetáculo? Como elas podem fazer para levar
essa discussão para sua classe?
A gente está com um projeto este ano - com fé
em Deus ele vai sair - de fazer um livro do Cria. A
gente vai falar do processo, do que é o Cria
e de onde a gente vem para depois ensinar como remontar
a peça. A solicitação é
muito grande! Muito, muito grande! Não só
dessa, mas de todas as peças. Como só
estamos aí há sete anos, a gente está
respirando e se reestruturando um pouquinho.
Quem quiser vai ter que aguardar pelo
livro...
É, vai ter que aguardar um pouquinho pelo livro.
Você me disse, no início,
que vocês fazem um teatro acessível a qualquer
pessoa, que qualquer um pode fazer...
Pelo menos, a metodologia que a gente utiliza é
essa.
Então, o que você recomendaria
para quem quiser implantar um grupo teatral semelhante
ao do Cria em sua escola?
Querer, querer mesmo. A escola, ou a comunidade, tem
que estar aberta para ouvir, e nem sempre se ouve o
que se quer, não é? Tem que estar aberta
para se ver de uma forma mais clara, mais dura, mais
verdadeira, mais bonita e de que as pessoas estejam
mais próximas. Na verdade, o que a gente faz
é aproximar uns dos outros: professor de aluno,
pai de filho, amigo de amigo. E se despir das coisas.
Sempre é preciso ter uma pessoa que entenda o
básico sobre a metodologia e acabe aplicando
o que sabe, ter um espaço para fazer o trabalho,
um profissional, um tempo adequado. Mas o importante
é querer. As pessoas não devem identificar
isso como currículo, mas respeitar que isso faz
parte. É preciso entender as diferentes formas
de fazer educação e de pensar e repensar
a sociedade.
Centro de Referência Integral de Adolescentes
(Cria)
Rua Gregório de Matos, 21, 1o. e 2o. andar
Bairro Pelourinho
40.025-060 Salvador/BA
Tel. (71) 322-1334
cria@allways.com.br
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Imagens por Leopoldo Claro,
TV Cultura
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