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24/10/2007
Não é só a distância
entre duas capitais brasileiras que marca as vidas de duas jovens estudantes
da oitava série do Ensino Fundamental. Luísa Stoler, 14 anos,
mora na Grande São Paulo, e Jéssica Monique Rodrigues da Silva,
15 anos, na capital paranaense, Curitiba. Mas a diferença entre as garotas
vai muito além dos mais de 400 quilômetros que as separam. Luísa
faz parte de uma família que está entre os 10% da população
mais rica do País. É essa mesma parcela de brasileiros que gasta
dez vezes mais que 40% dos que possuem menores rendimentos.
Essa constatação resultou de um estudo divulgado recentemente
pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), baseado
na Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) 2002-2003, que traçou
um perfil das despesas e dos rendimentos das famílias brasileiras. Tal
pesquisa mostra que, em 2003, 40% das famílias que apresentavam baixos
rendimentos (até R$ 758,25) tinham uma despesa per capita de R$ 180,00,
enquanto 10% das famílias brasileiras mais ricas (com renda a partir
de R$ 3.875,78) demonstraram ter uma despesa per capita de R$ 1.800,00. Isso
significa que o grau de desigualdade entre os mais ricos e os mais pobres é
de dez vezes.
Segundo Luís Alceu Paganotto, técnico
do IBGE, esse é mais um dado que confirma a distribuição
irregular das riquezas no Brasil. “Existe uma disparidade muito grande
quanto à distribuição da riqueza no País, quer consideremos
a distribuição sob o aspecto geográfico, quer a consideremos
sob o aspecto familiar (ou pessoal)”, diz. O professor do departamento
de Economia da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Demian Castro,
ressalta que outros indicadores e pesquisas também demonstram essa desigualdade,
como o Gini.
Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad), em 2006,
o coeficiente Gini estava em 0,540. “O índice de Gini brasileiro
é vergonhoso comparado a uma quantidade enorme de países. Falta
tempo para que, pelo menos, caia abaixo de 0,50”, diz. O Gini varia de
0 a 1, e, quanto mais perto de zero estiver, maior o grau de igualdade das riquezas
de um país.
Independentemente do tipo de variável utilizado pelos institutos de pesquisa
para medir a desigualdade de renda, uma comparação simples feita
no dia-a-dia das duas jovens estudantes também demonstra essa diferença.
Luísa, a estudante paulistana, vive numa família de classe média
alta, com cinco pessoas, que está entre a minoria de 10% dos domicílios
brasileiros com rendimentos mensais a partir de R$ 3.875,78. Já Jéssica,
a jovem curitibana, vive numa família de um bairro pobre da cidade, com
renda familiar que ultrapassa pouco o da maioria das 40% das famílias
com renda mensal de até R$ 758,24.
Além da diferença de classe social, as duas possuem também
realidades bem distintas. Jéssica trabalha desde os 10 anos de idade
para ter sua própria renda e garantir a compra de roupas novas e algumas
atividades de lazer. Todas as manhãs, ela vai à escola (ela cursa
a oitava série de um colégio estadual) e, no período da
tarde, divide-se entre as tarefas domésticas, os trabalhos escolares
e o serviço de manicure, no salão de cabeleireiros da mãe,
Castorina, de 42 anos. “Só atendo com hora marcada, para não
atrapalhar os meus estudos”, diz.
A jovem, que sonha em cursar Direito para atuar como advogada, recebe em média
R$ 90,00 por mês. Ela conta que poupa o dinheiro para pagar contas de
crediário de roupas ou gastar com idas a shoppings, parques e lanchonetes.
“Não temos nenhum luxo, mas é sossegado viver assim. Somos
só eu e minha mãe”, conta.
A paulistana Luísa Scorsafava não precisa trabalhar. Estuda em
escola particular, faz curso de inglês e usa táxi para se locomover.
Em sua família, composta por cinco pessoas, não há um planejamento
rígido de como o dinheiro será gasto, mas é feito um controle
principalmente sobre o uso do celular e da verba para o lazer. “A escola
da Luísa custa R$ 1.300,00, isso porque ela tem bolsa parcial,”
comenta a mãe, a professora Mara. Junto com os planos de saúde,
a Educação é o que mais consome seu orçamento. Mara,
no entanto, reconhece o investimento em Educação como aquisição
de conhecimento. “Vejo alunos meus cujos pais não enxergam Educação
como investimento — até mesmo como economia. É comum ver
jovens que ‘não têm dinheiro para comprar um livro’,
mas usam iPod, celular e tênis da moda.”
Entenda as medidas:
Há várias formas de medir como os recursos estão sendo
repartidos em uma sociedade. Uma delas é a distância média
per capita da distribuição de rendimentos entre os 40% mais
pobres e os 10% mais ricos. Essa medida, utilizada na Pesquisa de Orçamentos
Familiares (POF) 2002-2003, realizada pelo IBGE, mostra o quanto a população
mais rica está situada em relação à mais pobre,
ou seja, o grau de desigualdade da distribuição. A variável
utilizada é a medida per capita familiar. Já a despesa per capita
familiar é considerada como uma capacidade de apropriação
de pessoas ou famílias e uma medida de bem-estar e pobreza. Assim,
quanto menor a despesa per capita, maior o nível de pobreza da população
em estudo.
Outro índice normalmente utilizado para medir o grau de concentração
de renda de uma população (apesar de ser considerado defasado
em relação a métodos mais novos) é o Gini, criado
pelo matemático italiano Conrado Gini. Atribui valores numa escala
de 0 a 1, numa comparação feita segundo a renda domiciliar per
capita entre os 20% mais pobres e os 20% mais ricos. Quanto mais perto de
zero estiver o Gini, maior o grau de igualdade de uma população.
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