A primeira leva de colonos alemães — composta de 39 pessoas de nove
famílias — chegou ao Rio Grande do Sul em 1824, desembarcando em
25 de julho na colônia de São Leopoldo, antiga Real Feitoria de Linho
Cânhamo. Portugal, que tinha sua navegação baseada em navios
de vela, precisava de muitas cordas para eles. Então, em muitos lugares,
havia feitorias que produziam a cordoalha necessária, tirada do linho cânhamo.
A feitoria que abrigou os alemães ficava exatamente onde é hoje
a cidade de São Leopoldo. “No lugar não existia nada. O governador
da província, José Feliciano Fernandes Pinheiro, trouxe os primeiros
colonos e os colocou na única construção que existia no local.
Quando ela foi fechada, dois meses antes, abrigava 321 escravos. Os alemães
foram albergados lá até que ganhassem suas terras e começassem
a trabalhar”, esclarece o historiador.
A partir de São Leopoldo, as colônias alemãs se espalharam
primeiro pelas áreas mais próximas, atingindo depois zonas mais
isoladas. Geralmente, as colônias — principalmente as primeiras —
situavam-se à beira de rios. Isso tinha uma grande importância estratégica:
em uma época em que os caminhos eram muito precários, os rios serviam
como “estradas fluviais” para o recebimento de equipamentos e o escoamento
da produção.
De maneira geral, a colonização obedeceu a uma ocupação
sistemática. Apesar da interrupção da imigração
e da colonização, patrocinadas pelo governo central a partir de
1830 (a prática seria retomada mais tarde), o governo da Província
(em alguns períodos) e particulares dedicaram-se a criar colônias
e vender os lotes.
No último decênio do século XIX, não existiam mais
terras à venda nas margens inferiores dos rios, e a serra já estava
ocupada pelos italianos (que começaram a chegar na década de 70).
Iniciou-se, então, a colonização do Alto Uruguai, com colônias
que iam desde Marcelino Ramos até o Rio Ijuí. Nessa etapa, foram
criadas quase que exclusivamente colônias particulares, com algumas exceções,
como Sobradinho (1901) e Erechim (1908), que foram patrocinadas pelo estado,
e Ijuí (1890), criada pela União.
Outra característica dessa fase é que, enquanto nas colônias
particulares predominavam grupos de uma mesma etnia, nas oficiais havia a preocupação
de misturar elementos de diferentes origens. Isso foi feito, por exemplo, em
Ijuí, que desde sua criação recebeu colonos das mais variadas
procedências.
As novas colônias que surgiram a partir do núcleo inicial de São
Leopoldo não foram, entretanto, ocupadas apenas por imigrantes alemães.
Houve um processo a que o historiador Jean Roche — outro estudioso da
imigração alemã para o Rio Grande do Sul — deu o
nome de “enxamagem”. Os filhos de colonos (ou até mesmo os
colonos) das zonas mais antigas saíam em busca de terras nas novas regiões
e, com isso, iam ocupando boa parte do Rio Grande do Sul. Quando, depois de
1914, não existiam mais áreas disponíveis no estado, esses
colonos passaram a migrar para Santa Catarina e Paraná e, de lá,
foram para o Mato Grosso.
Mudança de mentalidade
Mesmo com todas as dificuldades que os povos imigrantes encontraram nos novos
países — como, por exemplo, diferenças de idioma, cultura
e clima —, os alemães promoveram uma verdadeira mudança
ao instalarem-se no Brasil.
A primeira delas, segundo o historiador Telmo Lauro Müller, deu-se no
aspecto econômico, pois, além de colonos, eles eram artesãos.
“Os sobrenomes eram baseados nas atividades que as famílias tinham
na Alemanha: Schmidt, ferreiro; Müller, construtor de moinhos d’água;
Schreiner, construtor de móveis; Schneider, alfaiate; Shumacher, sapateiro;
Wagner, que faz carretas”, aponta. Todas essas famílias tomaram
conta do Vale dos Sinos, criando um setor industrial que é hoje o segundo
mais importante no Rio Grande do Sul.
Na Alemanha, já havia escolas. Chegando aqui, diz Müller, muitas
famílias abriram suas próprias instituições de ensino,
já que no interior do Brasil elas eram inexistentes. Assim, contribuíram
enormemente para a cultura. “Não é à toa que o Rio
Grande do Sul tem um dos menores índices de analfabetismo do país”,
afirma.
Em seu país de origem, essas famílias também já
contavam com várias sociedades de canto, tiro e ginástica, que
também acabaram sendo trazidas para o Brasil. O historiador relata que
a primeira sociedade alemã no Brasil data de 1858 e está em São
Leopoldo — é a Sociedade de Canto Orfeu, que funcionou ininterruptamente,
mesmo durante as grandes guerras. Em Porto Alegre, surgiu a Sociedade de Ginástica
Porto Alegre — Sogipa —, a primeira sociedade de ginástica
do estado.
“Todas elas tinham nomes alemães. Mas, durante a Segunda Guerra
Mundial, houve um período conhecido como nacionalização.
Estrangeiros, principalmente alemães, não eram muito bem vistos,
chegando a ser perseguidos. Sua língua e o ensino dela, seus cultos e
jornais foram todos proibidos, embora toda essa gente tenha contribuído
tanto para o país”, lamenta.