21/05/2008 Por César Munhoz
Comentários de:
- César Munhoz, jornalista do portal
- Ederson Santos Lima, historiador do portal
Foto:
AFP
Nas ruas de Nápoles, há mais lixo que pessoas.
Algo não cheira bem em Nápoles,
na Itália. É a crise do lixo, que há 15 anos vai e volta
sem solução, levando caos à vida dos moradores do sul
do país. Imagine andar pela sua cidade e ter que desviar de pilhas
e pilhas de lixo. É assim que os napolitanos estão vivendo há
dias. Entre 17 e 19 de maio, a população incendiou pilhas de
lixo em protesto. Foram registrados mais de 70 incêndios só naquele
final de semana. Na ocasião, havia nada menos que 50 mil toneladas
de dejetos espalhados pela cidade. O exército italiano está
realizando uma força tarefa para recolher o lixo, mas ainda resta 1,3
toneladas nas ruas.
Além de sofrer com o cheiro, as pessoas
estão assustadas com o aumento do número de ratos, que podem
transmitir doenças. O fato lembra a peste negra, que assolou a Europa
durante o final da Idade Média. Isso sem falar nos riscos de doenças
respiratórias e de câncer, causados pela dioxina que é
liberada na queima do lixo.
Lixo, doenças e história
Foto:
Illustrations de Cy est la danse macabre des femmes. Bibliothèque
nationale de France/Gallica.
A Peste Negra causou mortes e muito medo nos europeus do século
XIV.
A crise do lixo em Nápoles e
as imagens que têm circulado pelo mundo deixam claro que um dos
problemas a serem enfrentados pelos países no século XXI
é o destino de milhões de toneladas de dejetos produzidas
diariamente pelos homens.
As doenças que ameaçam
a população napolitana, oriundas especialmente do crescimento
de ratos, ratazanas, moscas, mau cheiro e gases tóxicos, podem
parecer novidade para nós, que vivemos entre o final do século
XX e início do XXI. Ver lixo acumulado nas cidades não é
comum, visto que ele vai para aterros sanitários. Lixo sempre existiu,
a questão agora é saber o que fazer com ele.
Dois exemplos para perceber o quão
antigo é o problema do lixo: no final da Idade Média, a
famosa Peste Negra matou milhões de europeus entre os anos de 1346
e 1350. A sua disseminação foi amplamente facilitada pelo
acúmulo de lixo nas cidades européias, o que contribuiu
para a proliferação de ratos e pulgas. Vale lembrar que
este era apenas um dos problemas. A falta de saneamento básico
(que também inclui água limpa e tratamento esgoto) como
um todo, contribuíram para o agravamento da epidemia.
Quase 500 anos depois, na Inglaterra
da Revolução Industrial, as toneladas de lixo industrial
e doméstico que eram jogadas no rio Tâmisa provocavam não
uma, mas várias doenças. É importante lembrar que
o rio poluído pelas indústrias e pelos moradores era também
o fornecedor de água para consumo.
Voltando à Inglaterra do século
XVIII, uma das doenças que mais atingiram os ingleses foi a cólera
entre 1831 e 1832, devido à sujeira do rio e às poucas alternativas
para o cidadão obter água limpa. Tifo, difteria, varíola
e tuberculose também devastaram a ilha britânica naquela
época.
A cidade de Londres foi tão afetada
pela poluição industrial que era depositada no leito do
rio, que no ano de 1858 a sessão do Parlamento britânico
chegou a ser cancelada devido ao mau-cheiro. Esse período da história
londrina ficou conhecido como “Tempos do Grande Fedor”.
Mas como esse lixo todo foi parar nas ruas?
Acontece que os aterros sanitários que servem Nápoles estão
cheios há 15 anos. Em janeiro de 2008, os garis entraram em greve,
afinal, para onde iriam levar o lixo? Hoje, boa parte dele está indo
para a Alemanha (o envio custa 250 euros por tonelada).
A Itália recebeu no dia 21 de
maio um novo governo, comandado por Silvio Berlusconi, que promete acabar
com a crise do lixo. Pena que ele não vai conseguir
fazer isso antes da chegada do verão no hemisfério
norte, o que vai tornar a situação dos habitantes ainda
pior.
Entre as soluções propostas estariam a criação
de novos aterros sanitários e lixões e a construção
de depósitos de tratamento de lixo, além da participação
do Exército na retirada dos dejetos das ruas.
O fato é que para resolver o problema de verdade, será preciso
encarar a Camorra, a máfia de Nápoles. A organização
é dona de vários aterros na região, e vive sabotando
qualquer esforço governamental no sentido de encontrar novos aterros
ou instalar incineradores de lixo. A Camorra é conhecida como uma
das mais poderosas máfias do mundo. E agora, está nas mãos
de Berlusconi mostrar quem manda na região: o povo e as autoridades
ou a máfia e o lixo.
Capital da pizza
e do homicídio
Nápoles é famosa pela
beleza da cidade e também por ser o lar da verdadeira pizza napolitana.
Mas há muito tempo deixou de ser atração turística
para se tornar a capital italiana do lixo e do homicídio. Boa parte
dessa fama pode ser atribuída a um grupo que governa a cidade fora
dos prédios oficiais. É a Camorra, uma das máfias
mais poderosas do mundo.
Não se sabe ao certo como ela
surgiu. Há registros de que ela descende da Garduna, uma organização
criminosa que agiu na Espanha no final da Idade Média. Mas a Camorra
estabeleceu-se mesmo no século 19, durante parte da dinastia dos
Bourbon em Nápoles, quando seus membros atuavam na polícia
e no exército e lutavam contra o poder de grandes latifundiários
e contra o próprio Estado. Desde então, reina como poder
paralelo sobre a Campânia (região italiana que abrange Nápoles,
Salerno, Avellino, Benevento e Caserta), reinado este só interrompido
quando Benito Mussolini tomou o poder, em 1922. Na época, muitos
dos Camorristas fugiram para os Estados Unidos, e muitos se aliaram à
Cosa Nostra, ramo mafioso surgido na região da Sicília.
Só nos últimos 25 anos,
a Camorra foi responsável por mais de 4 mil mortos e por um faturamento
médio anual nos últimos 5 anos de cinco bilhões de
dólares. A Camorra está infiltrada em vários setores
do poder público italiano, o que dificulta as ações
do governo para coibir a ação do grupo. No caso do lixo,
a Camorra controla a coleta e o armazenamento do lixo da cidade. O problema
teve início nos anos 80 quando a máfia da Campânia
lentamente passou a dominar as empresas que faziam coleta. O lixo como
negócio irresponsável e negligente com o meio ambiente chega
a ser mais lucrativo que outras atividades criminosas como as drogas.
O governo italiano tem tido um posicionamento muito fraco quanto à
abertura de novos espaços para depósito, armazenamento e
tratamento do lixo.
Enquanto isso a população tem sido penalizada com o risco
de doenças desde o dia 21 de dezembro de 2007, quando o sistema
de coleta de lixo passou a operar de maneira falha. Houve apenas coletas
esporádicas desde então.