22/02/2008 Por César Munhoz
Comentários de:
- Ederson Santos Lima, historiador do portal
- Ricardo von Staa, cientista político do portal
Foto: AFP/ Dimitar Dilkoff
Kosovares comemoram, nas ruas, sua declaração de
independência.
Kosovo não faz mais parte da Sérvia.
Pelo menos é o que diz a declaração assinada, em 17 de
fevereiro de 2008, por 104 parlamentares kosovares e anunciada por Hashim
Thaci, primeiro-ministro da província, ou melhor, da ex-província.
Na verdade, existe uma confusão quanto a isso, pois a declaração
de independência foi unilateral. Ou seja, não houve um acordo
prévio entre Kosovo e Sérvia sobre a separação.
Esta é contra a independência principalmente porque Kosovo concentra,
em seu território, muitos elementos importantes da história
do povo sérvio. Mas por que, então, existe o desejo de separação?
Independência
de Kosovo: diferenças étnicas voltam a assustar a Europa
A declaração — unilateral,
diga-se de passagem — de independência da província
sérvia do Kosovo, muito provavelmente não deverá
ser o capítulo final, mas apenas mais um na longa história
de conflitos étnicos que há dezenas de anos ocorrem na região
dos Bálcãs.
Para pensarmos na questão de Kosovo e Bálcãs, é
imprescindível lembrar da invasão e do domínio dessa
região européia pelo antigo Império Turco-Otomano
ao longo do século XIV. A ocupação acabou por disseminar
não somente a língua e a religião muçulmana,
mas todo um legado cultural ligado ao islamismo. Essa herança,
somada a fatores político-econômicos, colocou os sérvios,
na maioria cristãos-ortodoxos, em uma posição antagônica
aos kosovares, que são, em sua maioria, de origem albanesa, com
grande influência islâmica.
Essa disputa deixou uma marca tão forte na mente das pessoas,
que a Batalha de Kosovo, ocorrida em 1389, em plena Idade Média,
foi utilizada como um dos motes para justificar o mais intenso período
de massacres cometidos por sérvios contra a população
kosovar em 1990.
Durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945),
a região da Iugoslávia foi ocupada por tropas da Alemanha
nazista. Nessa ocasião, milícias populares foram organizadas
para combater a invasão nazista. O croata Josep Broz Tito teve
papel importante nessa reação: após comandar a resistência
dos partisans (nome dado aos militantes que combateram o nazismo), tornou-se
o grande líder da Iugoslávia do pós-guerra.
Com mão de ferro e muita habilidade, Marechal Tito conseguiu manter
as diferentes culturas étnicas da região sob o nome de “Iugoslávia”.
Assim, eslovenos, croatas, sérvios, macedônios, montenegrinos,
kosovares de origem albanesa e bósnios, apesar das diferenças,
mantinham-se unidos sob sua forte liderança.
Com a morte de Tito, em 1980, o caldeirão iugoslavo perdeu sua
principal liderança e, com isso, abriu caminho para que as diferenças
religiosas, lingüísticas, culturais, políticas e econômicas
provocassem as violentas guerras da Bósnia (1992-1995) e de Kosovo
(1998-1999).
Apesar das intervenções da União Européia
(UE) e da Organização das Nações Unidas (ONU),
a região da ex-Iugoslávia tem sido palco de uma constante
tensão diplomática, exigindo grandes esforços para
que confrontos violentos sejam evitados.
Com a declaração unilateral de independência de Kosovo,
anunciada dia 17 de fevereiro, a ameaça de um novo conflito volta
à tona, pois potências militares e econômicas se posicionaram
em lados opostos, como é o caso da Rússia, favorável
à Sérvia, e da Alemanha, Inglaterra e Estados Unidos, favoráveis
aos kosovares. O xadrez da política balcânica e européia
está novamente indefinido.
Feita a declaração unilateral,
cabe agora a cada país reconhecer ou não a independência
de Kosovo. Entre os que apóiam a criação do novo país
estão os Estados Unidos, que já se mostravam favoráveis
à idéia. A independência do território kosovar
também foi reconhecida pela maioria dos membros da Comunidade Européia,
que deu liberdade para cada Estado decidir sobre a questão. A Alemanha,
por exemplo, foi uma das primeiras a se manifestar a favor. Já a Espanha
e a Rússia disseram não.
Você reconheceria
a independência de Kosovo?
Por Ricardo von Staa, cientista
político do portal
Se você fosse o governante de
um país, como reagiria à declaração de independência
de Kosovo?
Essa é a pergunta que muitos países estão tentando
responder neste momento. Antes de tentar respondê-la, cada governante
terá de entender o que esse reconhecimento causará em sua
política externa e, principalmente, em seu território.
Alguns países, como a Espanha, foram rápidos em dizer não.
Afinal de contas, como o governo espanhol pode reconhecer a independência
de uma província que quer autonomia se ele não aceita a
independência do País Basco e da Catalunha?
Os Estados Unidos e as principais potências européias que
integram a OTAN (Organização do Tratado do Atlântico
Norte), pelo contrário, foram rápidos em reconhecer a independência.
Kosovo conquistou sua autonomia em relação à Sérvia
graças a uma intervenção militar da OTAN. Após
a campanha militar, EUA, Alemanha, França e Inglaterra ofereceram
apoio fundamental para o estabelecimento do atual governo de etnia albanesa.
Tal governo tornou-se um aliado desses países na região
e, portanto, seria um erro diplomático não reconhecer a
independência de Kosovo.
A Rússia, entretanto, possui laços históricos com
a Sérvia e vê muitos paralelos entre a luta pela autonomia
do território kosovar e a luta pela autonomia da Chechênia.
Portanto, reconhecer a independência de Kosovo seria uma traição
à aliança histórica com a Sérvia.
Contudo, para a Rússia, a declaração de independência
de Kosovo e o seu imediato reconhecimento pelos EUA trouxe uma conseqüência
interessante: a Rússia defende a autonomia de Abkhazia e Ossétia
do Sul, duas províncias da Geórgia. Tropas russas ocupam
essas províncias e apóiam os governos locais, da mesma forma
que as tropas da OTAN, lideradas pelos EUA, atuaram em Kosovo. Será
que Kosovo abre um precedente a favor da independência dessas províncias
na Geórgia? Não será contraditório se os EUA
e as potências européias não reconhecerem a independência
desses territórios, caso ela seja declarada?
A independência de Kosovo é altamente indesejada pela Sérvia
por vários motivos, incluindo a possibilidade de que Vojvodina,
província com alta concentração de habitantes de
etnia húngara, volte a buscar sua autonomia. Outros países
dos Bálcãs também não ficaram contentes com
a declaração de independência. A Macedônia,
por exemplo, que luta, desde a sua emancipação, contra o
UCK (movimento armado albanês que busca a independência de
algumas regiões do país), teme que a independência
de Kosovo fortaleça os rebeldes.
O medo é que essa declaração
de independência desencadeie uma série de conflitos nesta região,
cujos povos já têm um histórico complicado de convivência.
No dia 19 de fevereiro, centenas de manifestantes sérvios destruíram
postos de controle da ONU instalados na fronteira de Kosovo. Em resposta,
a OTAN enviou tropas à região para fechar a fronteira norte
do território kosovar. A União Européia também
prometeu enviar reforço policial, apesar de alguns de seus membros
não concordarem com a ação. E, no dia 21, a embaixada
dos Estados Unidos em Belgrado, capital da Sérvia, foi incendiada.
A declaração de independência de Kosovo é uma questão
em aberto, que pode se desdobrar em acontecimentos nada pacíficos.