Lançamento de foguete estremece relações internacionais
Publicado em 03/04/2009
Atualizado em 01/06/2009 Por Bárbara Espínola
Comentários de:
- Sandro Luís Ferreira, físico do portal;
- Alessandro Haus, químico do portal;
- Camila Castro de Souza, historiadora do portal.
Desde que a Coreia do Norte realizou, no dia 5 de abril de 2009, o lançamento de um foguete o clima entre ela, os Estados Unidos, a Coreia do Sul e o Japão está cada vez mais tenso. Embora as autoridades norte-coreanas tenham alegado que a finalidade do foguete era a de somente colocar um satélite em órbita — o que classificaria esse lançamento como um projeto espacial pacífico —, há suspeitas de que, na verdade, tenha sido um teste com o foguete norte-coreano Taepodong-2, capaz de lançar tanto uma ogiva nuclear quanto um satélite.
Depois desse episódio, a Coreia do Norte abandonou o acordo de desarmamento nuclear e reativou seu principal reator. Mas não ficou por aí: no dia 25 de maio, o país voltou a fazer testes nucleares e de mísseis balísticos. No dia seguinte, mesmo com a condenação dos lançamentos pela Organização das Nações Unidas (ONU), a Coreia do Norte lançou mais mísseis, totalizando cinco nesses dois dias.
Tais medidas estão causando fortes reações dos Estados Unidos e da Coreia do Sul, que, desde então, vêm trocando ameaças com o governo norte-coreano.
Clique aqui para ler sobre as questões envolvidas nesse caso, abordadas pela historiadora do portal, Camila Castro de Souza.
Leia abaixo algumas informações importantes sobre o lançamento ocorrido em abril e que estão relacionadas aos testes nucleares realizados em maio pela Coreia do Norte.
A Coreia do Norte e a questão nuclear
A preocupação em monitorar o uso que os países fazem de tecnologias à base de energia nuclear e evitar sua utilização bélica começou na Guerra Fria e se concretizou em 12 de junho de 1968, quando a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), órgão da ONU responsável pela fiscalização nuclear, propôs o Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP).
Esse tratado permite que alguns países desenvolvam a tecnologia nuclear necessária para geração de energia elétrica e demais fins pacíficos, mas sempre sujeitos à inspeção da AIEA. Ele foi inicialmente assinado pela Grã-Bretanha, pelos Estados Unidos (potência capitalista) e pela URSS (potência comunista), nações rivais na Guerra Fria com capacidade de produzir armas atômicas.
Posteriormente, em 12 de dezembro de 1985, a Coreia do Norte assinou o tratado. Entretanto, ele não foi totalmente cumprido pelas autoridades norte-coreanas. Um dos motivos que explica esse não cumprimento foi a recusa da Coreia do Norte em assinar imediatamente o acordo de salvaguarda, que permitia inspeções regulares de pesquisas nucleares pela AIEA, para garantir a segurança da população contra o mau uso de energia nuclear. Esse acordo foi assinado somente em 1992.
Outro motivo foi o pedido para estabelecer uma zona livre de armas nucleares na Península da Coreia. Mas a questão nuclear não para por aí: no ano seguinte, em 1993, os norte-coreanos declararam sua retirada do TNP. Essa decisão foi tomada quando a AIEA sugeriu que a Coreia do Norte ocultava material nuclear, pois as autoridades do país não permitiam a entrada de inspetores da ONU nas instalações onde eram realizadas pesquisas nucleares. Iniciaram-se, assim, as relações problemáticas entre Coreia do Norte e EUA sobre a questão nuclear.
Especula-se que o foguete norte-coreano tenha capacidade técnica de lançar uma ogiva com explosivos tradicionais, armas químicas ou biológicas ou até mesmo uma ogiva nuclear. O que não se sabe é se a Coreia do Norte possui tecnologia para a) desenvolver uma ogiva capaz de suportar o atrito com o ar e b) miniaturizar uma bomba nuclear a ponto de ser possível acondicioná-la na ogiva.
Uma arma nuclear é um dispositivo que utiliza energia de reações nucleares, as quais se dividem em três tipos: fissão nuclear, fusão nuclear e decaimento. Uma arma nuclear pode utilizar qualquer um deles. Em uma bomba de fissão nuclear, por exemplo, um material radioativo formado por elementos pesados como o urânio ou o plutônio é desintegrado (fissionado — daí o nome) em uma reação em cadeia. Essa reação ocorre porque cada núcleo atômico é fissionado quando atingido por um nêutron e, quando isso ocorre, ele libera outros nêutrons, que vão fissionar outros núcleos, e assim por diante. A reação é extremamente rápida e libera grande quantidade de energia. Esse processo é o mesmo utilizado nas usinas nucleares, com a diferença de que, nas usinas, o processo é mais controlado, impedindo que ocorra uma explosão.
Já em uma bomba de fusão nuclear, núcleos de elementos leves, como o hidrogênio e o hélio, fundem-se formando elementos mais pesados. A reação também ocorre em cadeia de forma explosiva e libera mais energia do que a reação de fissão. Vale lembrar que uma bomba de fusão nuclear nunca foi usada em conflitos. As duas únicas bombas nucleares já utilizadas, contra o Japão no final da Segunda Guerra Mundial, eram de fissão.
Uma bomba de nêutrons é uma bomba de fusão nuclear na qual os nêutrons produzidos não são absorvidos no interior da bomba, mas, sim, liberados. Ela é reduzida de forma a minimizar o efeito destruidor: emite raios X e nêutrons de alta energia, que afetam seriamente organismos vivos, mas sem causar danos a estruturas ou veículos. O raio de ação também é reduzido: cerca de 1,7 quilômetro. Não é o tipo de arma que se usa em lançamentos de longa distância com mísseis. É mais provável que seja usada no caso de uma invasão de território por tropas inimigas, que poderiam ser eliminadas com o lançamento da bomba, preservando-se, no entanto, a estrutura da cidade ou do alojamento.
Por último, há um tipo de arma nuclear que faz uso somente do decaimento de materiais radioativos. É a bomba suja, que espalha no meio ambiente algum material radioativo, contaminando tudo em volta: água, solo, plantas, animais, pessoas, casas, utensílios, veículos, etc.
Essa não seria a primeira vez que a Coreia do Norte realiza testes com o Taepodong-2. Em 2006, o país fez um teste com esse mesmo foguete. Menos de um minuto após seu lançamento, o artefato explodiu e seus destroços caíram no Oceano Pacífico. Após esse episódio, a ONU determinou que a Coreia do Norte estava proibida de realizar atividades balísticas.
O primeiro teste com mísseis de longo alcance da Coreia do Norte
O lançamento aconteceu em 1998, na cidade de Pyongyang (capital norte-coreana), e o míssil sobrevoou o Japão antes de cair no Oceano Pacífico. Essa atitude abalou as relações diplomáticas entre vários países e a Coreia do Norte, que foi proibida de continuar seu programa armamentista.
Em 2002, as relações internacionais norte-coreanas voltaram a ficar conturbadas quando o então presidente estadunidense George W. Bush retomou a discussão sobre a proliferação de mísseis de longo alcance, tratando essa disseminação como um ato terrorista do mesmo nível que o ataque aos Estados Unidos em 11 de setembro de 2001. Os países desenvolventes dessa tecnologia — Coreia do Norte, Irã e Iraque — foram denominados por ele de Eixo do Mal.
Algum tempo depois, em 2006, o programa de fabricação de mísseis de longo alcance e a questão nuclear reavivaram as discussões entre os EUA e a Coreia do Norte. Os estadunidenses afirmaram que não entrariam em conflito com os norte-coreanos, mas estavam dispostos a proteger seu território caso estes lançassem mísseis.
No dia 9 de outubro do mesmo ano, a Coreia do Norte realizou um teste nuclear. Os EUA, a Coreia do Sul, a Inglaterra e até mesmo a China — aliada histórica da Coreia do Norte —, consideraram-no uma provocação e pediram medidas ao Conselho de Segurança da ONU para restringir a ação nuclear norte-coreana.
Não se sabem ao certo as características do Taepodong-2, uma vez que a Coreia do Norte mantém sigilo sobre essas informações, mas especula-se que o foguete seja de longo alcance, sendo capaz de alcançar até mesmo o Alasca e a costa oeste da América do Norte.
O início do uso dos foguetes
A referência mais antiga sobre o uso de foguetes vem da China: tubos de bambu cheios de pólvora — uma invenção também deles — eram atirados em fogueiras durante certos rituais religiosos.
Há relatos de que, em 1232, foguetes chineses foram usados para repelir um ataque de mongóis na Batalha de Kai-fung-fu. E os mongóis também parecem ter feito uso militar de foguetes, pois consta que os teriam usado contra os húngaros em 1241, quando dominaram a cidade hoje conhecida como Budapeste, e há também textos árabes de 1258 que relatam o uso de foguetes mongóis contra a cidade de Bagdá. Mais tarde, os árabes utilizaram foguetes contra a Armada Francesa de Luís IX, durante a Sétima Cruzada, em 1268.
O funcionamento básico de um foguete é baseado na Terceira Lei de Newton, a Lei da Ação e Reação — por isso, também se diz que o motor de um foguete é um motor de reação.
Quando o foguete é lançado, seu motor de reação expele gases quentes (produzidos com a queima do combustível) em grande quantidade e altíssima velocidade, produzindo uma força de reação que impulsiona o projétil para frente. Se o funcionamento básico é simples, o mesmo não se pode dizer dos detalhes técnicos, que são altamente complexos, tanto que poucas nações no mundo dominam a técnica de construção e lançamento de foguetes.
Os motores dos foguetes utilizam como combustível substâncias sólidas ou líquidas. Os combustíveis sólidos são produzidos por meio de um processo que faz com que uma mistura de líquidos e sólidos endureça. Esses propelentes podem ser formados por um combustível de base dupla, em que o combustível e o comburente estão juntos (como, por exemplo, a nitroglicerina e a nitrocelulose), ou por um polímero, que funciona como combustível, e um sal inorgânico, que é o comburente.
Os combustíveis líquidos são divididos em monopropelentes, em que o combustível e o comburente estão misturados, e bipropelentes, cujas substâncias estão separadas, misturando-se apenas no momento da ignição do foguete.
O funcionamento do foguete independe do tipo de combustível que utiliza, pois sempre ocorre uma reação de combustão que gera uma grande quantidade de gases, os quais, quando expelidos, propulsionam o foguete no sentido contrário.
O Taepodong-2 é um projeto norte-coreano de um míssil que, possivelmente, tem três estágios. Estima-se que um míssil com 2 estágios tenha um alcance de 4 mil quilômetros, enquanto um com três estágios chegue até 10 mil quilômetros. Cada estágio de um modelo de foguete como o Taepodong-2 dura aproximadamente 100 segundos e, portanto, esse míssil pode funcionar por cerca de 5 minutos. A capacidade de carga útil depende do alcance. Com o alcance máximo (10 mil quilômetros), a capacidade é calculada em 500 quilos. Provavelmente, o primeiro e o segundo estágio do Taepodong-2 utilizam combustível líquido e o terceiro, um combustível sólido.
Por Sandro Luís Ferreira
A interceptação de um míssil
Jornais do mundo todo noticiam que o Japão prepara baterias antimísseis Patriot contra o lançamento do foguete norte-coreano. Carregados com mísseis PAC-3, os Patriot darão apoio a dois navios antimísseis Aegis no Mar do Japão. Eles podem ser usados para interceptar o foguete norte-coreano ou partes dele se estas forem consideradas uma ameaça e somente se os navios Aegis não conseguirem detê-las primeiro.
Um míssil de interceptação deve ser dirigível de alguma forma, pois deve perseguir o alvo até o atingir. Ele pode ser teleguiado ou autoguiado. Na primeira situação, um controlador em terra executa as manobras necessárias por meio de ondas de rádio para controlar o foguete e, na segunda, um dispositivo sensível aos raios infravermelhos instalado no próprio míssil detecta o alvo (um foguete, um míssil, uma aeronave), permitindo que, por meio de um sofisticado sistema, o foguete persiga a fonte de calor até o impacto.
No caso dos mísseis Patriot, um sistema de radar em terra encontra e identifica o alvo. O lançamento é feito por meio de uma bateria de mísseis, a qual pode conter o míssil propriamente dito, um lança-mísseis, uma antena de radar, uma estação de controle e um caminhão que transporta um gerador de energia elétrica.
Há dois modelos de míssil Patriot: o PAC-2 e o PAC-3. O PAC-2 tem 5,2 metros de comprimento e 41 centímetros de diâmetro, pesa cerca de 900 quilos, carrega uma bomba de fragmentação de 90 quilos e voa a 6.500 km/h — mais de cinco vezes a velocidade do som. O PAC-3 carrega uma bomba de fragmentação de 73 quilos e tem o mesmo comprimento que o PAC-2, mas "apenas" 312 quilos e 25 centímetros de diâmetro. Por serem mais leves e compactos, um lança-mísseis pode transportar até 16 projéteis desse tipo. O PAC-3 é mais eficiente e é utilizado quando se quer destruir completamente o alvo.
Sob a ameaça de um contra-ataque do exército norte-coreano, a interceptação do míssil pelos EUA, pela Coreia do Sul ou pelo Japão não chegou a ocorrer nem a atingir o território desses países, mas ainda assim acentuou a tensão entre eles. A paz na Península da Coreia (região onde se encontram Coreia do Sul e do Norte) está severamente abalada, visto que a agência estatal norte-coreana declarou que o porta-voz do exército do regime comunista afirmou que “o menor ato hostil contra nossa república, incluindo a interceptação e a revista de nossos navios pacíficos, enfrentará como resposta um ataque militar forte e imediato”, ele também fez mais uma provocação ao país vizinho e aos Estados Unidos: “Os imperialistas dos EUA e o grupo do traidor Lee Myung-bak (presidente da Coreia do Sul) levaram a situação na península coreana a um estado de guerra.” A Coreia do Sul, por sua vez, já garantiu que pretende responder “duramente” caso ocorra outra provocação norte-coreana.
Península da Coreia: a história dos séculos XX e XXI
Vamos retroceder no tempo até o início do século XX, quando a Península da Coreia foi o foco central da rivalidade entre potências asiáticas, provocada pela tentativa da Rússia e do Japão de estender sua esfera de influência nesse território, dividido pela linha do Paralelo 38.
Essa rivalidade deu início à Guerra Russo-japonesa (1904-1905). Após o final desse conflito, foi assinado um acordo que estabeleceu o domínio japonês na Península da Coreia. Em 1910, a Coreia foi formalmente anexada ao Japão, sendo transformada em uma colônia.
A partir de 1919, iniciou-se uma série de mobilizações de países coloniais e semicoloniais, incluindo a Coreia, motivadas por concepções nacionalistas e de libertação do domínio japonês.
Nos anos 20, integrantes de grupos contra a colonização japonesa que foram exilados na China e na União Soviética (URSS) começaram a introduzir ideias comunistas e nacionalistas na Coreia, como prosseguimento dos movimentos nacionalistas iniciados em 1919. Porém, a forte repressão política não favoreceu a manutenção desses grupos e alguns de seus líderes foram presos. Mesmo assim, o movimento comunista não foi extinto e, em 1925, o Partido Comunista Coreano foi fundado na cidade de Seul.
Dando um salto no tempo, chegamos em 1945, ou seja, no final da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), conflito do qual o Japão saiu derrotado após o lançamento das bombas atômicas sobre as cidades de Hiroshima e Nagazaki. Esse resultado fez com que o Japão perdesse o domínio de seus territórios e da Península da Coreia, que foi dividida em duas zonas de influência, tendo como marco, novamente, o Paralelo 38: o norte foi ocupado por tropas soviéticas e o lado sul-coreano, pelos EUA.
Em 15 de agosto 1948, o sul formou a República da Coreia (capitalista) e, em 9 de setembro, foi proclamada a República Democrática Popular da Coreia (comunista) ao norte. Os dois governos reivindicaram a unificação do território, tentando introduzir sua influência política. Comunistas e capitalistas bateram de frente e os países não entraram em acordo, o que ocasionou a Guerra da Coreia (1950–1953), deflagrada quando o norte realizou um ataque surpresa e invadiu a parte sul do território com o pretexto de unificar as regiões que estavam sob o regime socialista. Resultado final: não houve acordo de unificação entre as Coreias.
A década de 60 do século XX foi o período do avanço industrial da Coreia do Norte. Apoiado pela URSS e China, o país adotou o sistema econômico socialista, baseado na planificação econômica — a maior parte da economia estava centralizada no Estado e, a restante, em cooperativas — e dedicou-se ao desenvolvimento da indústria pesada (metalurgia, siderurgia), inclusive a armamentista. A intenção era a de estabelecer a autossuficiência da indústria de base.
O rápido desenvolvimento industrial ocorrido nessa década foi ocasionado, principalmente, pela exportação de armamentos aos países do Oriente Médio e África.
Na Coreia do Sul, também houve um grande desenvolvimento industrial, com a formação dos Tigres Asiáticos (Coreia do Sul, Taiwan, Hong Kong e Cingapura). A estratégia econômica utilizada por esses países consistia na obtenção de capital estrangeiro, aquisição de mão de obra barata e isenção fiscal para instalação de empresas.
O desenvolvimento econômico entre as duas Coreias se inverteu durante a década de 70 do século XX, com a Coreia do Sul superando economicamente a do Norte. Um dos motivos foi o enfraquecimento das relações internacionais entre China e Coreia do Norte, causado pela reforma administrativa chinesa, que ocorreu após o ingresso do país no Conselho de Segurança da ONU em 1972.
Outro fator de desestabilização financeira da Coreia do Norte foi a desaceleração do setor industrial e a instabilidade política da URSS. Mesmo com as reformas político-econômicas na União Soviética, promovidas por Mikhail Gorbatchev (1985-1991), glasnost e perestroika (reestruturação econômica), o bloco socialista permaneceu em dificuldades.
O gradativo enfraquecimento do bloco socialista levou à queda do Muro de Berlim em 1989, que desencadeou, por sua vez, a unificação da Alemanha. Contrária ao processo de abertura política de Gorbatchev, a Coreia do Norte enfrentou sérios problemas diplomáticos e sua crise econômica foi aprofundada.
Em 1990, a Coreia do Norte propôs sua reunificação com a do Sul, sob a condição de que o exército dos EUA se retirasse da região sul-coreana, mas isso não aconteceu. Por causa desse impasse, a unificação dos dois países está longe de acontecer.