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O Brasil no espaço sideral
30/03/2006
Por César Munhoz

     
 

100 anos depois de inventar a aviação, o Brasil lança seu primeiro cosmonauta ao espaço. Marcos César Pontes foi enviado nesta quinta-feira à Estação Espacial Internacional, onde permanecerá oito dias, realizando experimentos nacionais em ambiente de microgravidade. Para a Agência Espacial Brasileira, é a grande chance de dar visibilidade ao programa espacial de nosso país.

Foto: NASA
A Estação Espacial Internacional, onde Marcos Pontes permanecerá por oito dias.

Há aproximadamente 100 anos, um brasileiro fazia história nos ares. Era Santos Dumont, que, em 23 de outubro de 1906, fez decolar o 14-Bis. Reconhecido por muitos como o primeiro objeto mais pesado que o ar a levantar vôo com suas próprias forças, o 14-Bis é homenageado este ano com a Missão Centenário, que vai levar o primeiro brasileiro ao espaço: Marcos César Pontes. Ele está em órbita desde a meia-noite do dia 30 de março (horário de Brasília), na estação espacial ISS (International Space Station ou Estação Espacial Internacional), onde ficará por oito dias.

É também a primeira vez que se dá tanta abertura à realização de experimentos científicos brasileiros no espaço. Até hoje, o máximo de tempo destinado a experiências do país em viagens espaciais era de 10 minutos. E Marcos usará seus oito dias para realizar oito testes, sendo que dois deles foram propostos por estudantes de Ensino Fundamental.

Inicialmente, a idéia era enviar o astronauta ao espaço em um ônibus espacial da Nasa, conforme o acordo internacional de construção da ISS. Pontes estava sendo treinado desde 1997 para participar do programa. Mas, a partir de 2003, a Agência Espacial Brasileira - AEB - reduziu sua participação na empreitada. Além disso, com a explosão do Columbia em seu retorno à Terra, a Nasa suspendeu por tempo indeterminado o lançamento de ônibus espaciais. Foi aí que a AEB resolveu fazer um acordo com a Agência Espacial Russa, viabilizando a expedição atual. Estima-se que tudo tenha custado em torno de US$ 40 milhões.

Apesar do clima de comemoração, a viagem divide opiniões. A AEB alega que esta é a grande chance de dar visibilidade ao programa espacial brasileiro. Já para outros, é uma mera (e cara) jogada de marketing, feita com dinheiro que poderia ter sido usado para investir em pesquisas aqui mesmo, em solo terrestre. Seja como for, o nome de Marcos Pontes já está marcado para sempre como o do primeiro cosmonauta brasileiro.


[ notícia comentada ]

A Estação Espacial Internacional (EES ou ISS) e a participação do Brasil
Por Josemara Daron Boiko

Em 1984, o presidente norte-americano Ronald Reagan solicitou à Nasa a construção de uma estação orbital permanente, mas o custo, mesmo para uma nação poderosa e rica como os EUA, era extremamente elevado. Apesar de estarem, na época, no período da Guerra Fria, os norte-americanos sempre mostraram interesse em compartilhar custos e tecnologia com os soviéticos, até então arquiinimigos. Posteriormente a alguns acertos políticos e econômicos, soviéticos e norte-americanos tornaram-se parceiros na busca pelo conhecimento espacial. Com a queda do Muro de Berlim, simbolizando o fim do socialismo, abriram-se ainda mais as portas para a cooperação entre eles. Mas, mesmo assim, o custo ainda era muito elevado, e foi necessário buscar outras fontes, isto é, outras nações que tivessem interesse em produzir as peças para a estação espacial. Foi nessa fase que se abriram os caminhos para países da Europa e para o Canadá, o Japão e o Brasil, que, desde a década de 1960, estava buscando inserir-se em atividades espaciais. E essa inserção foi iniciada com a criação da Agência Espacial Brasileira em 1994 e, mais tarde, com a criação do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), do Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE) e do Centro de Lançamento de Alcântara (CLA).

A entrada oficial do Brasil na conquista de conhecimentos espaciais deu-se por meio de um convite feito pelos EUA para que nosso país ingressasse na construção da ISS. Inicialmente, o acordo previa a participação brasileira na ISS em troca de pesados investimentos e da fabricação de seis peças para a estação. Assim, o Brasil teria direito a treinar um astronauta próprio na Nasa. Com o valor investido, cerca de UR$ 10 milhões anuais, nosso país adquiriu o direito de utilização de uma cota das instalações internas ou externas da estação, onde poderá realizar experimentos científicos nas áreas de biologia, ecologia, física e fluidos; e tecnológicos, como desenvolvimento de materiais e de observação da Terra e coleta de dados meteorológicos. E essa vaga para realizar os experimentos foi ocupada pelo astronauta brasileiro Marcos César Pontes. Ele, a abordo da nave russa Soyuz TMA-8, lançada na cidade de Baikonur, no Cazaquistão, leva oito experimentos científicos brasileiros aprovados pela Nasa, para execução em ambiente de microgravidade, que poderão ser realizados dentro ou fora da ISS. Fazendo parte do primeiro vôo orbital brasileiro, sua função dentro da equipe é de especialista, sendo sua responsabilidade a operação e manutenção dos sistemas dos veículos tanto da espaçonave quanto da estação espacial; atividades extraveiculares (EVA); e execução de experimentos científicos a bordo ou em solo, em coordenação com os técnicos e cientistas responsáveis. A equipe da qual nosso astronauta faz parte é a Expedição 13, que é composta pelo brasileiro, pelo cosmonauta russo Pavel Vinogranov, comandante da missão, e pelo astronauta americano Jeffrey Williams, engenheiro de vôo. Os tripulantes levarão dois dias para chegar à estação e se unir à equipe da Expedição 12, que retorna à Terra oito dias após a chegada da Soyuz TMA-8, trazendo de volta o astronauta brasileiro.

A espaçonave russa que leva o astronauta brasileiro, a Soyuz TMA-8, completa seu 29.º vôo tripulado. É a mais antiga nave de tripulação em uso nas viagens espaciais, criada durante o período da corrida espacial. Tem capacidade para três cosmonautas em viagens prolongadas e é a única que serve a ISS, tanto em termos de tripulação quanto de equipamentos e alimentos. Em uma das extremidades do módulo orbital, a Soyuz possui uma porta usada para acoplar na MIR e na ISS. Essa será a porta de entrada dos astronautas na ISS.

Oito experimentos brasileiros

Os experimentos selecionados pela AEB compreendem as áreas de nanotecnologia, biotecnologia, controle térmico de equipamentos espaciais e agricultura e fazem parte de uma iniciativa do Programa Microgravidade, isto é, estudos e experiências que serão realizadas em condição de quase ausência de efeitos gravitacionais.

1) Efeito da gravidade na cinética das enzimas, do Centro Universitário da Faculdade de Engenharia Industrial (FEI): esse estudo busca compreender o fenômeno das reações enzimáticas no organismo, levando em consideração a cinética (velocidade e dinamismo) na interação das enzimas com as paredes das células, em ambiente de baixa gravidade.

2) Nuvens de interação protéica, do Centro de Pesquisas Renato Archer (CenPRA/MCT): estuda a substância que produz o brilho dos vaga-lumes. Dentro de uma caixa escura, serão produzidas ondas acústicas para induzir o fenômeno da bioluminescência por meio da colisão de gotas d'água cheias de enzimas.

3) Danos e reparos no DNA na microgravidade, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ): a estadia de seres humanos no espaço necessita de adaptação às várias condições humanas, diferentes da permanência em superfície terrestre. Esse estudo visa a conhecer como a radiação influencia as atividades humanas no interior das células em situação de gravidade baixa, utilizando como modelo bactérias sob radiação cósmica e radiação UV-A. O intuito é conhecer os efeitos sobre o DNA e sua capacidade de corrigir lesões no código genético.

4) Teste de evaporadores capilares em ambiente de microgravidade, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC): ter a temperatura interna de um satélite controlada é essencial para o funcionamento de seus circuitos eletrônicos. O objetivo principal desse experimento é aperfeiçoar e desenvolver o conhecimento de controle térmico para satélites.

5) Minitubos de calor, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) - Laboratório de Energia Solar e Núcleo de Controle Térmico para Satélites (Labsolar): estudo de controle térmico, enfocando o segmento dos "minitubos" de calor de forma a controlar a temperatura por meio do transporte de calor de uma região mais quente para uma mais fria em uma superfície de interesse.

6) Germinação de sementes em microgravidade, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa): sementes de Astronium fraxinifolium (gonçalo-alves), espécie arbórea do Cerrado, serão utilizadas em um experimento em que se verificará o efeito da microgravidade sobre o processo germinativo.

7-8) Sementes de feijão e Cromatografia da clorofila, da Secretaria de Educação de São José dos Campos (SP): Experiência escolar clássica, a germinação de grão de feijão será reproduzida simultaneamente pelo astronauta Marcos Pontes no espaço e estudantes de todo o Brasil. Serão estudados também os extratos de folhas de couve, objetivando-se o melhor conhecimento da clorofila.

 
     
   
     
 
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