O Dia Nacional da Matemática
05/05/04
Por Diogo Dreyer

     
 

Comemoração quer mostrar como essa ciência não é nada chata e seu aprendizado pode ser divertido. A escolha do dia é uma homenagem ao escritor Malba Tahan, a primeira pessoa no país a tentar descomplicar a Matemática.

A partir do dia 6 de maio deste ano, começa a ser comemorado no Brasil o Dia Nacional da Matemática. O objetivo dessa comemoração é divulgar a Matemática como área de conhecimento, sua história e suas aplicações no mundo, bem como sua ligação com outras áreas de conhecimento, buscando derrubar aquele velho mito de que aprender Matemática é difícil e apenas privilégio de poucos.

O dia foi criado pela Sociedade Brasileira de Educação Matemática — a SBEM —, e a escolha dessa data é uma homenagem ao nascimento de Malba Tahan, pseudônimo de Júlio César de Mello e Souza. Tahan é autor de uma extensa obra, incluindo o livro O Homem que Calculava. Professor de Matemática e escritor muito criativo, ele adorava elaborar enigmas em sala de aula para iniciar suas explicações.

O primeiro nome falso que ele adotou foi R. S. Slade para fingir que era um escritor de outro país e conseguir publicar uma história num jornal cujo editor já havia rejeitado seus contos quando ele os assinou com seu verdadeiro nome. Como a artimanha funcionou, ele decidiu usar sempre um nome estrangeiro. Mais tarde, escolheu Malba Tahan, pois adorava escrever histórias árabes.


Ele nasceu no Rio de Janeiro em 1895 e morreu aos 79 anos, em 1974, no Recife. Foi um professor ousado para a época e gostava de ir muito além do ensino teórico e expositivo, do qual, aliás, foi um feroz crítico. “O professor de Matemática em geral é um sádico. Ele sente prazer em complicar tudo”, dizia. Também não dava notas “zero” nem reprovava seus alunos. “Por que dar zero se há tantos outros números?”.


Já suas histórias eram sobre aventuras misteriosas, com beduínos, xeiques, vizires, magos, princesas e sultões. Em O Homem que Calculava, ele conta as aventuras de Beremis, um árabe que gostava de resolver os problemas da vida com soluções matemáticas. Os números e as propriedades numéricas eram, para ele, como seres vivos. Ele dizia que existem números alegres e bem-humorados, frações tristes, multiplicações carrancudas e tabuadas sonolentas.


O Dia Nacional da Matemática, por enquanto, é apenas reconhecido pela SBEM, mas já existem iniciativas para incluir a data em calendários oficiais. E, além de propor a criação da data, a SBEM vai organizar e realizar eventos comemorativos. A cada ano, uma temática comum será proposta como eixo desses eventos, que poderão incluir a realização de atividades como feiras de Matemática abertas à comunidade, oficinas e palestras para professores, mostra de trabalhos de escolas, acampamentos de jovens para discussão de problemas matemáticos e apresentações teatrais.


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Por Taís Drabik

Será uma característica do brasileiro não reconhecer seus talentos e buscar no exterior seus modelos?

O professor Mello e Souza enfrentou esse preconceito no início de sua carreira, mas sua mente criativa conseguiu “driblar” essa situação inventando um personagem estrangeiro, por meio do qual sua voz pôde se manifestar. Para criar Malba Tahan, ele pesquisou durante muitos anos a cultura árabe e chegou a ler o Corão e o Talmude.

Deu a seu personagem um nome completo, biografia adequada e seu próprio talento de contador de histórias. E deu certo! Muitas pessoas nunca ouviram falar de Júlio César de Mello e Souza, mas são fãs das histórias fabulosas de Malba Tahan.

Como muitos cientistas e matemáticos famosos, a vida escolar dele não foi um sucesso, e talvez tenha sido isso que o levou a ensinar de um jeito diferente, contando histórias, propondo desafios, sendo um ator em sala de aula. Ele combatia a Matemática monótona e expositiva com técnicas que hoje são apresentadas como novidades didáticas. Defendia o uso de jogos nas aulas de Matemática e a instalação de laboratórios para o ensino dessa matéria e encarregava os melhores alunos de ajudar os que tinham mais dificuldade.

Apesar disso, ainda hoje, muitos estudantes continuam a ser reprovados pela mesma prática pedagógica que ele combatia. Os alunos se queixam do excesso de memorização e dos cálculos repetitivos e não enxergam a utilidade dos conteúdos aprendidos. Professores despreparados não sabem o que fazer para tornar as aulas mais atraentes. Não possuem modelos nos quais se espelhar, já que sua própria educação em relação à Matemática também foi conteudista e baseada na memorização. O fácil acesso dos estudantes às calculadoras e, em alguns casos, aos computadores, provoca o questionamento sobre a validade de alguns aprendizados. Ainda é necessário estudar a tabuada? E logaritmos?

Muitas pesquisas vêm sendo realizadas com o objetivo de estabelecer novos rumos para o ensino de Matemática, mas os resultados tardam a chegar às salas de aula. Então, é hora de olharmos um pouco para trás, para quem teve coragem de ousar e fazer dessa ciência algo divertido. E não repetir o erro de achar que é lá fora que estão os modelos a serem seguidos.

 
     
 

Para ir mais longe

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