Mundo perde seu maior mediador de conflitos
20/08/03
por Vitor Casimiro

     
 


Maior atentado à ONU da história mata, em Bagdá, o embaixador brasileiro Sérgio Vieira de Mello e levanta dúvidas sobre o papel dos EUA na reconstrução do Iraque.

Crédito: Agência Brasil - ABr/Wilson Dias
Sérgio Vieira de Mello

No pavilhão da Organização das Nações Unidas (ONU) só havia uma bandeira erguida durante toda a tarde de terça-feira (19/8). As bandeiras dos 191 países-membros foram retiradas às pressas. Em seu lugar, apenas a solitária bandeira da ONU tremulando a meio mastro, em sinal de luto. O tradicional colorido — símbolo da convivência pacífica entre os povos — que faz da fachada do edifício da ONU um cartão-postal de Nova Iorque deu lugar a uma paisagem de desolação.

O motivo para tamanho pesar foi o mais grave atentado já sofrido pelas Nações Unidas desde sua fundação, em 1945. Após mais de quatro horas sob os escombros, falecia o alto-comissário para Direitos Humanos da entidade, Sérgio Vieira de Mello, de 55 anos. Segundo a agência de notícias Reuters, o embaixador brasileiro foi uma das 17 vítimas do caminhão-bomba que destruiu completamente o hotel Canal, sede da ONU no Iraque.

Carreira brilhante na ONU

A explosão da betoneira, que fez novamente o mundo voltar os olhos em direção a Bagdá, aconteceu às 16h30 (9h30 no horário de Brasília). O estampido foi ouvido em um raio de 1,6 km do hotel e deixou cerca de 100 feridos. O atentado terrorista pôs fim a 34 anos de uma carreira brilhante, boa parte dela dedicada ao continente africano, que fez de Vieira de Mello o brasileiro mais bem-sucedido na hierarquia da ONU.

Desde 2 de junho licenciado do cargo de alto-comissário para Direitos Humanos em Genebra, ele assumira a função de representante especial da ONU no Iraque. Sob sua coordenação, havia uma missão de 600 funcionários das diversas agências das Nações Unidas — metade deles trabalhava na capital iraquiana e estava dentro do prédio no momento da explosão. Em nota oficial, a representante do Unicef no Brasil, Reiko Niimi, confirmou a morte de Christopher J. K. Beekman, representante-adjunto do Unicef no Iraque.

Onde houver guerra, que eu leve a diplomacia

A ousadia de pôr seu próprio bem-estar e segurança a serviço das populações em guerra ou refugiadas era a marca do diplomata Vieira de Mello desde 1980. Entre 1981 e 1983, ele foi conselheiro das forças da ONU em Beirute, durante a guerra do Líbano. Em 1999, após os bombardeios da Otan nos Bálcãs, Vieira de Mello foi indicado para comandar a missão da ONU em Kosovo.

De todas as situações em que esteve na linha de frente em conflitos, a que Vieira de Mello considerava uma vitória pessoal foi sua passagem por Timor Leste. Como titular da Administração da ONU (entre 2000 e 2002), o embaixador participou ativamente da transição que reconstruiu o país, assegurou sua independência e fez do Timor a primeira nação do século XXI.

Leia a reportagem do Educacional sobre a transição democrática no Timor Leste.

Para ele, a função da ONU se resumia a criar as instituições democráticas, dotar o país de capacidade para organizar eleições e devolvê-lo a seu povo o mais rápido possível. Sua receita para alcançar tal objetivo era a persuasão; nunca a força. Embora fosse exímio administrador de conflitos, Vieira de Mello dificilmente alcançaria o mesmo êxito no Iraque, onde seu mandato terminaria em menos de um mês.

Entre os obstáculos, estava a necessidade de conciliar os ideais da ONU com o rígido comando americano, a quem cabia a responsabilidade de garantir a segurança ao prédio da ONU, alvo do atentado. Alguns analistas internacionais acreditam que a tragédia do hotel Canal possa forçar o fim da polêmica ação militar anglo-americana e apressar a desocupação militar do Iraque.

O certo é que o futuro do Iraque já não está mais nas mãos do diplomata brasileiro, justo ele que sobrevivera a tantas situações explosivas ao redor do planeta. Ao falecer, como mártir da paz, nessa que seria sua última missão, restaram as homenagens e o reconhecimento vindos de chefes de Estado de todo o mundo. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva decretou luto oficial de três dias e concederá postumamente a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito, a honraria máxima da República.

Sérgio Vieira de Mello era cotado para suceder Kofi Annan no posto de secretário-geral da ONU, cargo mais alto da diplomacia internacional.

Para ir mais longe

Confira a nossa página especial sobre a Crise no Iraque.
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Acompanhe as cenas de um cinegrafista feitas na sede da ONU em Bagdá no momento da explosão. As imagens estão disponíveis no site da BBC Brasil.
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Descobrir a causa de atentados é como montar um quebra-cabeça. Às vezes, é buscar lógica onde talvez só haja insanidade — na mente de um terrorista. Uma coisa é certa: os alvos, que antes eram militares, parecem ter mudado. Primeiro, foram atacados oleodutos e aquedutos iraquianos; desta vez, o prédio da ONU. A agência de notícias Reuters montou uma coletânea do que vários especialistas pensam sobre o assunto.
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E essa história de o caminhão-bomba ter sido arremessado contra o prédio bem debaixo do escritório do embaixador Sérgio Vieira de Mello? Seria ele o alvo? Para o analista da BBC, são raros os atentados a membros do alto escalão da ONU. Ele não descarta, porém, a hipótese de que o atentado tenha relação com uma votação feita no dia 14 de agosto pelo Conselho de Segurança. Gostou desse palpite? Então, corra para o site da BBC.
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É raro, é verdade. Mas não é a primeira vez que um membro de destaque da ONU sofre um atentado. Se você ficou curioso, corra para essa notícia da agência de notícias Reuters. Ela traz uma lista completa dos principais atentados a funcionários das Nações Unidas e mostra que as missões de paz da ONU e o perigo andam lado a lado.
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E agora, como fica o futuro do Iraque? O ataque teria sido a prova de que a população iraquiana se opõe à ONU? A ONU terá de repensar o seu papel? Essa reportagem da BBC Brasil tenta avaliar os desdobramentos do atentado. Ela ouve dois especialistas brasileiros, que conviveram com o diplomata Vieira de Mello e têm opiniões divergentes sobre o assunto.
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