De barriga vazia
27/06/02
 


Se o Brasil fosse um estômago, ele estaria roncando. Alto, bem alto. Na estimativa mais otimista, feita pelo governo federal, cerca de 20 milhões de brasileiros passam fome. Na pior das hipóteses, sugerida pelo Mapa do Fim da Fome no Brasil da Fundação Getúlio Vargas, o problema mais que dobra de tamanho: 50 milhões seria o número de miseráveis que não têm o que comer.

Juca Varella/Folha Imagem
Miséria absoluta — segundo o Unicef, 50 mil crianças ganham
a vida e tiram tudo o que têm, até mesmo a comida, do lixo.

É o fundo do poço. É a pior, a mais cruel forma de exclusão social que alguém pode sofrer. Passar fome é não ter renda suficiente sequer para cobrir uma das necessidades mais básicas do ser humano: comer. Para se manter em pé, o corpo humano precisa, em média, de 2.000 a 2.500 calorias diárias. É uma situação-limite, em que não dá para tapear o estômago: 100 calorias abaixo desse patamar por dia e já se vive com uma fome crônica e se é vítima das conseqüências que a subnutrição traz à saúde, como o fraco desenvolvimento físico e intelectual do indivíduo.

No Brasil, os famintos se contam às dezenas de milhões. A pesquisa mais contundente já feita sobre o problema, o Mapa do Fim da Fome no Brasil, foi lançada em julho de 2001 pelo Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas (FGV-SP). Coordenado pelo economista Marcelo Cortes Néri, esse estudo calcula que temos 50 milhões de indigentes. Esse é o nome que se dá às pessoas que sobrevivem com menos de R$ 80 mensais, valor mínimo para garantir o pão de cada dia segundo os padrões da Organização Mundial de Saúde (OMS).

O número representa cerca de 30% de todos os brasileiros. É como se toda a população dos estados de São Paulo e Rio de Janeiro, estimada pelo IBGE em 1998, passasse fome. A situação é tão dramática que o suíço Jean Zigler, relator especial das Nações Unidas para o Direito à Alimentação, concluiu que o Brasil não garante a seu povo esse direito, assegurado pelo Pacto Número 1 da ONU.


Jean Zigler - "As pessoas no Brasil morrem vítimas da ordem social."

Jean Zigler atribuiu três causas à fome: o latifúndio e a concentração de terras, a baixa renda da população e a falta de uma política integrada na área social para atender as pessoas mais vulneráveis, incluindo as crianças. Essa opinião está de acordo com o estudo da FGV, ao menos no que se refere à infância. O levantamento afirma que 45% dos nossos indigentes têm menos de 15 anos.

Segundo Marcelo Cortes Néri, as crianças são as maiores vítimas da ausência de políticas e serviços públicos porque "não são eleitores". O economista sugere que os programas voltados às crianças — merenda escolar, vacinação, bolsa-escola — ocupem o topo das prioridades nacionais.

Para José Tubino, representante no Brasil da FAO — Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação —, o problema central é a má-distribuição de riquezas dentro do país. Ele compara a diferença de renda entre os brasileiros mais ricos e mais pobres, que é de 33 vezes, com a diferença na Europa, onde a média é de apenas sete vezes.


José Tubino - Brasileiros mais ricos ganham 33 vezes mais que brasileiros mais pobres.

Segundo o mapa da FGV, a fome no Brasil tem solução. Se cada brasileiro doasse R$ 14 por mês a um indigente, ela seria erradicada. Fazendo as contas, pôr fim à miséria custaria ao país o investimento de R$ 1,69 bilhões mensais.

Com base em dados como esses, Jean Zigler fez afirmações bombásticas nos 18 dias em que esteve no país em março de 2002. "As pessoas no Brasil morrem vítimas da ordem social", disse. "Não há fatalidade, aqui [a fome] é resultado da ação do homem", sentenciou Zigler, que, antes de chegar ao Brasil, fez escala no Níger. Ele disse que, nesse país africano, a fome era compreensível, pois quase todo o seu território é coberto pelo Saara e apenas 3% das terras são cultiváveis. Mas considerou inaceitável a fome no Brasil.

A posição do relator da ONU desagradou o governo federal, que se defendeu dizendo que não há 50, mas 20 milhões de pessoas abaixo da linha de pobreza e, conseqüentemente, afetadas pela fome no país. Vale dizer que o Mapa do Fim da Fome da FGV foi feito com base em dados oficiais, coletados pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) do IBGE.

A diferença nos números se deve ao que cada pesquisa chama de indigentes. Segundo os critérios da FGV, indigente é quem tem renda inferior a R$ 80. Para o governo federal, somente está abaixo da linha de pobreza quem vive com menos de um terço do salário mínimo, o equivalente a R$ 60.

 

 
 
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A fome é um problema mundial. Segundo a ONU, atualmente, há 815 milhões de pessoas passando fome no mundo — 95% delas em países em desenvolvimento, principalmente na Ásia e na África subsaariana. De acordo com a FAO, 54 milhões desse total estão na América Latina, e o Brasil, em números absolutos, é o país com maior número de pobres afetados pela desnutrição no continente.

Em 1996, chefes de Estado de todo o mundo reuniram-se em Roma, durante o Fórum Mundial de Alimentos, com o objetivo de cortar a fome pela metade em 20 anos. A meta era reduzir o número de pessoas com fome de 840 milhões — à época em que o acordo foi assinado — para 400 milhões até 2015.

Para que esse objetivo seja atingindo, é preciso que 28,5 milhões de pessoas saiam da condição de famintas por ano. Mas esse número só vem diminuindo em 6 milhões. Na América Latina, a redução é ainda mais lenta desde 1996 — apenas cerca de um milhão de pessoas deixam de passar fome por ano.

Nesse ritmo, a população de desnutridos do mundo ainda será de 600 milhões em 2015. Para superar esse déficit, o programa de alimentos e agricultura da ONU (FAO) estima ser necessário um investimento adicional de US$ 24 bilhões em agricultura.

Em 1974, a FAO já havia feito uma previsão de que seria possível eliminar a fome mundial em seis anos. Apesar de a produção global de alimentos ser suficiente para atender às carências alimentares da humanidade, hoje em dia, mais de um a cada sete habitantes da Terra ainda passa fome.

Para ir mais longe:

O sociólogo Emir Sader escreveu um artigo com base no livro A Fome no Mundo Explicada ao Meu Filho, de autoria do próprio Jean Zigler. Os trechos citam dados chocantes sobre a fome no planeta. No meio de tantas informações, há também uma provocação às escolas: "Não conheço nenhum colégio em que o tema da fome, que a cada dia mata mais gente do que todas as guerras do planeta juntas, figure em seu programa".
Clique aqui para ver o site.

Em junho de 2002, foi marcada uma nova reunião em Roma para avaliar como está o combate à fome no mundo e propor soluções para o alcance da meta de cortá-la pela metade até 2015. Segundo os países pobres, o evento foi um total fracasso e não resultou em nenhuma medida para acabar com o problema. Para começar, dos países ricos, só os presidentes da Espanha e Itália compareceram. Aliás, boatos dizem que o italiano Silvio Berlusconi encerrou o encontro duas horas antes para assistir a um jogo da Copa em que a Itália empatou com o México. Se for verdade, o mundo saiu perdendo. Leia a notícia da BBC.
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Se os líderes mundiais se mostram pouco sensíveis ao problema da fome no mundo, na Internet, há diversos sites em que você pode doar alimentos com apenas um clique do mouse. É o caso do site Click Fome, que, além de dar informações sobre o problema, ajuda a combatê-lo.
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