O adolescente americano e sua independência

Andréia Schmidt

 

Em outro artigo sobre os costumes dos adolescentes norte-americanos, eu falava sobre como, mesmo sendo tão parecidos, o jovem brasileiro e o americano são diferentes.  Um dos aspectos que marcam essa diferença é a forma como ambos são educados para serem independentes. Nos EUA, essa educação começa muito cedo.

 

Como as famílias, mesmo aquelas que têm muito dinheiro, não mantêm empregadas domésticas (há, no máximo, uma faxineira para a limpeza pesada uma vez por semana), todo mundo tem de colaborar na limpeza e organização da casa, até as crianças. Desde pequenas, elas devem aprender a se vestir e a cuidar das próprias coisas. O horário da escola também faz com que crianças e adolescentes tenham de se organizar sozinhos. As aulas começam de manhã, por volta das 7h30, e vão até aproximadamente às 15h. Como todo mundo almoça na escola e há muitos alunos para os professores atenderem, cada um tem de cuidar de suas coisas.

 

Mesmo tendo suas despesas pagas pelos pais, os adolescentes são incentivados desde cedo a realizar algum trabalho para receber seu próprio dinheiro. Para eles, trabalhar e conseguir dinheiro para cobrir alguma despesa supérflua é motivo de orgulho. Por isso, é comum encontrar garotos e garotas a partir de 16 anos atendendo em lanchonetes ou fazendo pequenos serviços de escritório. Antes dessa idade, eles geralmente realizam pequenos serviços para os vizinhos, como cortar grama, fazer pequenos reparos ou cuidar de crianças à noite (baby-sitter). Mais usual ainda é ver estudantes universitários trabalhando em restaurantes e bares à noite para ter dinheiro para roupas e coisas básicas. Para eles, não há vergonha nenhuma em trabalhar. Ao contrário, isso é sinal de que eles são suficientemente adultos para não depender de ninguém para sobreviver.

 

Como consequência dessa independência precoce, é muito frequente (mais até que no Brasil) os adolescentes fazerem faculdade longe de casa. Essa é a idade em que eles vão cuidar da própria vida (independentemente de estarem ou não na universidade), até por uma questão cultural: é raríssimo encontrar um jovem na faixa dos 21 anos morando na casa dos pais, salvo em circunstâncias especiais. Quando terminam a High School, os filhos começam a tomar seu rumo, e os pais aceitam isso perfeitamente. A partir desse momento, a família passa a se reunir em ocasiões especiais, e a comunicação entre pais e filhos se dá por telefone ou e-mail.

 

É claro que essa educação para a independência tem aspectos positivos e negativos. Por um lado, a pessoa aprende cedo a se responsabilizar por si mesma e a assumir as conseqüências de seus atos. Uma conta de telefone absurda ou uma fatura alta de cartão de crédito de um adolescente americano não é silenciosamente coberta pelos pais. De alguma forma, ele terá de ressarcir os pais por essas despesas, seja trabalhando em casa ou em outro lugar.

 

Por outro lado, o excesso de independência pode gerar insensibilidade social. Nessa espécie de corrida de “cada um por si”, não é difícil que as pessoas passem a se importar menos umas com as outras e, por estarem tão preocupadas consigo mesmas, ignorem as necessidades dos outros.

 

O mais interessante entre os adolescentes norte-americanos é que eles percebem perfeitamente que a independência tem um preço e que exige deles atitudes positivas nesse sentido. Mesmo cometendo muitos erros comuns nessa idade, como cometer infrações de trânsito ou se exceder em festas, eles sabem que têm de assumir integralmente as conseqüências desses atos. Talvez esse seja o saldo mais positivo dessa independência.

   

 

Paula Dely

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