Na seara de novas experiências,
a pedagoga italiana Tiziana Filipini mostrou um pouco do projeto
Margarida, que procura estimular a criatividade e a comunhão
com a sociedade. Sem modelos predefinidos, os alunos ficam
à vontade para criar. As crianças se reúnem
com os professores para decidirem o que vão fazer.
A família dos alunos entra no processo por meio do
debate do desempenho das crianças. Com isso, busca-se
construir um senso de comunidade, constituindo-se em um exemplo
de democracia e de cidadania participativa. “A dinâmica
é estimular a capacidade de argumentar, discutir e
escutar”, afirmou Tiziana. “É um contraponto
à tradicional idéia de conhecimento como transmissão
e não como construção”.
No painel “Educação formal e informal”,
debateram lado a lado um ex-interno da Febem e um professor
europeu. Roberto da Silva, que na infância viveu em
orfanatos e chegou a passar uma temporada na Casa de Detenção
de São Paulo, e o escocês Liam Kane mostraram
como a educação informal é pouco valorizada.
Kane disse que a educação informal, a que não
se aprende nas escolas, é bastante importante na formação
do cidadão. “Paradoxalmente, um professor pode
ter uma educação formal completa e não
ser educado”.
Silva citou seu próprio exemplo. “Fui à
universidade para legitimar uma vivência social que,
de outra forma, nunca seria valorizada”, afirmou, lembrando
que voltou à escola aos 33 anos, quando tinha estudado
somente até a sexta série.
Para ele, os currículos estão direcionados
apenas à educação formal. Silva fez também
uma crítica ao sistema público de ensino: “No
Brasil, não se consegue utilizar a escola como instrumento
de ascensão social”.
Jaqueline Moll, professora da Faculdade de Educação
da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e conferencista
do painel “Cidade educadora: construção
de currículos e produção do conhecimento”,
também defendeu a mudança nos currículos.
“A escola deve ser vista como uma habitante da cidade;
processos educativos devem ser realizados fora da sala de
aula. A escola e a cidade devem ser reinventadas; caso contrário,
nosso discurso será um simulacro”, sentenciou.
No mesmo painel, Daniel Suarez, pesquisador argentino e coordenador
do Observatório Latino-Americano de Políticas
Educativas, disse que é preciso criar um movimento
pedagógico para a troca de experiências de educadores
comprometidos com melhorias no ensino, o que, para o educador
norte-americano Gustavo Fishman, seria papel de uma escola
com “espaço público e democrático”.
Conclusões
O evento em São Paulo foi preparatório para
o Fórum Mundial de Educação, que acontecerá
em julho, em Porto Alegre.
Confira as conclusões que o FME levará para
serem discutidas na capital gaúcha:
1. Desmercantilizar a educação e garantir a
sua natureza pública.
2. Tornar a cidade um espaço intencionalmente educativo.
3. Trazer para o currículo e para a escola o conhecimento
e as experiências da cidade, do campo e de suas comunidades.
4. Incorporar ao currículo a leitura da cidade, do
campo e do mundo, realizada pelos educandos e educandas, a
partir de suas identidades culturais.
5. Combater a manipulação do conhecimento da
comunidade como instrumento de exclusão social.
6. Ampliar os espaços de inter-relação
entre comunicação e educação por
meio das experiências de produção dos
meios de comunicação nas escolas a partir de
uma perspectiva de gestão democrática.
7. Priorizar e ampliar os recursos públicos para a
educação, concebida como dever do estado.
8. Desenvolver a pedagogia da participação democrática,
consolidando o caráter público dos espaços
educacionais da sociedade.
9. Incentivar a formação permanente e sistemática
dos trabalhadores e das trabalhadoras da educação
como uma das condições de construção
do conhecimento.
10. Educar para a sustentabilidade de modo a articular as
diferenças ambientais, sociais e culturais, preservando
a singularidade dos sujeitos.
11. Garantir a cultura como foco de mediação
permanente nas instâncias educativas e combater a sua
massificação e mercantilização.
12. Reconhecer a concepção de escola pública,
popular e cidadã como parte do processo de construção
de uma cidade educadora.
13. Reconstruir a universidade pública, garantindo
sua autonomia e sua qualidade social na produção
e na irradiação do conhecimento.
14. Reconhecer a criança e o jovem em todas as suas
identidades sociais como agente criativo, criador, crítico
e participante da construção do conhecimento
na cidade educadora.
15. Garantir o direito ao acesso e à permanência,
em condições cidadãs, dos deficientes
na cidade educadora.
Jones Rossi, enviado especial do portal ao FME.
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