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Participantes do FME discutem a produção e o acesso à informação.

No sábado (3/4/2004), segundo dia de conferências e debates no Fórum Mundial de Educação, a discussão se deu sobre produção e acesso ao conhecimento. O francês Bernard Charlot, professor da Universidade de Paris 8 e doutor em Ciência da Educação, foi direto ao assunto: “A globalização está construindo redes: redes de poder, redes de dinheiro, mas também redes de conhecimento”.

Bastante otimista em relação às novas possibilidades de ensino e aprendizado, Charlot afirmou que o grande desafio “é ligar os recursos educativos da cidade aos da escola e fazer da escola um lugar onde se aprenda a vida”. Como pesquisador visitante na Universidade Federal do Mato Grosso, já teve tempo suficiente para conhecer um pouco da realidade nacional. “O Brasil do século XIX ainda não desapareceu, pois poucos têm acesso pleno ao ensino”, alertou.

Já o professor de Filosofia da Educação da USP, Antonio Joaquim Severino, enfatizou as diferentes modalidades do conhecimento: “O saber acadêmico não é a única forma de conhecimento, assim como a tecnologia não é a principal, como muitos acham”. De maneira enfática, Severino repudiou o conhecimento ideologizado, que “tem como característica nos enganar”. Para ele, somente a articulação com a prática faz com que o conhecimento ganhe relevância: “Didática e pedagogia devem ser o suporte da utilização da cultura e da experiência individual no processo de aprendizagem”.

 
Novas experiências
 

Na seara de novas experiências, a pedagoga italiana Tiziana Filipini mostrou um pouco do projeto Margarida, que procura estimular a criatividade e a comunhão com a sociedade. Sem modelos predefinidos, os alunos ficam à vontade para criar. As crianças se reúnem com os professores para decidirem o que vão fazer. A família dos alunos entra no processo por meio do debate do desempenho das crianças. Com isso, busca-se construir um senso de comunidade, constituindo-se em um exemplo de democracia e de cidadania participativa. “A dinâmica é estimular a capacidade de argumentar, discutir e escutar”, afirmou Tiziana. “É um contraponto à tradicional idéia de conhecimento como transmissão e não como construção”.

No painel “Educação formal e informal”, debateram lado a lado um ex-interno da Febem e um professor europeu. Roberto da Silva, que na infância viveu em orfanatos e chegou a passar uma temporada na Casa de Detenção de São Paulo, e o escocês Liam Kane mostraram como a educação informal é pouco valorizada. Kane disse que a educação informal, a que não se aprende nas escolas, é bastante importante na formação do cidadão. “Paradoxalmente, um professor pode ter uma educação formal completa e não ser educado”.

Silva citou seu próprio exemplo. “Fui à universidade para legitimar uma vivência social que, de outra forma, nunca seria valorizada”, afirmou, lembrando que voltou à escola aos 33 anos, quando tinha estudado somente até a sexta série.

Para ele, os currículos estão direcionados apenas à educação formal. Silva fez também uma crítica ao sistema público de ensino: “No Brasil, não se consegue utilizar a escola como instrumento de ascensão social”.

Jaqueline Moll, professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e conferencista do painel “Cidade educadora: construção de currículos e produção do conhecimento”, também defendeu a mudança nos currículos. “A escola deve ser vista como uma habitante da cidade; processos educativos devem ser realizados fora da sala de aula. A escola e a cidade devem ser reinventadas; caso contrário, nosso discurso será um simulacro”, sentenciou.

No mesmo painel, Daniel Suarez, pesquisador argentino e coordenador do Observatório Latino-Americano de Políticas Educativas, disse que é preciso criar um movimento pedagógico para a troca de experiências de educadores comprometidos com melhorias no ensino, o que, para o educador norte-americano Gustavo Fishman, seria papel de uma escola com “espaço público e democrático”.

Conclusões

O evento em São Paulo foi preparatório para o Fórum Mundial de Educação, que acontecerá em julho, em Porto Alegre.

Confira as conclusões que o FME levará para serem discutidas na capital gaúcha:

1. Desmercantilizar a educação e garantir a sua natureza pública.
2. Tornar a cidade um espaço intencionalmente educativo.
3. Trazer para o currículo e para a escola o conhecimento e as experiências da cidade, do campo e de suas comunidades.
4. Incorporar ao currículo a leitura da cidade, do campo e do mundo, realizada pelos educandos e educandas, a partir de suas identidades culturais.
5. Combater a manipulação do conhecimento da comunidade como instrumento de exclusão social.
6. Ampliar os espaços de inter-relação entre comunicação e educação por meio das experiências de produção dos meios de comunicação nas escolas a partir de uma perspectiva de gestão democrática.
7. Priorizar e ampliar os recursos públicos para a educação, concebida como dever do estado.
8. Desenvolver a pedagogia da participação democrática, consolidando o caráter público dos espaços educacionais da sociedade.
9. Incentivar a formação permanente e sistemática dos trabalhadores e das trabalhadoras da educação como uma das condições de construção do conhecimento.
10. Educar para a sustentabilidade de modo a articular as diferenças ambientais, sociais e culturais, preservando a singularidade dos sujeitos.
11. Garantir a cultura como foco de mediação permanente nas instâncias educativas e combater a sua massificação e mercantilização.
12. Reconhecer a concepção de escola pública, popular e cidadã como parte do processo de construção de uma cidade educadora.
13. Reconstruir a universidade pública, garantindo sua autonomia e sua qualidade social na produção e na irradiação do conhecimento.
14. Reconhecer a criança e o jovem em todas as suas identidades sociais como agente criativo, criador, crítico e participante da construção do conhecimento na cidade educadora.
15. Garantir o direito ao acesso e à permanência, em condições cidadãs, dos deficientes na cidade educadora.


Jones Rossi, enviado especial do portal ao FME.

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