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Em pé de guerra

Alguns dias depois, a publicação do conteúdo da lei por um jornal da capital incitou os ânimos, apesar de a vacina ser a solução para a varíola, que, naquele ano, devastava a cidade do Rio de Janeiro. As razões para revolta eram inúmeras, mas alguns fatos foram mais relevantes e, entre eles, estava a divulgação de que quem não tivesse o atestado de vacinação não conseguiria arranjar colocação ou trabalho e a morte de uma mulher que havia se vacinado. O exame de seu corpo acabou sendo feito por uma comissão de médicos e pelo próprio Oswaldo Cruz. Era o ponto para que o projeto de vacinação encontrasse a resistência que encontrou.

Esta partiu de todos os lados da sociedade carioca. Muitas pessoas nem sabiam o que significava a tal “vacina”, apenas tinham ouvido dizer que ela deixava as pessoas doentes. No fundo, o desconhecimento era geral, e isso gerou a resistência e o conflito de idéias e visões de mundo de novembro de 1904.

De estivadores de portos a médicos tradicionais, todos eram contra a vacinação. A resistência foi ganhando corpo com a criação da Liga contra a Vacinação Obrigatória por políticos de influência positivista. Para muitos destes, o governo republicano estava atentando contra a liberdade individual do cidadão ao obrigá-lo a se vacinar.

De qualquer forma, a partir do dia 11 de novembro, a situação na capital começou a ficar crítica. Dia e noite, escutavam-se ruídos dos revoltosos pela cidade, em especial nos bairros periféricos e nas praças centrais. Palavras de ordem contra o “código de torturas” eram ouvidas e, para piorar a situação, o governo começou a reprimir as manifestações. Aí, a confusão generalizou-se.

É interessante lembrar que a cidade, em especial o centro, estava em plena reforma. As ruas eram verdadeiros canteiros de obras e foram transformadas pelos populares em campos de batalha. Parece exagerado, mas foi o que aconteceu. De um lado, estava o povo, armado de ferros, pedras e paus, e de outro, a polícia montada e munida com armas de fogo.

Você deve estar pensando que quem levava a melhor era a polícia, mas não foi assim. Mesmo usando armas inferiores, a população tinha a seu favor a topografia da cidade. Becos e casas derrubadas serviam de barricadas e esconderijos contra as tropas do governo. Nos dois dias seguintes, a cidade estava em pé de guerra e com o governo sem saber o que fazer com a população.

Pesquisa no Arquivo da Casa de Oswaldo Cruz:
Rose Oliveyra
IOC (OC) 6-32
Charge de Leônidas publicada na revista O Malho, Rio de Janeiro.

Enquanto isso, muitos políticos relacionados à Liga contra a Vacinação Obrigatória tentavam canalizar a força da revolta para seus interesses. Jornais que apoiavam o governo de Rodrigues Alves criticavam a postura da Liga. Para eles, os idealizadores incitavam a revolta.

No fundo, nem o governo nem a elite política tinham controle sobre a situação. Várias reivindicações foram aglutinadas naquele momento. Monarquistas, recrutas da Escola Militar viam na obrigatoriedade da vacinação o fracasso da República e de Rodrigues Alves. Indiretamente, a crítica à oligarquia cafeeira paulista havia desvirtuado os ideais republicanos. Assim, atrás das barricadas populares, escondia-se o desejo de golpe por parte dos militares.

A data escolhida para o “golpe” foi o dia 15 de novembro. No entanto, com a cidade em polvorosa, o plano dos militares foi descoberto e acabou fracassando. Algumas lideranças políticas foram presas pela polícia, mas isso não diminuiu os protestos pelos bairros.

No meio do turbilhão da revolta, o próprio Oswaldo Cruz bombardeou o presidente com seu pedido de demissão.

Entre os dias 15 e 16, as forças leais ao governo federal foram, aos poucos, conseguindo dominar os últimos redutos de revolta nas regiões periféricas ao centro da cidade. Apenas um bairro ainda resistiu.

O Bairro da Saúde ficava na região portuária, e sua população era de maioria mestiça e pobre. Ali, as barricadas não haviam sido derrubadas. A resistência era atribuída ao temível Prata Preta, um estivador do porto.

Honório José da Silva, mais conhecido como Prata Preta, reuniu em suas barricadas um grande número de revoltosos. Visto com desconfiança pelas autoridades policiais, o Bairro da Saúde ficou conhecido como “Porto Arthur”.

A desconfiança das autoridades era um misto de medo e incompreensão. Prata Preta, estivador que não tinha trabalho fixo, estava ligado ao candomblé e à capoeira, práticas com as quais o governo da época queria acabar.

Em sua barricada, Prata Preta representava a luta pela sobrevivência de uma visão de mundo particular: a das práticas populares. Ao lutar contra a vacinação, as classes populares aglutinavam sua revolta por serem obrigadas a deixar sua casa e divertimento, por serem esquecidas pelos governantes em suas reformas urbanas. Além disso, buscavam o direito de continuar com seus rituais de cura e de adorar Obaluaiê, o velho orixá das epidemias.

No dia 16, Prata Preta foi detido e, com ele, os últimos focos de resistência popular.

 

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