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Daniela Matheus
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Daniela Matheus

Que atitude você, pai e educador, adota ao abordar os riscos da Internet em casa e na escola? Você se considera controlador ou liberal? Será que monitorar a navegação é a melhor solução? Que tipo de conversa realmente funciona? Para falar sobre isso e orientá-lo sobre as posturas mais saudáveis, chamamos Daniela Matheus, especialista em violência doméstica e em terapia sistêmica familiar. Veja o que ela tem a dizer!

Muitos de nossos adolescentes e crianças já nasceram com acesso à Internet em casa. Acostumados desde cedo com ela, sabem muito mais sobre essa ferramenta que seus professores e pais. De que forma isso pode representar um risco e como devemos lidar com essa situação?

Existem riscos e alguns deles são o contato com conteúdos inapropriados; a facilidade de acesso de estranhos à privacidade do jovem e de seus amigos e familiares; possível exposição do adolescente ou criança a alguém que tenha intenções de abuso ou bullying; limitação do desenvolvimento de outras áreas de interesse e de competências que poderão fazer falta na vida adulta dessas crianças e adolescentes. É importante que se tenha claro que riscos existem, sim, mas também existem benefícios e, desde que usada com responsabilidade, os benefícios dessa ferramenta superam imensamente os riscos.

Como lidar com essa situação? Os pais devem exercer sua autoridade e hierarquia na família para proteger os filhos desses riscos, mas podem também desfrutar da companhia, curiosidade e competência do seu filho na Internet, compartilhando, assim, também o lazer que ela pode proporcionar.

Veja a seguir algumas dicas:

- Pergunte a seu filho quais são seus interesses na Internet e quais são suas atividades mais frequentes no computador. Peça que lhe mostre algumas delas. Essa é uma boa porta de entrada para um diálogo sobre os hábitos dele quando está utilizando o computador. Demonstre curiosidade, pedindo ajuda para entender como funciona algum recurso ou funcionalidade que você ainda não conhece. Valorize o fato de ele(a) ter tanta familiaridade com a Internet e facilidade em averiguar e descobrir novos caminhos e possibilidades no computador e on-line

- Aborde a questão da segurança. Quais são os cuidados que ele já tem? Quais são os riscos que ele conhece ou de que já ouviu falar relacionados com a utilização da Internet? Exponha claramente a sua preocupação com a segurança dele e quais cuidados você considera importantes e gostaria que ele tivesse.

- Seja franco, não procure fingir um domínio da situação que você não possui (falando especificamente do computador). Se o seu filho é muito mais competente nessa área do que você, explique que isso torna ainda mais importante que você, na sua qualidade de pai, mãe ou adulto responsável, conheça as atividades dele na rede para orientá-lo.

- Esclareça que você vai monitorar, até certo ponto, a navegação dele pela Internet. Esclareça como esse monitoramento será feito. Estabeleça regras e limites, alguns deles com a participação do jovem, outros não. Estes dependem do entendimento entre os adultos responsáveis. Os pais devem decidir em que poderão ser mais ou menos flexíveis, o que é ou não negociável!

 

Sou diretora de uma escola e percebo que falta envolvimento dos pais. Quando entro no assunto dos riscos da Internet, eles vêm com desculpas e dizem nem saber a frequência com que os filhos acessam a rede. O que fazer para que eles se envolvam mais?

O ritmo de vida moderno em geral nos impõe mais tarefas e preocupações do que é possível assimilar e resolver nas apenas 24 horas do dia! Quando isso acontece, a tendência natural é que deixemos para depois o que não sabemos ao certo como resolver. A Internet é uma ferramenta relativamente nova para as gerações dos que hoje são pais. Por mais que eles tenham familiaridade e a utilizem no trabalho e em seu cotidiano, ainda é um conceito muito abstrato as possibilidades e riscos que ela apresenta. O fato de os filhos estarem em casa, utilizando o computador, gera uma sensação de segurança nos pais, o que é compreensível se pensarmos que, até pouco tempo atrás, o lar era o lugar onde considerávamos estar protegidos de “ameaças” externas. Soma-se a esse pré-conceito o fato de os pais estarem tão envolvidos com os desafios cotidianos, a priori mais concretos e imediatos, que os riscos virtuais são abstratos demais para serem relevantes na hierarquia de suas preocupações. Qual a solução?

Acho essencial que se tenha claro que o processo de conscientização será lento. A informação sobre os riscos, relatando-se talvez casos reais de famílias que foram extorquidas, de filhos que foram vítimas de tentativas de abuso, de bullying, é uma forma de alertar os pais. Outra possibilidade, mais pró-ativa e talvez mais produtiva, é abordar a questão do monitoramento da navegação pela Internet como uma forma de envolvimento e fortalecimento do vínculo entre pais e filhos. A Internet permite aos pais monitorar os interesses dos filhos e participar deles sem precisar sair de casa. Desde que bem explorado, o monitoramento é uma grande ferramenta para o diálogo, a participação, a educação e a transmissão de regras e valores aos filhos.

 

Perdi a confiança na ideia de que a orientação pura e simples possa influenciar as atitudes dos meus filhos em relação à Internet. Qual a sua opinião sobre isso?

Concordo com você. A orientação é muito importante, mas, se fosse suficiente, certamente os desafios de educar os filhos seriam muito mais facilmente resolvidos! (Sugiro que você leia também as respostas dadas às outras perguntas, por serem complementares a esta.) A orientação precisa ser acompanhada de ação! Monitorar, fazer perguntas, sentar-se rotineiramente ao lado do filho para conhecer melhor seus interesses e atividades on-line, estabelecer regras para o uso do computador são ações que devem corroborar a orientação dos pais. Além disso, essas atitudes demonstram que a preocupação deles é real e que colocam limites para preservar e proteger a criança e/ou adolescente.

 

Dizem que o que é proibido é mais gostoso. O controle excessivo do acesso à Internet pelos pais e professores não estimula ainda mais práticas indevidas?

A partir do momento em que pais e educadores estabelecem um controle, instaura-se nos filhos e educandos um movimento, em geral bastante criativo, para escapar dele! Isso é certo e natural! Seria possível, ou mesmo desejável, que tivéssemos um controle tão rígido a ponto de termos certeza da eficiência desse controle? Eu diria que não. Portanto, o controle excessivo não é desejável, tampouco eficiente. Contudo, o controle e monitoramento das atividades são importantes porque estabelecem o que é aceito, esperado e considerado apropriado pelos pais e adultos responsáveis. Tendo isso definido, torna-se mais claro que a liberdade do jovem está, sim, sujeita à concessão dos adultos responsáveis por ele. Afinal de contas, até juridicamente os pais respondem pelos filhos, assim como a escola também responde pela segurança e bem-estar dos alunos quando estes lá estão. Assim, é importante que cada parte desempenhe seu papel arcando com as responsabilidades inerentes a ele. Aos adultos, cabe estabelecer o controle e monitoramento das atividades de seus filhos e alunos. Aos filhos e alunos, cabe respeitar e acatar essas medidas e assumir a responsabilidade pelos seus atos quando optarem por agir além desses limites. Os adultos determinam assim que, se esses limites forem transgredidos, a criança/jovem será responsabilizada por isso. Caso se abstenham de fazê-lo, serão os únicos responsáveis pelas atitudes desses jovens.

 

O acesso regular a conteúdos pornográficos na Internet pode causar algum prejuízo à sexualidade do meu filho no futuro?

Essa resposta depende de alguns fatores, como idade, frequência, tipo de material acessado, entre outros. O interesse pela sexualidade é normal na adolescência e mesmo na pré-adolescência (por volta dos 12, 13 anos) e o acesso a conteúdos pornográficos é comum e frequente. Contudo, o impacto deles será diferente para uma criança de 12 ou um adolescente de 14 anos, por exemplo. Assim, essa pergunta demanda diversas considerações. Algumas seriam:

- Já que a pergunta se refere ao acesso regular, minha primeira consideração é: qual o papel que o acesso regular a conteúdos pornográficos está tendo na vida de seu filho? Será curiosidade, ansiedade, busca por informações, busca de prazer em forma substitutiva, já que ele ainda não possui uma vida sexual de fato? Penso que o acesso regular a pornografia é um sinalizador de algo a ser analisado, em qualquer idade. Sem que se entre no mérito do certo ou errado, por que essa pessoa precisa acessar regularmente esses conteúdos? Ou seja, é importante averiguar o papel desse hábito para seu filho!

- Alguns conteúdos pornográficos retratam a sexualidade de uma forma impessoal, grosseira e mesmo agressiva, o que não é uma representação saudável da sexualidade que esperamos que os jovens construam.

- Os conteúdos em que o sexo é demonstrado como uma prática prazerosa são bastante estilizados. Frequentemente, as pessoas envolvidas enquadram-se num padrão estético considerado ideal: mulheres bonitas, homens fortes. O homem é sempre muito viril, e ambos simulam sentimentos, sensações e prazer intensos. Essa representação pode gerar uma expectativa de performance ilusória, estabelecendo um padrão de desempenho sexual que não condiz com a vivência da sexualidade na vida real.

- A pornografia é uma exposição do sexo, sem os complementos que transformam essa atividade numa fonte de prazer, como a intimidade, a proximidade, a confiança, a entrega.

- Apesar de tudo, a pornografia acaba desempenhando uma função de informação, de satisfação da curiosidade sobre o sexo, mas, considerando o exposto, é importante que haja um cuidado com o acesso a ela, já que traz consigo aspectos nada saudáveis.


Quem critica o novo acordo acredita que a língua é dinâmica e não necessita de regras tão rígidas e específicas. O que você acha desse argumento?

Eu acho que esse argumento distorce um pouco as coisas porque confunde língua com ortografia. São duas coisas diferentes. A ortografia pode, perfeitamente, ser estável, e a língua não é. Eu critico o acordo, mas não por isso. Critico porque acho o acordo atrapalhado, confuso, precipitado, apresenta um texto esquisito em relação ao hífen. É um acordo de unificação ortográfica que não unifica, porque como é que o Brasil pode colocar isso em prática, se Portugal não coloca? Mas ortografia não tem nada a ver com a língua.

 

Determinar um limite de horas para meus filhos acessarem a Internet é uma medida que funciona?

Funciona desde que esteja claro por que se está estabelecendo esse limite. Ou seja, você deve acreditar que o limite está sendo colocado para o bem de seu filho e que você, adulto, está seguro de que essa medida contribuirá para a qualidade de vida e bem-estar dele. E por que limitar promove esse bem-estar? Porque garante, por exemplo, que seu filho aprenda a distribuir seu tempo entre obrigações e lazer. Em seguida, porque estimula que, nos seus momentos de lazer, ele aprenda a desfrutar de outras atividades, além de navegar pela Internet. Ler, fazer atividades físicas, conversar com amigos, passear são outras atividades de lazer que não só podem ser prazerosas como também são importantes para o desenvolvimento saudável e equilibrado de seu filho.

 

Meu filho tem 15 anos, sempre foi muito estudioso e gosta muito de jogos na Internet. Mas, de uns tempos para cá, tem deixado os livros de lado e passa horas jogando na Internet. Chega a passar o dia inteiro conectado. Já conversamos sobre isso, mas os conselhos não deram resultado. O que devemos fazer para que ele abandone esse vício sem proibirmos seu lazer?

Há diversas possibilidades entre a proibição e a permissão do uso irrestrito do computador. Parte do problema é a capacidade que a “telinha” do computador tem de prender nossa atenção de forma tal que as horas passam sem que se perceba. A estimulação constante na tela monopoliza a atenção e o interesse do internauta. É uma combinação de estímulos muito atraentes: competição, desafio, prazer e contato com diversas pessoas ao mesmo tempo numa atividade comum. Achei interessante você ter usado a palavra vício, que me parece bastante apropriada para a descrição do que está ocorrendo com seu filho. Existem diversos profissionais, clínicas e propostas para combater esse problema. Digo isso não para ser dramática quanto à seriedade do comportamento dele, mas para mostrar que a pessoa, para abandonar o vício, normalmente precisa de ajuda externa. Nesse caso, a ajuda pode e deve vir dos pais. Saiba que, seja qual for a forma adotada para limitar a atividade de seu filho na Internet, ele ficará frustrado e provavelmente se rebelará contra esse controle. Penso que é útil para os pais fazer um comparativo entre a rotina permitida ao filho e suas próprias rotinas. Seria possível a vocês, na qualidade de pai e mãe, passarem o dia inteiro conectados? Vocês estariam dando conta de suas funções de profissionais, pais, provedores? Para cumprir as demandas que a vida nos impõe, é necessário ter flexibilidade, equilíbrio, empenho e responsabilidade. Por que não procurar instaurar esses hábitos na vida de seu filho hoje? Se ele não está percebendo que gasta tempo demais na Internet, ou mesmo não está sendo capaz de utilizar essa atividade de lazer comedidamente, abandonando outras atividades e limitando o seu interesse, cabe, sim, a você estabelecer os limites. Com um adolescente de 15 anos, certamente isso funcionará melhor se houver uma participação dele na definição desse limite. Contudo, cabe a você, pai e mãe, esclarecer que, para o bem dele, o limite será imposto. A negociação é possível no que tange ao COMO fazê-lo, mas não ao SE fazê-lo! Não se trata de proibir o lazer, mas de limitar o lazer na Internet, para que ele se liberte para outros prazeres, outras descobertas e outras pessoas, além de seus parceiros virtuais.

 

Onde termina a privacidade dos meus filhos e onde começa meu direito de monitorá-los?

A privacidade de seus filhos termina onde começa a sua responsabilidade de zelar pelo bem-estar e pela segurança física e psicológica deles. Os pais são os provedores de seus filhos, o que abrange desde as necessidades físicas (alimentação, vestuário, moradia, etc.) até as necessidades sociais e emocionais, como valores, padrões de comportamento, regras familiares e sociais. O fato de o jovem conhecer seus limites o torna mais livre para crescer e explorar suas possibilidades dentro e fora deles. Incentiva-o e propõe a ele o amadurecimento de sua responsabilidade nas suas escolhas e atitudes. Portanto, a liberdade de atuação do jovem precisa ser proporcional à sua autonomia e à sua capacidade para se responsabilizar pelas consequências que possam advir do exercício dessa liberdade.

 

Participaram dessa entrevista:

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