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Pasquale Cipro Neto
O uso do "gerundismo" é tão comum quanto criticado. Seu uso é mesmo incorreto?
O problema é que existe uma distorção em relação a isso. Há pessoas que analisam mal a questão e dizem que a construção em si, “verbo ir + verbo estar + gerúndio”, é errada, e não é. A construção em si existe, é da língua. O que há de equivocado é o caso específico do uso numa situação que não mostra um fato simultâneo a outro. Como, por exemplo, “você tem que estar pegando uma senha”. Esse uso é horrível! Porque ninguém tem que “estar pegando uma senha”, tem que “pegar uma senha”. Pegar é uma coisa imediata, pontual. A mesma coisa vale para “vou estar enviando um fax”. Oras, enviar um fax é apertar um botão! Mas “nessa hora vou estar dormindo” é perfeitamente possível. Ou “enquanto você estiver trabalhando, eu estarei dando aula”. A interseção temporal é significativa. É uma coisa que tem uma duração, um processo.
Mais de dez anos já se passaram desde o início da popularização da Internet. Que balanço você faz da assimilação do "internetês" no nosso idioma?
Eu faço um balanço tranquilo. As coisas estão no seu devido lugar. A linguagem da Internet é ótima na Internet. Ela não ganhou status de língua padrão, porque representa um segmento diferente. É uma linguagem funcional, cumpre o seu papel e deve ser vista assim. Os arautos da falsa modernidade diziam que essa linguagem iria tomar conta de tudo. Mas não há um jornal escrevendo em internetês. Ainda há muito educador vendo isso com olhos tortos, o que é um problema muito sério, porque não se deve condenar essa linguagem. Só se deve dizer à garotada que essa é apenas “uma das roupas que é preciso ter no guarda-roupa”. Ou seja, que ela é adequada para uma situação, e não para todas.
Sou professora de Ciências e Biologia. Ao corrigir os exercícios e avaliações dos meus alunos, verifico erros gravíssimos de língua portuguesa. Na sua opinião, devo diminuir a pontuação da questão por isso?
Diminuir a pontuação, não. Mas pode apontar os problemas, se de fato eles existirem, e dependendo da idade do aluno. Não se deve fazer isso com alunos muito novos, dos primeiros anos. Seria uma precipitação.
Qual a melhor postura para a escola adotar diante do novo acordo? Como lidar com as avaliações, por exemplo?
É preciso ter calma. O acordo ainda não foi digerido completamente, nem as editoras o fizeram direito. Há muita precipitação, muita obra que saiu com problemas. Há interpretações diversas das regras, especificamente em relação ao hífen. É preciso esperar que a Academia Brasileira de Letras publique o vocabulário — que vai ser arbitrário, porque vai depender da interpretação arbitrária dos lexicógrafos da academia. Por exemplo, já se sabe que o prefixo “re” vai aparecer sem hífen quando vier com palavras que comecem com “e”, mas o texto oficial do acordo não diz isso. É uma interpretação livre, subjetiva, que eu acho até melhor do que se o acordo fosse interpretado ao pé da letra. Há questões já muito bem definidas, como o alfabeto. Com isso, a escola já pode contar. Mas é importante não se desesperar. É preciso discutir com calma e com clareza com os alunos, explicar que ainda há problemas.
O novo acordo incluiu as letras W e Y no nosso alfabeto e ambas reproduzem fonemas que, no Brasil, reconhecemos como sendo vogais. Nesse contexto, elas são vogais ou consoantes?
A gente sempre aprendeu que as vogais gráficas são A, E, I, O, U. No português, o Y sempre representou o mesmo fonema de I. Pode ser vogal ou semivogal. De modo que é meio difícil caracterizar como sendo uma coisa ou outra. São letras, não sei se é aplicável a classificação clássica de vogal ou consoante. O W pode ser uma semivogal, como em “show”, por exemplo. E, em Wagner, ele age como consoante. Ele se presta aos dois papéis. Mas não se discute a inclusão dessas letras no “A, E, I, O, U”.
Quem critica o novo acordo acredita que a língua é dinâmica e não necessita de regras tão rígidas e específicas. O que você acha desse argumento?
Eu acho que esse argumento distorce um pouco as coisas porque confunde língua com ortografia. São duas coisas diferentes. A ortografia pode, perfeitamente, ser estável, e a língua não é. Eu critico o acordo, mas não por isso. Critico porque acho o acordo atrapalhado, confuso, precipitado, apresenta um texto esquisito em relação ao hífen. É um acordo de unificação ortográfica que não unifica, porque como é que o Brasil pode colocar isso em prática, se Portugal não coloca? Mas ortografia não tem nada a ver com a língua.
Você acha que o novo acordo terá algum impacto sobre o jeito como falamos?
De jeito nenhum. A não ser que algumas pessoas comecem a pronunciar “linguiça”! É bobagem, porque é só uma questão gráfica.
A justificativa para a implementação do novo acordo ortográfico no Brasil é a do fortalecimento do idioma no cenário internacional, promovendo a integração dos países que o têm como idioma oficial. Na sua opinião, essa justificativa faz sentido?
Não. Um dos itens que também mencionam é que, nas tratativas internacionais, a duplicidade gráfica se torna um obstáculo. Eu não vejo assim. Afinal, quantos documentos Brasil e Portugal produzem em conjunto? Poucos. Não acredito que um brasileiro tenha dificuldades para ler Saramago no original por causa do “p” mudo de “adopção”. Da mesma forma que o português não terá dificuldades para entender Machado de Assis. Não acredito nisso. Acho um argumento fraco. Até entendo que, idealmente, é interessante a ideia de uma unidade gráfica, mas não como um fato, como algo que deva ser buscado a qualquer preço. Eu falo muito da relação custo-benefício. Se houver mesmo um benefício, tem um custo muito alto. O custo é esse que nós estamos vendo. Essa balbúrdia. Essa coisa de publicações que vão ter que ser revistas, que trazem a tarja “de acordo com o acordo”, mas que, na verdade, não estão bem de acordo com o acordo, porque ele é muito duvidoso.
Participaram dessa entrevista:
Participaram dessa entrevista:
Aillôr Zárate Bueno
Ana Laura Brasil Peralta
Ariana Serra
Augusto Lucio Oliveira Alves
Catarina Viegas de Camargo
César Everardo Dill de Quadros
Claudia Cristina Augusto Souza
Claudia Vanessa Bergamini
Claudiane Aparecida Pigosso
Cleusa Aparecida de Lima Nespolo
Clotilde Maria Garcia Pereira
Elias Buono de Moraes
Emmanuelen D`Paula Oliveira da Costa
Fabio Akira Yonamine
Fabíola Gila Ferraz do Lago
Fernanda L. Abrantes do Amaral
Fernanda Teresa Calvete C. E Siva Cruz
Francisco Nailson dos S. Pinto Júnior
Girlene da Silva Lima
Gisleny Goncalves Dantas
Glória Terezinha Carrijo
Helga Ferreira Barbosa Nunes
Herika Silva Alvares
Heyse Gisel Cabeza Ribeiro
Isabella Rangel da Silva
Julia Maria Santa Rosa Rojo
Karin Cristina Galvan da Silva
Karla Cristina de Araújo Faria
Keila Azevedo De Novais
Leticia de Souza Barros
Lia Raquel Toledo Brambilla Gasques
Lilian Jeronimo Paderes
Liliane Stamm
Luciane Ribeiro dos Santos Silveira
Luis Antônio Chaves Abdala
Magnon Paulino Ramos de Souza
Márcia Fetter de Oliveira
Maria Amelia Fagundes
Maria Cecilia Gomes de Melo
Maria de Fátima Souza
Maria Fernanda Simonetti Ribeiro de Castilhos
Maria Helena Souza Novaes de Siqueira
Maria Isabel de Oliveira
Maria Olimpia Dalvi Rampinelli
Mariana Benini Santos
Marilene Patrocinio Kerschner
Mariza Lima Arruda Nobre
Marli Coppi
Miriam Aparecida de Oliveira
Mônica A. C. Padua
Nariman Ferdinian Gonzales
Nathalia Cristina de Lima Medici
Neusa Maria Polesel Dias
Olivia Rodrigues de Andrade
Patricia Silva de Campos
Pietra Giovanna de Souza Daher
Ramiro Antônio Pereira
Renan Freitas Braga
Renata Ribeiro de Moraes
Rosangela Mary Mendes Roncada
Sandra Mercatelli Polessi
Silvana Emília O de Matta Vivolo
Simone Morais Calori
Stéphanie Gomes Bolsoni
Tamara Salomão Miamoto
Tatiana Santana Rodrigues
Telhma de Souza Ribeiro
Terezinha de Oliveira Verchai Faria
Vitor Rabelo de Sa
Vitoria Alencar Pereira
Vitória Oliva Perricci
Wallace Veltri Alves
Wesley Rennan Borges
Wilma Moreira Kleinhans
Wilma Nelson Rocha
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