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Sílvia Pompéia
Como praticar a Educação ambiental nas escolas? Quem explica para nós é Sílvia Pompéia, que há anos vem contribuindo para o sucesso de projetos que motivam educadores e alunos a mudar a realidade e contribuir para a melhoria socioambiental da escola, do bairro e da cidade.
1 - Quais são os primeiros passos e o que é fundamental para implementar um projeto de Educação Ambiental (EA) em uma escola?
Os procedimentos variam conforme as circunstâncias. Vou dar dois exemplos:
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iniciativa do corpo docente — um professor deseja fazer um projeto de EA;
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iniciativa dos gestores — a direção da escola recebe proposta ou estímulo da Secretaria de Educação para participar de um projeto de EA.
No primeiro caso, em que a iniciativa é de um ou mais docentes, eu recomendaria os seguintes passos:
a) Pensar sobre a realidade socioambiental a que seu projeto irá se referir. Em geral, os educadores preferem trabalhar com a realidade local — da própria escola, do seu entorno, do bairro e/ou das famílias dos alunos —, mas pode-se trabalhar também tomando-se por base uma realidade mais distante e que seja de grande interesse para os alunos (algo que está sendo noticiado no momento, um local em que a natureza se encontra preservada, como um parque, uma reserva da região, etc.).
b) Escolher com que turma(s) esse projeto será aplicado.
c) Redigir resumidamente a proposta e discuti-la com a equipe técnica (direção e/ou coordenação pedagógica), visando obter apoio para suas atividades e seu aperfeiçoamento.
d) Discutir a proposta com colegas que poderiam ampliá-la, apoiá-la, enfim, envolver-se efetivamente nela. Nesse ponto, a proposta estará mais sólida, mais completa!
e) Apresentar a idéia aos alunos e discutir com eles o projeto, provocando sua curiosidade e seu interesse. Isso implica em negociar o próprio projeto, dentro das condições possíveis, para que algumas decisões sejam compartilhadas com os próprios alunos. Eles podem até sugerir o nome para o projeto...
f) Executar o projeto conforme seu plano (que provavelmente inclui momentos de avaliação, reflexão e sistematização), deixando espaço para mudanças, pois quanto mais vital e participativo for seu projeto, mais ele estará sujeito ao imprevisível, a mudanças e adaptações. Veja, na resposta à sexta pergunta, algumas recomendações sobre um plano de EA que provoque e facilite a maior participação dos estudantes.
g) Após uma avaliação final com os alunos sobre até que ponto foram alcançados os objetivos propostos (que inclui o desempenho dos alunos nos temas abordados, a qualidade dos trabalhos produzidos por eles e os resultados das ações relativas ao meio ambiente, se houver), em geral, é interessante organizar a apresentação do que foi produzido e dos resultados do projeto aos colegas (outros professores e alunos) e à comunidade.
No segundo caso, em que a iniciativa é dos gestores, eu recomendaria os seguintes passos:
a) Como no item anterior, é interessante iniciar o projeto pensando sobre a realidade socioambiental a que o projeto irá se referir: pode-se trabalhar com a realidade local ou uma realidade mais distante e que seja de grande interesse para os alunos.
b) Discutir a proposta com a equipe técnica e com o grupo de professores visando aperfeiçoar a proposta e mobilizar possíveis interessados em “abraçar” o projeto. (Observação: com grande freqüência, projetos que são impostos aos professores não dão certo! Quando eles são organizados de forma participativa, os professores envolvidos costumam obter sucesso em suas iniciativas.).
c) Formar um grupo com os professores interessados para que eles redijam o projeto de modo sucinto, apresentando especialmente: os objetivos (tanto pedagógicos quanto de transformação da realidade, se houver a intenção de intervir ou transformar algo no ambiente); as atividades programadas semana a semana; as formas de sistematização das descobertas dos alunos (construção coletiva do conhecimento); os momentos e os instrumentos de avaliação e a forma como os resultados finais serão relatados/apresentados.
d) Em seguida, os professores engajados no projeto poderão desenvolver as atividades planejadas de acordo com os procedimentos descritos no projeto.
2. Você acredita que os professores que desejam colocar a Educação Ambiental em prática com seus alunos precisam de uma formação ou preparação específica?
Novamente, isso varia muito. A prática da EA depende tanto da experiência prévia do professor quanto de sua vontade e disposição para essa formação. Ela depende também da qualidade e dos objetivos da “formação ou preparação específica” que é oferecida ao professor.
Em minhas andanças pelo Brasil, trabalhando com escolas e professores que desejam realizar projetos de EA, encontrei casos em que os educadores já tinham grande prática nesse assunto e poderiam até dar a “formação ou preparação específica” a seus colegas, gestores e responsáveis pelos projetos. Mas mesmo esses professores, quando se lhes oferecia uma formação significativa, que atendesse aos seus anseios de aperfeiçoamento, apreciavam muito participar desses momentos formativos.
Um bom processo de formação para EA, em geral, deve prever, antes de tudo, o diálogo com o público potencialmente interessado, com o intuito de verificar suas reais necessidades e aspirações, assim como seus conhecimentos prévios. Desse modo, evita-se “chover no molhado” e vai-se direto ao ponto em um caso específico.
Além disso, um bom processo formativo deve incluir apoio individual à prática de cada participante, espaço para que cada um desenvolva seu próprio projeto, troca de informações, relato de casos, exposição de exemplos, etc. Ele também deve prever momentos para a avaliação de cada etapa de aplicação, novas trocas de informações, estímulo à criatividade nas práticas pedagógicas, etc.
Não acredito em projetos de capacitação para Educação Ambiental muito inespecíficos, teóricos, abstratos e generalizantes que têm sido propostos no Brasil nesse momento. A fase de esclarecimentos muito gerais sobre o que é EA, os problemas ambientais em geral, entre outros aspectos, já está superada: não são mais necessárias a sensibilização e a divulgação de informações generalizantes, uma vez que o tema ambiental já se tornou uma questão colocada pela sociedade, e ninguém é contra a EA. Agora, o momento é de aprofundar os conhecimentos sobre os últimos acontecimentos na esfera socioambiental e analisar as realidades específicas que serão abordadas em um projeto. Esse processo exige participação ativa do professor!
3 - Poderia citar alguns exemplos de projetos bem-sucedidos de Educação Ambiental realizados em escolas?
Citarei três projetos dos quais participei na concepção pedagógica, na autoria dos materiais didáticos, na capacitação de educadores e na orientação e avaliação da prática — sempre como parte de uma equipe maior:
Projeto Muda o Mundo, Raimundo de Educação Ambiental no Ensino Fundamental — Esse projeto, implementado pelo Instituto Brasil de Educação Ambiental, foi planejado e realizado com base em uma iniciativa do WWF em parceria com IBAMA, MEC, MMA, UNESCO e Fundação Roberto Marinho. Fundamentou-se em um livro, dirigido aos professores de 1.ª à 4.ª série, cuja autoria foi compartilhada com muitos educadores que participaram da fase piloto de elaboração da obra e validação do projeto. Mas o livro não era distribuído nas escolas, mas entregue aos professores que participavam de uma série de encontros destinados à discussão sobre EA e a realidade local de cada grupo e ao desenvolvimento de projetos próprios, ou seja, cada participante elaborava seu projeto de acordo com suas necessidades e seu potencial. Foram formados núcleos em todas as regiões do Brasil, responsáveis por organizar esses encontros em centenas de escolas, orientar os professores, promover a articulação entre eles e apoiar as avaliações dos projetos (1995-2000).
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Projeto Educacional Gênesis — Esse projeto, iniciado em 2005, baseia-se em fotografias produzidas por Sebastião Salgado que retratam várias paisagens físicas e humanas, justamente com a finalidade de sensibilizar as pessoas e levá-las à reflexão sobre a relação homem-natureza. Essas fotos geraram um belo material educativo para ser empregado por educadores que aderem ao projeto, que inclui um processo de formação continuada em que os participantes têm a oportunidade de trocar experiências, planejar e desenvolver seu próprio projeto de EA, de modo participativo, inspirados nas fotos de Salgado e em temas locais que mobilizam seus alunos. A primeira aplicação desse projeto, realizada no período de 2006 a 2007, ocorreu em 80 escolas municipais e estaduais e em 13 escolas particulares dos 5 municípios da região metropolitana de Vitória (ES). Ele contou com apoio da UNESCO, Editora Bei, Amazonas Images (de Sebastião Salgado) e de uma empresa siderúrgica. Atualmente (2008), o projeto está sendo aplicado na Espanha, inicialmente em 50 escolas públicas do Principado das Astúrias, que fez a tradução dos materiais brasileiros. Há a intenção de desenvolvê-lo em todas as escolas da região.
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Projeto Fonte da Vida — iniciativa da Avepema (Associação do Verde e do Meio Ambiente), com financiamento do Fehidro (Fundo Estadual de Recursos Hídricos). Esse projeto foi realizado, entre 2005 e 2007, em escolas localizadas nas várias sub-bacias do Alto Tietê (SP). Trata-se de um processo em que os professores que aderem ao projeto participam de oficinas que promovem a discussão da questão das águas na Grande São Paulo e a troca idéias sobre como elaborar seus próprios projetos de EA. Para isso, eles levam em consideração os conteúdos curriculares de suas disciplinas, a realidade socioambiental da região em que se insere a escola (bacia hidrográfica), o interesse dos alunos, as dificuldades que encontram e os potenciais que podem ser aproveitados. O diferencial do Fonte de Vida está no fato de ele sugerir aos professores que orientem seus alunos na elaboração e aplicação de um projeto de melhorias possíveis em alguma realidade percebida por eles. Para isso, os estudantes aprendem a desenvolver um projeto de ação (diagnóstico, plano, execução e avaliação), sempre por meio de procedimentos participativos. Esse projeto alcançou muito sucesso entre alunos, diretores, pais e comunidades. Ele está sendo proposto para uma região da Argentina.
4 - De acordo com a sua experiência, você acha que as escolas se preocupam em conscientizar os alunos e ajudar a preservar o meio ambiente?
Quando falamos “as escolas”, podemos estar nos referindo ao sistema educacional, às comunidades escolares ou ainda aos professores em geral, pois são eles os que de fato realizam o processo educativo no ensino formal. Então, vou responder a essa pergunta nesses três níveis:
O sistema educacional, em teoria, sim: veja que, na Constituição brasileira e nos Planos Estaduais ou Municipais de Educação, há referências explícitas à obrigatoriedade de todo o sistema de ensino contribuir para a Educação Ambiental, o que incluiria “conscientizar os alunos e ajudar a preservar o meio ambiente”. Mas isso não quer dizer que, na prática, esse sistema facilite, favoreça ou sequer torne possível essa obrigação. Ao contrário, em todas as avaliações que foram feitas nos diversos projetos de que participei, os fatores que mais dificultaram as atividades de EA nas escolas foram relativos a políticas públicas equivocadas, tais como:
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grande rotatividade de professores, dificultando a formação e a permanência de equipes integradas, a continuidade de projetos, etc.;
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falta de tempo realmente dedicável a estudos coletivos, ao planejamento, a trocas de experiências entre educadores. Quando há horários teoricamente destinados a isso, geralmente eles são fragmentados, não há reunião do grupo, são sub-aproveitados ou repletos de “encomendas” das secretarias, etc. (há maravilhosas e raras exceções!);
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grande número de projetos impostos de cima para baixo, fora da realidade local, sem a contribuição dos professores (muito menos dos alunos!), que, de forma geral, não são avaliados e a maioria sequer chega ao fim do projeto do qual participa.
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Quanto à comunidade escolar, verifico que a grande maioria deseja, realmente, “conscientizar os alunos e ajudar a preservar o meio ambiente”. Em vários casos, isso é feito regularmente, mas, em outros, há dificuldades, por parte dos professores, para identificar como fazer isso obtendo bons resultados.
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alguns não se interessam realmente por esse tema e, às vezes, opõem-se a trabalhar nesse sentido;
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vários professores acham que seria necessário “parar com a matéria para dar EA”, pois não percebem esse trabalho como parte integrante do currículo escolar, isto é, eles não sabem como trabalhar sua matéria de forma a incluir o aspecto ambiental como parte da realidade a ser estudada sob seu enfoque disciplinar;
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por fim, recentemente, o que mais preocupa os professores é como obter algum tipo de avanço ou mudança nas efetivas atitudes e na realidade ambiental de seus alunos. Sobre isso, veja as idéias apresentadas na sexta e na sétima questões (que, apesar de estarem dirigidas a crianças pequenas, a bem da verdade, valem para qualquer idade!).
5 - A Educação Ambiental consegue propor soluções para todos os problemas ambientais?
Claro que não, colega! Eu diria que, na grande maioria dos casos, a EA é uma condição necessária para que se proponham soluções ambientais. Mas ela não é condição suficiente para que as soluções sejam criadas, desenvolvidas e, especialmente, aplicadas.
6 - Que tipo de atividade ajuda a despertar nos alunos a vontade de desempenhar um papel mais participativo no que diz respeito à preservação ambiental?
Pergunta interessante! Tenho observado que, ultimamente, os professores se preocupam não só com a compreensão dos conceitos que envolvem EA por parte dos alunos, mas com a formação de atitudes e o desenvolvimento de habilidades para um protagonismo em direção a um ambiente mais preservado, mais conservado.
Em minha experiência, venho observando que algumas condições realmente estimulam e contribuem para que seja desenvolvida, nos estudantes, uma noção sobre como cada um pode contribuir para a construção de um futuro melhor e, de fato, tomar decisões e implementar ações com essa intenção. Penso que essas condições são:
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Os alunos sentirem que, nesse projeto, podem contribuir de fato, desde o início, ajudando a escolher o tema e o local que será objeto dos estudos da realidade observada, levando-os a trabalhar o conteúdo da EA e das disciplinas dos professores que assumem o projeto.
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Os alunos contribuírem para a realização de um diagnóstico do tema/local escolhido, observando as características da região e as relações que as pessoas que vivem ou transitam nela estabelecem com o espaço, a natureza e as demais pessoas da comunidade; identificando quais são os atores sociais que convivem com aquele ambiente, assim como os que interferem ou podem interferir nas condições do local, tanto para melhorá-lo quanto para piorá-lo; entrevistando essas pessoas para obter maiores informações e, por conseguinte, poder propor algum tipo de ação que venha ao encontro das aspirações de quem convive nesse entorno; estudando e aprofundando seu olhar, com ajuda do professor, além de consultas a livros e à Internet para conhecer em maior profundidade as questões levantadas.
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Os alunos desenvolverem um plano de ação, baseado em entrevistas, observações e pesquisas, que contribua para o alcance de alguma das aspirações com as quais se identifiquem, retornando com seu plano aos atores sociais entrevistados para que eles contribuam com idéias e ações.
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Os alunos executarem ações possíveis voltadas para a superação dos problemas identificados ou para a manutenção de qualidades importantes do ambiente estudado.
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Durante todo esse tempo, as idéias, os estudos, as entrevistas, os planos, tudo pode ser anotado e sistematizado com ajuda do professor, que também orientará sua turma na produção de textos, mapas, ilustrações, fotos, maquetes, etc.
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Os momentos de sistematização também serão momentos de avaliação ao longo de todo o processo, permitindo que o professor verifique como o projeto está caminhando, o quanto os estudantes estão aprendendo, o que deveria mudar no que foi proposto inicialmente, etc.
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Ao final, o que foi produzido pelos alunos (até mesmo as provinhas tradicionais aplicadas) e os resultados alcançados (na prática) contribuirão para que se avalie até que ponto os objetivos do projeto foram alcançados. Esses materiais poderão ser objeto de uma palestra do grupo para outras turmas, uma mostra de EA na escola, um evento organizado com a contribuição dos alunos em sua comunidade com o intuito de sensibilizar as pessoas, mostrar suas ações, etc.
Quando algumas ou várias dessas condições são possíveis, o interesse e o entusiasmo dos alunos levam a uma grande dedicação de sua parte, operando transformações por vezes surpreendentes, inclusive despertando alguns dos alunos mais “difíceis” para o gosto de aprender.
7. Como realizar um trabalho de Educação Ambiental com alunos de Educação Infantil, já que o tema é bem extenso e muito abstrato para eles?
Colega, muitas escolas trabalham EA na Educação Infantil! Para meu espanto, inclusive, projetos destinados a turmas da 5.ª à 8.ª e do Ensino Médio, com freqüência, têm a adesão de educadores de escolas de Educação Infantil que, para isso, fazem as devidas adaptações.
E como eles fazem essas adaptações?
Desenvolvem um trabalho que sensibiliza as crianças, organizando atividades lúdicas, contando histórias, fazendo passeios com observação do ambiente, coletando e organizando materiais, propondo a criação de desenhos, maquetes ou a construção de objetos simples, deixando as crianças pensar, discutir, propor, inventar e buscar soluções próprias para os desafios encontrados. Desse modo, as crianças são levadas a:
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Admirar a natureza — o espanto diante de diversos animais (como um casulo que se transforma em uma borboleta, uma carreira de formigas que carregam pedacinhos de folhas, um tatu bolinha que se enrola para se fingir de morto e se defender, uma joaninha com seu colorido tão bonito, etc.); o encanto na contemplação das plantas (sua beleza, suas soluções de estrutura, sua simetria, as flores, os frutos, os espinhos, a folha que dorme, o crescimento de uma semente, etc.); a satisfação em descobrir de onde vem a água, como pode ser purificada por nós em um filtro ou como a própria natureza faz isso; por que o gelo é frio e flutua; por que o vapor sobe e é quente e como ele pode ser capturado por uma tampa fria para voltar a ser líquido; como o ar enche uma bexiga; como é possível encontrar uma mica brilhante no meio da areia; que as conchas são bonitas, simétricas e forradas com madrepérola, entre outras descobertas que levarão as crianças a sentirem emoção diante da beleza e da sabedoria da natureza, esse é o início fundante de toda EA que pode — e deve — ser realizada com crianças bem pequenas.
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Cuidar da natureza — a se relacionar com animais, contato que elas adoram. Por isso, poderá ser muito produtiva a criação de situações em que as crianças sejam responsáveis por eles, em que possam falar sobre seus cachorros, gatos, etc.; receber orientações sobre como cuidar deles com carinho e responsabilidade (vacinas, higiene...); criar peixinhos e/ou girinos na sala de aula para observação de seu desenvolvimento e, depois, devolvê-los ao rio, ao riacho ou à lagoa de onde foram coletados; saber que elas não devem matar formigas ou outros insetos inofensivos, mas cuidar para que eles não fiquem em espaços indevidos, entendendo que cada um tem sua função na natureza; fazer visitas ao zoológico ou a uma criação de galinhas ou de patos para ver os ninhos, os ovos, os pintinhos, os patinhos... Enfim, você, professor, deverá estimular a criação de laços entre as crianças e os animais e ir dando as informações sobre como tudo está interligado e como nossa vida depende da vida deles e vice-versa, ampliando, dessa forma, os sentimentos de pertença, solidariedade, cuidado e responsabilidade.
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Cuidar de si e dos espaços em que vivem — de modo a desenvolver o gosto pelo belo (sentido estético), bem conservado, limpo, arrumado (sem rigidez, pois um pouco de assimetria e de movimento é saudável!); “brincar” de arrumar tudo quando acaba uma atividade; cuidar do lixo (destinação correta); lavar as mãos antes das refeições, entre outras atitudes. Colega, você poderá contar histórias comoventes sobre como a comida pode faltar para crianças que vivem em outros lugares quando alguém desperdiça alimentos (jogar comida fora, fazer guerra de comida...); montar, por exemplo, o “cantinho da beleza”, onde haja espelho, pente, escova de cabelo, sabonete, águas perfumadas (podem ser feitas com flores), fivelinhas, fitas, gravatas de brincadeira, óculos de sol, máscaras, fantasias (podem ser bem baratinhas, feitas de papel ou retalhos, vale a imaginação!), tudo que desperte a responsabilidade nas crianças para com seu próprio corpo e com o ambiente: isso também é EA!
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Ser solidárias com os outros — valorizando as pessoas, ajudando quem precisa, não denunciando os outros por qualquer motivo (é tão comum a criança acusar “olha ela fazendo isso!” e o professor não orientá-la de que não é correto delatar colegas) e reconhecendo seus erros. Nesse caso, você, professor, deverá ajudá-la a admitir o erro cometido, fazendo com que ela mesma o reconheça e busque resolvê-lo, pedindo desculpas e reparando o dano. Quando ocorrerem problemas mais graves ou mais gerais, você deverá chamar o grupo para tomar decisões juntos, considerando os fatos. Por exemplo, quando um coleguinha tiver um problema em casa, você deverá estimular a turma a tentar ajudá-lo de alguma forma. Enfim, aproveite todas as ocasiões para desenvolver o sentimento de solidariedade e responsabilidade para com os outros, isso é, talvez, uma das principais etapas da EA.
É extremamente importante que o espaço escolar dê o exemplo: que ele seja arrumado, não haja desperdícios, exista uma relação solidária entre educadores, alunos, as famílias, etc. Ensinamos muito mais com o exemplo do que com falas ou atividades didáticas!
8 - Ao abordar os biomas brasileiros, quais são os pontos mais interessantes para se trabalhar com os alunos?
Essa é uma questão que seria interessante responder em muitas páginas, pois há aspectos fascinantes em cada bioma brasileiro que poderiam ser trabalhados com os alunos. O melhor é pesquisar, com eles, as principais características de cada bioma, procurando descobrir até que ponto a natureza cria:
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Serviços ambientais (mecanismos naturais de manutenção do equilíbrio ambiental), tais como purificação do ar, produção de água, reciclagem de matéria orgânica, captura do carbono, produção de alimentos e matéria-prima (frutas, raízes, folhas, sementes, animais diversos, madeira, fibras, sementes, etc.), que podem ser coletadas sem destruição e esgotamento (manejo), etc.
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Soluções de adaptação das espécies vegetais e animais às condições climáticas e geológicas locais.
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Geração de biodiversidade específica, inclusive (e principalmente) em ambientes de transição — interface entre condições ou ecossistemas diferentes (como entre o mar e a terra firme, as montanhas e os vales, as áreas alagadas e as áreas secas, etc.). Você deverá chamar a atenção dos alunos para dois tipos de medidas relacionadas à biodiversidade: o número de diferentes espécies existentes em todo o bioma, especialmente as endêmicas (que só existem nesse bioma), e o número de diferentes espécies e variedades por hectare até o presente momento. No Espírito Santo, foi encontrada uma região de Mata Atlântica que é campeã mundial nesse sentido.
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Casos interessantes de “receitas de vitória”, como diria a mestra Judith Cortezão: espécies que criam soluções fantásticas para sobreviver, crescer e se multiplicar, como a simbiose da embaúba com uma espécie de formiga ou uma espécie de aranha da Amazônia que tece uma enorme teia coletiva à noite e a recolhe ao amanhecer, etc.
Como você vê, colega, há muito assunto a ser tratado em cada bioma, e o melhor é procurar boas publicações sobre cada um deles. Há também vários vídeos que mostram o melhor de cada bioma. Mas, só para lhe dar um ponto de partida, eu diria que um dos grandes temas, quando se aborda cada um deles, pode ser:
Amazônia — antes de tudo, o Brasil precisa ser muito eficaz na preservação desse bioma para não dar “de bandeja” justificativas a intervenções externas. Para isso, precisa redescobrir como conviver com esse rico ecossistema, aproveitando seus recursos e, ao mesmo tempo, mantendo-o vivo e saudável, ou seja, o País deve desenvolver tecnologia (diferente da atual) para aproveitamento dos recursos hídricos na geração de energia sem devastação, criar formas de manejo fora das áreas protegidas e tecnologias para agregar valor aos produtos, permitindo, assim, o melhor aproveitamento das riquezas naturais sem pressionar o ecossistema.
Cerrado — grande produtor de água para o Sudeste, Centro-Oeste e Sul do Brasil, é o mais ameaçado e abandonado de todos: com enorme biodiversidade, está sendo devastado pelo plantio de soja ou cana-de-açúcar, virando carvão para maior lucro das usinas. Ele possui a maior capacidade para capturar carbono e apresenta plantas com grande potencial alimentar e medicinal, no entanto, isso é pouco estudado.
Mata Atlântica — apresenta a maior biodiversidade por hectare e é um grande produtor de água e de outros serviços ambientais. É o mais devastado dos biomas brasileiros, apesar de todos os esforços, continua sendo intensamente devastado no Sudeste e Nordeste. Felizmente, em algumas regiões, já há frutos da luta por sua preservação, com aumento em sua recuperação.
Caatinga — milagre de adaptação ao clima seco, bioma do semi-árido com o qual tribos indígenas sabiam conviver com fartura! Ela é acusada de improdutiva para que a “indústria da seca” seja alimentada. Ultimamente, a Caatinga vem sendo mais estudada, com desenvolvimento de tecnologias mais adequadas, como a das cacimbas que coletam água nos meses de chuva, garantindo a sobrevivência das famílias nos meses de seca.
Pantanal — esse bioma é fruto do movimento das águas nas cheias e vazantes. Sua constituição é forte, grandiosa, com muitas fases de transição, enorme biodiversidade e grande potencial alimentar, se for bem manejado. Mas ele está ameaçado por projetos de mudanças no curso de seus rios que prevêem a criação de hidrovias com tecnologia não adequada, o que poderia destruir a maior parte desse riquíssimo bioma.
Campos sulinos — incluem os Pampas, que contribuem para o bom desenvolvimento de espécies biológicas e variedades extremamente importantes para a humanidade. Devido ao manejo inapropriado, tem sido, em parte, transformado em deserto de forma crescente e irreversível.
Ecossistemas costeiros — biomas que podem ser considerados parte da Mata Atlântica e consistem em regiões de restingas, manguezais, praias, dunas e ilhas. Os manguezais da costa brasileira, considerados essenciais para a reprodução e engorda de pelo menos 70% do pescado de todo o Atlântico Sul, são de grande interesse nacional e de alta relevância internacional. No entanto, vêm sendo devastados por construções, pela ocupação de praias para turismo e pela inadequada tecnologia utilizada na implantação de fazendas de pescado, especialmente de camarão.
9 - Como relacionar temas ambientais ao currículo escolar sem fugir do rol de conteúdos estabelecidos?
Essa questão é muito boa, pois esse é um dos problemas-chave para a EA nesse momento.
Isso acontece não só no Brasil, em países como Espanha e Argentina, onde acompanho e contribuo com projetos de EA, essa questão também aparece com força. No entanto, a solução depende somente de um truque, desde que o professor tenha a possibilidade de realmente planejar seu trabalho de sala de aula.
Veja: quando eu planejo minhas aulas, começo por onde? Se eu começar pela idéia de fazer tudo igual, nada muda e, assim, fica difícil. Se não quero repetir o modo de dar aula (a mesma matéria, no mesmo tempo e da mesma forma), mas tenho objetivos a cumprir, como faço?
Aí está: começo por relacionar meus objetivos, relativos à minha disciplina, aos objetivos gerais da Educação (como formar para a cidadania). Pode facilitar meu planejamento, se eu considerar que esses objetivos dizem respeito a conceitos (fatos, definições e relações), procedimentos (algoritmos, métodos, processos, habilidades, formas de agir, etc.) e atitudes (valores e comportamentos específicos que quero desenvolver). Isso precisa ser para valer! Então, eu verifico em que conceitos, procedimentos e atitudes seria adequado trabalhar determinado conteúdo dentro de uma abordagem ambiental. Vou citar quatro exemplos:
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Você é um professor da 3.ª série que precisa desenvolver, nos alunos, a capacidade de escrever cartas;
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Você é um professor de Matemática que precisa trabalhar equação de 1.º grau;
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Você é um professor de Geografia e deseja que os alunos conheçam as regiões brasileiras e seus produtos;
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Você é um professor de Física do Ensino Médio e está no momento de trabalhar energia cinética e energia potencial.
É possível trabalhar com EA sem “perder tempo” para atingir esses objetivos?
Se você estabelecer claramente seus objetivos, poderá perceber que, embora haja assuntos mais favoráveis que outros, em qualquer um deles, você poderá elaborar uma estratégia para motivar os alunos, ligando o tema tratado aos problemas relacionados à sua realidade socioambiental ou a questões relativas ao meio ambiente em geral. Para tanto, basta iniciar o bimestre com um desafio para os alunos nesse sentido.
Caso 1 (cartas) — inicie a aula explicando que “nessa semana, vamos escrever uma carta ao prefeito para expor a necessidade de...”, em seguida, cite um exemplo que esteja na pauta do dia na escola (por exemplo: melhor merenda, sinal ou faixa de pedestres em frente à escola, coleta do lixo de tal lugar, canalização do esgoto, etc.). Ou oriente-os da seguinte forma: “Nesta semana, cada um de vocês escreverá uma carta a um amigo ou parente, contando o que há de mais bonito em nosso bairro e convidando-o para conhecê-lo; em seguida, nós vamos juntos ao correio enviar a carta para ver como funciona”.
Caso 2 (equação de 1.º grau) — após uma visita pelo bairro ou pela escola, ou após examinar com os alunos a conta de água da escola ou de cada família, você deverá estimulá-los a identificar “problemas” relacionados ao que observaram e que gostariam de estudar para conhecer melhor e, eventualmente, ajudar a superar. Em seguida, você deverá ajudá-los a identificar as relações quantitativas existentes nesses problemas. Mostre como calcular melhor essas relações quando são expressas por meio de equações. Outras situações poderão ser inventadas para mostrar como aplicar equações e treinar cálculos dessa forma; os alunos poderão ser desafiados a produzir equações e atribuir a elas algum significado, etc. Por fim, estimule-os a ampliar os cálculos para outros problemas e, ao final, voltar a considerar as descobertas que fizeram e, diante da compreensão das dimensões quantitativas da questão, o que poderiam fazer (ou encaminhar a outros) para melhorar a situação observada. Isso mantém elevado o interesse dos alunos e facilita seu entendimento sobre o assunto. O tempo investido é amplamente compensado pela melhor compreensão de todos ao término da atividade!
Caso 3 (regiões brasileiras) — nem preciso explicar, não é? Basta associá-las aos biomas!
Caso 4 (energia cinética e potencial) — você poderá associar a esse tema o caso das hidrelétricas, em que a energia potencial do fluxo da água, elevado pela energia solar até uma certa altura, transforma-se em energia cinética de movimento, à medida que a água cai, essa energia é aproveitada para mover as turbinas, cuja resistência depende justamente de quanta corrente elétrica é “movimentada” nos rolamentos das enormes bobinas — geração, transformação e transmissão de energia. Esse processo poderá ser alvo não só de um estudo quantitativo, mas de compreensão qualitativa dos fenômenos nele envolvidos. Ele também poderá oportunizar uma boa discussão sobre o quanto esse tipo de geração de energia é limpo se comparado com a queima de diesel em uma termoelétrica. Mas há o problema da construção das represas, da ocupação de terras aráveis e da devastação de ecossistemas. Esses aspectos geram boas discussões! Também poderá ser feita uma simulação de audiência pública. Enfim, essas sugestões poderão fundamentar a abordagem desse tema, que poderia parecer tão distante da realidade dos alunos.
Colega, há um problema anterior a essa abordagem: o “rol de conteúdos estabelecidos”, que está relacionado com as prioridades de ensino em sua região e seu tempo. Ele existe porque há uma certa “ditadura do conteúdo curricular” que, na cabeça dos educadores, adquiriu o valor de lei suprema, regra absoluta, quando isso não é um fato real!
Quem estabeleceu esse rol? Quais são os seus graus de liberdade, colega, para incluir e excluir conteúdos ou relativizar o peso de cada conteúdo do rol? Pela Constituição, LDB e lei sobre EA, não só você e sua escola têm uma certa autonomia, como você, sua escola e a Secretaria de Educação a que ela está ligada têm a obrigação de oferecer um ensino contextualizado, relevante e significativo para os alunos, além de conteúdos suficientes de Educação Ambiental.
E nós, professores, temos que tomar em nossas mãos o rumo da Educação, senão ficamos como sanduíches, sendo apertados de todos os lados, quando, na realidade, o que mais desejamos é ver os olhos de nossos alunos brilharem ao compreenderem, ao se interessarem pelo que estamos ensinando a eles!
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