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Loran Santos
Como os jovens podem exercer sua cidadania? Quem responde é Loran Santos, facilitador do núcleo nacional da Rede Sou de Atitude, uma articulação de jovens distribuída por 14 Estados brasileiros, mais o Distrito Federal. Leia a entrevista que os internautas ajudaram a fazer!
Como surgiu a idéia de participar da Rede Sou de Atitude?
Em 2004, comecei a ser voluntário da Biblioteca Prometeu Itinerante, que se localizava na rua onde eu morava, no bairro da Boca do Rio, periferia de Salvador. Lá, conheci Jackson Caetano, que fazia parte do então Projeto Sou de Atitude. Ele me informou que haveria uma seleção de jovens repórteres para ser mobilizadores e facilitadores do projeto. Eu já tinha certa consciência política do mundo e era integrante do grêmio estudantil da escola onde estudava. Quando acessei o site da rede e conheci o trabalho dessa articulação, fiquei empolgado, pois percebi que ali poderia falar sobre as questões políticas da minha escola e do bairro onde moro, além de conhecer a realidade de diversas outras pessoas pelo Brasil afora, as quais tinham pensamentos parecidos e de alguma maneira estavam atuando para transformar sua realidade. Pronto, era isso que eu queria. Fiz a seleção e passei.
O que esse grupo faz e qual é o seu papel nele?
Na verdade, não é só um grupo. Vários grupos formados por adolescentes e jovens compõem a Rede Sou de Atitude. É uma articulação nacional, presente em 14 Estados, mais o Distrito Federal, que visa monitorar políticas públicas, ou seja, verificar como anda a situação das escolas, dos postos de saúde, da segurança pública, etc. Além disso, ocupamos espaços de construção de políticas públicas e de diálogo com a sociedade civil e/ou com o governo, como conselhos, fóruns, comissões, articulações, conferências, entre outros, para fazer valer nossos direitos. Cada grupo que compõe a rede atua de acordo com a sua realidade. Lá em Ouricuri, por exemplo, cidade do Sertão de Pernambuco, o pessoal atua muito com cultura e com o movimento hip-hop. Já em Brasília, acompanha as políticas nacionais para a juventude.
Atualmente, sou articulador da Rede Sou de Atitude e meu papel é ocupar os espaços citados acima, sempre em nome dos direitos da juventude e das bandeiras que carrego como militante social, entre as quais o direito à participação e à comunicação e o desenvolvimento socioambiental sustentável. Também me mantenho conectado às discussões da rede por meio do e-grupo, grupo de e-mail em que a galera da rede troca idéias e planeja ações. Sempre que possível, escrevo algum relato sobre um encontro ou reunião para ser publicado no site. Há pouco tempo, por exemplo, escrevi sobre um debate de que participei. Clique aqui para acessar o texto no site da rede.
O que você ganha com isso?
Vivemos numa cultura em que se privilegia o ganho material em detrimento dos ganhos sociais e da cidadania. Hoje, não recebo nenhum centavo pelo que faço para a rede, mas o grande ganho é poder influenciar as políticas que serão adotadas nas comunidades, nas cidades e nos Estados. E isso não tem preço! No início deste semestre, conseguimos colaborar com o governo da Bahia apresentando propostas nas áreas de comunicação, cultura e participação que foram incorporadas ao Plano Estadual de Juventude. Esse plano valerá por dez anos e norteará as políticas públicas para as/os jovens baianos. Isso significa que os programas e os projetos, entre outras ações do governo voltadas para a juventude nos próximos dez anos, tem uma pitada de participação da nossa rede.
O governo não pode construir políticas sozinho. Temos que chegar junto e intervir, para, assim, conseguirmos um ganho coletivo. O principal ganho é percebermos que temos o poder de transformar a sociedade.
Desde que começou a participar mais ativamente da rede, o que mudou na sua vida? Você passou a ter outras idéias e outra visão do mundo?
Minha vida mudou bastante. A partir do momento em que comecei a participar mais ativamente da rede, pude conhecer diversas pessoas e realidades, que serviram e servem de base para a minha existência. Pude ver o mundo de outra forma, de uma maneira mais complexa do que antes. Compreendi (e estou compreendendo) que o mundo não é tão simples quanto nos dizem e quanto parece. Melhorei também a relação com meus familiares e com as pessoas das comunidades a que pertenço. Dei um gás no meu desempenho na escola e hoje estou numa universidade pública (curso de Comunicação Social na Universidade Federal da Bahia), uma grande conquista para alguém que vem de bairro periférico, no âmbito das políticas públicas.
A partir desses contatos, pude refletir sobre a minha existência: “De onde vim? Quem foram meus ancestrais? Que papel temos na sociedade como cidadãos? O que quero para a minha vida e para as futuras gerações?” Esses questionamentos vêm recheados de conflitos, mas nada como um conflito para o amadurecimento e o autoconhecimento. Essas reflexões fizeram com que eu criasse um projeto de vida focado na mudança coletiva.
Além de integrar a Rede Sou de Atitude, o que mais você faz para participar politicamente e exercer sua cidadania?
Estou estagiando no projeto Observatório de Políticas Públicas, do Grupo Ambientalista da Bahia — Gambá. Lá, cuido de parte da assessoria de comunicação e também da articulação social com pessoas de outras entidades que militam pela causa socioambiental. Faço parte também do Fórum Baiano de Juventude Negra, coletivo em que trocamos idéias sobre a situação do/a jovem negro/a no Estado e sensibilizamos a sociedade e os governos para as questões raciais.
Há pouco tempo, em conjunto com outras organizações, denunciamos, por meio de uma carta entregue ao governador Jaques Wagner, o extermínio da juventude negra, que vem ocorrendo de maneira assustadora aqui na Bahia. Membros do fórum também fizeram uma audiência pública para discutir essa questão na Assembléia Legislativa do Estado.
Faço parte ainda do grupo Poética Efervescente, um grupo de jovens que usa a linguagem literária, com ênfase na poesia baiana, para suscitar debates relacionados a assuntos como a identidade nordestina, a produção literária, entre outros. Sou também agente multiplicador do movimento Um Milhão de Histórias de Vida de Jovens, além de estar na luta pela reabertura de duas bibliotecas: Prometeu Itinerante e Infanto-Juvenil Betty Coelho (onde iniciei minha militância) no bairro da Boca do Rio, periferia de Salvador. Aproveito para fazer um apelo: quem puder apoiar algum projeto voltado para o livro e para a leitura com ênfase na oralidade, por favor, entre em contato comigo. As bibliotecas precisam de apoio para ser reabertas. Outras pessoas devem ter a oportunidade de vivenciar o universo da literatura.
Que resultados você já obteve desde que começou a participar do grupo a ter uma maior atuação política?
Diversos resultados efetivos foram conquistados por meio da rede, desde a influência nas políticas de juventude do Estado e até da Federação, por meio das articulações e mobilizações que fazemos. Já conseguimos mudar lei em Ouricuri, Sertão de Pernambuco, para a valorização da cultura local. Temos assento no Conselho Nacional de Juventude, local estratégico para a construção de políticas e seu controle social.
Mas sabemos que a mudança é processual, e muitas das ações que realizamos hoje, como oficinas, debates, participação em encontros e conferências, só apresentarão resultados quando estivermos mais velhos, ou talvez somente os nossos descendentes vão desfrutar deles. As conquistas que nossa geração usufrui atualmente, como o sufrágio universal, a existência de espaços para a sociedade civil participar da democracia, entre outras, são fruto de batalhas travadas por outras gerações. Não devemos ser muito imediatistas. Os resultados são processuais e contínuos.
Você acredita que a motivação pessoal é o principal fator que leva os indivíduos a intervir na sociedade?
Depende. Cada pessoa tem a sua realidade, sua família, seus princípios (que devem ser sempre revistos) e suas subjetividades. Por isso, acredito que a motivação dos familiares, colegas de escola, amigos/as que nos cercam é superimportante para a participação. Mas acredito também que, muitas vezes, a questão não é apenas pessoal, mas, sim, de entendimento coletivo. Comecei a participar mais ativamente quando me dei conta dos coletivos que estavam ao meu redor. As pessoas têm de se compreender como integrantes de uma coletividade, perceber que suas ações têm impacto em toda a sociedade. Por exemplo, se você não participa do grêmio ou do diretório acadêmico (DA) da sua escola ou faculdade, outras pessoas participarão e decidirão por você, e as questões que se discutem lá dizem respeito à sua vida. Se não participarmos, outras pessoas decidirão por nós, e essas outras pessoas muitas vezes não pensam como nós.
Você acha importante a participação do jovem para que se consiga um país melhor? Por quê?
Sim, porque a juventude tem criatividade e vontade de propor o novo. Em diversos momentos da nossa história, ela se mostrou transformadora de paradigmas. Exemplos como o quilombo de Zumbi (um jovem), os cara-pintada ou mesmo a Revolta do Buzu aqui em Salvador nos demonstram que temos a capacidade de construir um país melhor.
Pesquisas recentes demonstram que muitos jovens estão participando de atividades transformadoras, relacionadas a questões culturais, artísticas, socioambientalistas, entre outras. O fato é que tem uma galera participando e muita gente querendo atuar. Basta dar oportunidade e mostrar que é possível.
Você acha que o jovem brasileiro está suficientemente interessado em política e em exercer a cidadania?
Primeiro, é importante ressaltar que existe muito preconceito contra a palavra política. Muita gente associa política a algo sujo, a corrupção, mas esse entendimento é equivocado e, muitas vezes, fortalecido pelos meios de comunicação e/ou mesmo pela escola. Mas a política está no nosso cotidiano desde o momento em que negociamos com nossa mãe ou nosso pai para chegarmos mais tarde de uma festa ou dormirmos na casa de um colega até quando compramos uma simples camisa, pois ela tem impostos que deveriam ser revertidos para políticas públicas. Quando nascemos e soltamos o primeiro choro, esse já é um ato político.
Existe uma parcela da juventude que tem uma visão limitada da política, mas ela mesma está propícia a ir a uma manifestação para protestar contra algo. Existe outra parcela que está sujeita ao consumismo exacerbado, para a demarcação de identidade. Essa galera costuma ser excludente e não estar atenta (ou finge não estar) para as questões político-sociais que nos acometem no cotidiano. Por outro lado, existe uma boa parte da juventude que atua em algum movimento político, artístico, socioambiental, comunicativo, entre outros, mas ela é invisibilizada nos grandes meios de comunicação.
Concluindo, minha experiência mostra que a juventude está interessada em política, mas uma boa parte dela não tem muita noção do que vem a ser a política e como ela se desenvolve nas micro e macrorrelações do poder. Normalmente, não discutimos as questões políticas (com exemplos contemporâneos) na sala de aula ou mesmo no âmbito da escola. Sugiro uma reflexão: por que não falarmos de política nesse espaço, já que ela está relacionada ao nosso cotidiano? Segue um poema para reflexão:
O pior analfabeto é o analfabeto político.
Ele não ouve, não fala, nem participa
dos acontecimentos políticos.
Ele não sabe que o custo de vida,
o preço do feijão, do peixe, da farinha,
do aluguel, do sapato e do remédio
dependem das decisões políticas.
O analfabeto político é tão burro
que se orgulha e estufa o peito
dizendo que odeia a política.
Não sabe o imbecil que da sua ignorância política
nasce a prostituta, o menor abandonado, o assaltante
e o pior de todos os bandidos,
que é o político vigarista, pilantra,
o corrupto e lacaio
das empresas nacionais e multinacionais.
Texto de Bertold Brecht, escritor e teatrólogo alemão (1898-1956)
Você enfrentou ou enfrenta alguma dificuldade no meio político por ser jovem?
Sim, pois, em alguns espaços que freqüento, existem pessoas que têm uma idéia preconceituosa sobre os/as jovens. Aquela visão de que o/a jovem é baderneiro/a, só quer curtir e não se interessa em solucionar as questões da sociedade. Essa ótica, porém, vem mudando e muitas pessoas com mais idade reconhecem e valorizam a participação juvenil em espaços “majoritariamente adultos”.
No início, ficava até com medo ou vergonha de dar a minha opinião por causa desses preconceitos, mas depois comecei a falar, a perceber que aquilo que eu dizia era importante e a conquistar respeito. Não podemos nos abater com empecilhos supérfluos.
Quero ajudar, mas não sei por onde começar. Quais são as dicas?
Não existe receita para começar a participar. O importante é você se envolver com a galera que já faz algo nesse sentido. Com certeza, o seu bairro deve ter algum grupo ou organização que desenvolvem ações para melhorar a realidade em alguma esfera, na área de saúde, educação, segurança, meio ambiente, cultura, etc. Na sua escola ou faculdade, também existem diversos espaços para participar, desde o grêmio ou DA até o colegiado. São vários os espaços. Basta você querer. Mas veja bem: aja e reflita sobre a sua prática sempre. É legal que você saiba também qual é o seu objetivo com tudo isso. Experimente!
Como você consegue, ao mesmo tempo, estudar e participar da Rede Sou de Atitude?
Faço isso por um ideal de vida. Acredito nas mudanças construídas por nós, da sociedade civil. Por isso, consigo, com esforço e certa disciplina, cursar a faculdade e atuar na rede. Comecei a participar da rede durante o Ensino Médio e não reprovei em nenhuma das três séries regulares.
Às vezes, falto aula para ir a um encontro ou reunião, mas depois pergunto a um/a colega como foi a aula, o que foi discutido ou encaminhado. Também me tranqüilizo porque tenho a convicção de que a Educação não se dá apenas na sala de aula, mas também nesses espaços onde atuo. De que adianta ter o diploma tal, e não ser um ser humano digno da sua existência coletiva?
Às vezes, me aperto um pouco na faculdade, mas consigo conciliar, porque é o que acredito ser melhor para mim e para a coletividade de que faço parte. A luta continua!
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