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A CPMF acabou. Boa ou má notícia?
Em 23 de janeiro de 1997, começou a
vigorar um dos tributos mais polêmicos da história recente brasileira:
a CPMF, Contribuição Provisória sobre a Movimentação
ou Transmissão de Valores e de Créditos e Direitos de Natureza
Financeira. Até 31 de dezembro de 2007, ela vai incidir sobre todas as
transações financeiras realizadas no país, recolhendo 0,38%
do dinheiro movimentado.
Você notou que no meio desse longo nome
está o termo provisório? Pois é. A contribuição
surgiu para atender a uma necessidade emergencial de envio de fundos para o
sistema de saúde pública. Hoje, ela também serve a projetos
de assistência social, como o Bolsa Família.
A CPMF estava “programada” para acabar em 2007, e é isso
que vai acontecer, depois que o Senado rejeitou a proposta do governo de prorrogar
sua cobrança até 2009. Há quem comemore, afinal, é
um tributo a menos para comer o dinheiro do cidadão e do empresariado
brasileiro. Por outro lado, é preocupante saber que, sem ela, os cofres
públicos deixarão de contar com 40 bilhões de reais.
Então, a novidade é boa ou ruim? Para nos ajudar a entender essa
questão, o portal chamou José Carlos de Oliveira, especialista
em Política Fiscal do Departamento de Economia da Universidade de Brasília.
Veja o que ele tem a dizer:
A CPMF acaba dia 31 de dezembro de
2007. Isso é bom para o País? Ela caiu na hora certa?
A CPMF tinha como característica principal
ser um imposto provisório. Então, desde sua criação
ela já tinha um prazo finito.
A implantação da CPMF em 1997 tinha como objetivo gerar um recurso
que seria para a saúde, para atender a uma demanda emergencial, mas que
deveria acabar depois de um tempo. E então, depois desse tempo, todos
os níveis de governo que se beneficiavam da taxa — estadual, federal
e municipal — deveriam buscar formas permanentes de compensar essa contribuição
provisória.
Então, se pensarmos assim, acabar com esse tributo agora é simplesmente
manter coerência com o objetivo inicial da sua implementação.
O problema é que os governos normalmente “entendem” os recursos
como permanentes, e foi o que aconteceu com a CPMF. E aí estabelecem
compromissos com gastos pensando que eles vão durar por toda a vida.
Ou seja, este choque surgido com o fim da CPMF é importante para que
se deixe isso bem claro: se você tem uma renda provisória, só
a comprometa com gastos provisórios.
O que é bom e o que é ruim com o término da CPMF? Primeiro,
é sim um prejuízo, porque perdem-se 40 bilhões de reais
em recursos para investimentos em saúde e seguridade social. O governo
não está preparado para isso, e vai haver uma redução
dos recursos aplicados nessas áreas.
Outro ponto negativo dessa história é que o governo vai reagir
tentando arrecadar dinheiro de outras formas. E pode ser que tente aumentar
a alíquota do imposto de renda, entre outras que dependam somente de
decisão do poder executivo. Nossa carga tributária já é
alta, em torno de 39% do PIB, uma das maiores do mundo. No nosso caso em particular,
além de ser alta, ela não recompensa o cidadão com serviços
qualificados nas áreas em que os recursos públicos são
gastos. Ou seja, o dinheiro não é empregado com qualidade. Quase
40% do que o brasileiro ganha são recolhidos e gastos em saúde
e educação mal geridas, em um serviço de segurança
que é um verdadeiro caos.
Se todos os governos começassem a questionar a qualidade dos seus gastos,
poderiam achar um jeito de compensar a falta dos 40 bilhões arrecadados
com a CPMF sem aumentar a carga fiscal. Esse é o grande desafio do setor
público: gastar com qualidade.
Então, resumindo, diria que há pontos positivos e negativos com
o fim da CPMF. O bom é que está sendo mantida a coerência
com a idéia de que esse tributo é provisório, e de lançar
o desafio para o governo buscar a eficiência no gasto público,
para não aumentar impostos.
Mas você espera que isso realmente
aconteça, ou seja, que o governo priorize a reforma tributária
e a otimização de gastos, em vez de aumentar impostos?
Não. O governo vai fazer retaliação.
Ele vai aumentar os tributos que tiver à mão do poder executivo.
E, como foi a oposição que votou pelo fim da CPMF, o governo pode
usar isso como arma política, dizendo que “a oposição
foi contra os programas nos quais o governo investe o dinheiro da CPMF”.
Mas o dinheiro da CPMF realmente ia
para o destino ao qual foi proposto originalmente?
Não. No início, ele iria todo
para a saúde. Ao longo do tempo, foi permitido que ele fosse aplicado
em programas de seguridade social, o que cobre inclusive o Bolsa Família.
E tanto é verdade isso, que nas horas que precederam a votação
no Senado, o Presidente da República foi a público prometendo
que, se a CPMF fosse mantida, o dinheiro seria aplicado somente na saúde.
Então, qual será o impacto
real do fim dessa contribuição na vida do brasileiro?
Em primeiro lugar, deve diminuir o dinheiro
destinado às áreas que recebiam verba originária da CPMF.
Em segundo lugar, o povo vai sofrer as conseqüências do aumento de
alíquotas.
Qual faixa da população
deve sentir mais as conseqüências dessas medidas?
Num primeiro momento, e no que diz respeito
ao acesso a serviços, quem vai sofrer mais é a população
mais pobre. Quem recorre mais ao SUS é a população de baixa
renda. Em seguida, todo cidadão vai pagar mais impostos para cobrir o
rombo de 40 bilhões.
Também lamento que a CPMF tenha acabado enquanto ferramenta de fiscalização.
Porque o objetivo da criação dela não era somente o de
ser um tributo, mas também de servir como uma forma de fiscalização
de caixas 2 e de outras ilegalidades. Ela faria muito sentido se continuasse
existindo com uma alíquota extremamente baixa – mais baixa que
a atual. Enfim, era um sinalizador que mostrava quem movimentava mais e menos
dinheiro. Associando essa informação com as declarações
de renda, era possível identificar os vazamentos. As pessoas se esquecem
de que a CPMF também serve para isso.
O fim da CPMF vai ter algum impacto
na verba destinada à Educação?
Não creio que haja grande impacto sobre
a Educação, até porque existe um dispositivo constitucional
que não permite desviar muita verba dessa pasta. O impacto pode acontecer
em outros tipos de investimento, como os de infra-estrutura. Também creio
que o Governo Lula faça de tudo para não tirar dinheiro de programas
como o Bolsa Família, já que isso é prioridade dessa gestão.
Mas eu diria que ainda é muito difícil dizer isso agora, porque
entre essas decisões vão entrar elementos políticos: ou
seja, não importa só “em que” eu gasto, mas também
qual a implicação desse investimento para a sustentação
do governo atual.
Por César Munhoz
Entrevista publicada em 13/12/2007
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