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Enem, dez anos depois...
Em 1998, o Enem surgiu com a proposta de
avaliar a qualidade do ensino médio no Brasil, tendo como base a aplicação
de uma prova anual padronizada. Ao contrário da maioria dos vestibulares,
em que cada disciplina tem seu próprio caderno, a prova do Enem não
traz essa diferenciação. Justamente porque a idéia é
priorizar a interdisciplinaridade, a avaliação de competências,
não apenas de conteúdo. O Enem também pode auxiliar o estudante
na continuidade dos estudos, já que sua nota é considerada por
várias instituições de ensino superior em todo o Brasil,
bem como pelo ProUni (Programa Universidade Para Todos). O que se pergunta agora,
às vésperas de o Exame Nacional do Ensino Médio completar
uma década é: como ele vem evoluindo? Para nos ajudar a entender
o papel do Enem no desenvolvimento da educação brasileira, chamamos
Lilio Paoliello Jr., que desde 1995 trabalha como assessor pedagógico
do Pueri Domus Escolas Associadas, e estudou o exame em sua dissertação
de mestrado. Veja a íntegra da entrevista, a seguir.
Por que o Enem é importante
para o estudante?
É importante para que ele localize o seu potencial em relação
às competências e habilidades que são a matriz da prova.
Ele pode ter uma referência do seu perfil em relação ao
perfil dos alunos da sua classe, da sua escola e do país. No Brasil,
o Enem é um parceiro do vestibular. Algumas universidades levam essa
nota em consideração no vestibular. E agora, com a divulgação
dos números do Enem pela Internet, permitindo que qualquer brasileiro
os acesse, eles passam a ser um qualificador das escolas de Ensino Médio.
Então, partimos de um objetivo individual (cada aluno medindo seu potencial)
para um objetivo mais coletivo: o de obter a qualificação da escola
na qual eles estudam.
Em que mais o Enem pode contribuir para a escola e para o professor?
Se o exame mantiver a mesma seriedade, acontecerá o que aconteceu na
universidade. Nos primeiros anos do Provão, os alunos relutaram em participar
dessa avaliação e existiam movimentos contrários a ela.
Muitos estudantes, ou não faziam a prova, ou a faziam sem nenhuma preocupação,
porque achavam um absurdo a universidade ser qualificada por meio de um exame
feito pelos alunos. Hoje já se percebe que, quando as pessoas estão
buscando uma universidade, procuram saber sua classificação no
Enade. Passa a ser um referencial de qualidade. E eu acho que isso acontecerá
com o Ensino Médio também.
Mas esse “referencial de qualidade” não é
discutível? Pode descambar para um ranking simplista?
Pode. Os jornais costumam alardear os resultados do Enem de forma a dar margem
a muitas interpretações. Já vi muitas escolas ficarem em
maus lençóis injustamente. Na nossa rede, tivemos pais de alunos
da Educação Infantil preocupados com a qualificação
da escola no Enem, o que é algo compreensível. Mas temos de relativizar
esses dados. Temos notícias de escolas que estão incentivando
apenas ótimos alunos a participar do Enem. Assim, ela garante a participação
mínima para que seja avaliada e garante uma qualificação
vigorosa na apresentação final.
De que forma o teste vem se desenvolvendo desde a sua criação,
em 1998?
Num primeiro momento, ele foi uma luz no fim do túnel para quem estava
tentando instituir um Ensino Médio diferenciado, que não fosse
aquele enciclopédico que só visa ao vestibular. E muitos vestibulares
acabaram se aproximando daquele primeiro modelo do Enem. Mas hoje acho que o
Enem é que se aproxima do vestibular. É um exame muito mais clássico.
Por exemplo: na primeira prova, a grande maioria das questões era realmente
interdisciplinar. Embora tratasse de conteúdos específicos dessa
ou daquela disciplina, via-se a preocupação de dar um tratamento
interdisciplinar à avaliação. Hoje, não. Você
percebe que uma pergunta, antes de ser “sobre a habilidade número
tal”, é uma questão de Física. Conteúdos mais
precisos estão sendo pedidos.
Na primeira fase do Enem, a prova era montada por examinadores do Brasil inteiro,
que coletavam exemplos de questão e, depois, reuniam-se em Brasília,
onde eram escolhidas as melhores. Era um trabalho muito profundo. Hoje parece
que a coisa já não é mais feita desse jeito.
Então houve um retrocesso?
Exatamente, ou talvez o avanço inicial tenha sido tão grande
que agora se colocou o pé no freio. Essa mudança pode ter a intenção
de tornar a avaliação mais próxima da escola tradicional
de Ensino Médio e de instituir a interdisciplinaridade de forma mais
gradual.
As competências exigidas pelo Enem realmente representam o que
se espera de um bom Ensino Médio?
A matriz de competências que compõe o Enem é o sonho de
formação de qualquer aluno do Ensino Básico. E transformar
isso em questões que funcionem num teste é um grande desafio.
As habilidades, de certa forma, operacionalizam essa matriz de competências,
mas é difícil transformá-las em um rol de questões
que não sejam dissertativas. Muitas vezes, sabe-se qual é o conjunto
de competências cobrado mais pelo tema da redação do que
pelas questões em si.
Não existe o risco de a escola focar demais o aprendizado nas
competências cobradas pelo Enem e deixar de lado outras questões
igualmente importantes?
Sim. Vejo que há escolas fazendo cursos preparatórios para o
Enem, já que a nota é levada em conta nos processos seletivos
de várias faculdades. Mas o objetivo do Enem é avaliar o que o
aluno traz de todo o trabalho desenvolvido na escola. Eu fico meio temeroso
com esse cursinho para o Enem.
Não seria melhor então fazer dois tipos de prova diferentes,
uma para avaliar as escolas e a outra para que os alunos aproveitassem a nota
no vestibular? A conjunção dessas duas práticas não
“contamina” o Enem?
Com certeza, uma coisa contamina a outra. Essa idéia da parceria do
Enem com o vestibular foi muito mal utilizada esses anos todos. Mudou o objetivo
do exame. Eu sou favorável à idéia de que o Enem se torne
a prova do vestibular. Nesse caso, acho que teríamos um ganho substancial.
Todos os estudantes brasileiros seriam avaliados da mesma forma, e por meio
de uma prova que, muitas vezes, é mais inteligente que a da maioria dos
vestibulares. O modelo do Enem poderia substituir o vestibular tradicional.
Dessa forma, teríamos abertura para estruturar o Ensino Médio
com mais categoria. E o vestibular estaria realmente cumprindo o seu papel de
ser uma prova interdisciplinar que não se preocupa apenas com orelha
de livro, mas, sim, com o conhecimento e sua aplicação.
A nota do Enem tem sido usada em algumas seleções para
estágio e emprego. O que o senhor acha dessa prática?
Acho isso bem interessante. Hoje o Ensino Médio no Brasil parece que
só tem a função de fazer o aluno passar no vestibular.
Temos nos esquecido de que ele deve ser a fase final do Ensino Básico.
Com as empresas mostrando essa preocupação com a nota do Enem,
acho que a sociedade pode voltar a perceber a importância do Ensino Médio.
Costumamos separar muito as coisas, achando que não há razão
para o Ensino Médio preparar o aluno para o mundo do trabalho. Mas ele
deve contribuir muito nesse sentido, até para que o estudante faça
uma escolha mais sadia sobre que curso freqüentar no terceiro grau.
Mas a nota do Enem é uma forma criteriosa de seleção
para um estágio ou emprego?
As provas devem ser vistas com muito cuidado. Mas acho que continuam tendo
critérios bem interessantes. O Enem ainda é um bom instrumento
de avaliação. Mas somente ver a nota não resolve. Ele precisa
ser analisado profundamente.
Por César Munhoz
Entrevista publicada em 23/08/2007
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