Betty
Makoni é fundadora e diretora da organização
Girl Child Network (Rede de Meninas) e da Rede de Valorização
de Meninas do Zimbábue. Em 2007, foi duplamente premiada
no Prêmio das Crianças do Mundo pelos Direitos
da Criança, recebendo o Prêmio dos Amigos Mundiais
(concedido por quase 6 milhões de estudantes) e o Prêmio
das Crianças do Mundo (concedido por um júri
de 14 crianças).
A hora da igualdade
Desde 1999, o Prêmio das Crianças
do Mundo pelos Direitos da Criança (clique
e saiba mais) premia iniciativas que fazem a diferença na
qualidade de vida dos pequenos do planeta. Todos os anos, 3 projetos são
nomeados e têm suas histórias conhecidas por milhões de
crianças de todo o mundo, que participam de uma eleição
para escolher seu projeto favorito. Outra condecoração é
dada por um júri de 14 crianças, que se reúne por 15 dias
na Suécia, sempre em abril, e se decide por um dos nomeados.
A edição de 2007 foi dominada
por um tema: a igualdade de direitos entre os sexos. Betty Makoni, indicada
ao prêmio por realizar um completo trabalho de proteção
e educação de meninas no Zimbábue, recebeu tanto o prêmio
do júri quanto o da votação mundial. Para quem não
sabe, lá no Zimbábue as meninas são tratadas como cidadãs
de segunda classe, e sofrem todo tipo de violação de direitos:
muitas não podem ir à escola e são forçadas a trabalhar
para sustentar a família, isso quando não são abusadas
sexualmente pelos próprios pais e irmãos!
Este ano, o júri também teve
outra importante tarefa: a de entregar uma missão a Olara Otunnu, ombudsman
das crianças na ONU. Sabe qual foi o tema da missão? Lutar pela
igualdade de direitos entre meninos e meninas.
Veja também:
• Betty gravou uma mensagem em vídeo especialmente para
as meninas do Brasil! Confira!
A equipe de jornalismo do portal esteve na
Suécia acompanhando a cerimônia do prêmio deste ano e conversou
com a vencedora, Betty Makoni, sobre o projeto que ela desenvolve em seu país
e sobre a situação das meninas em todo o mundo. Para ela, o tema
da igualdade de gêneros é urgente, e o destaque recebido durante
o prêmio chegou na hora certa. Leia a entrevista na íntegra, a
seguir.
Quando e como você percebeu
que a situação das meninas do Zimbábue deveria mudar e
que você poderia fazer algo nesse sentido?
Eu ainda era bem jovem. Aos oito anos, percebi
o péssimo tratamento que minha mãe recebia: meu pai batia nela
à noite. Eu dizia que ela deveria reagir a esse abuso e avisar a polícia,
mas ela se negava: “Isso é problema nosso, só diz respeito
à nossa família”. Foi quando ela morreu, devido a essa violência
doméstica, que ficou muito claro para mim quanta injustiça era
cometida contra a mulher na minha sociedade. No Zimbábue, as mulheres
já nascem com direitos diferentes dos homens e crescem assim.
Essas idéias foram crescendo no meu
subconsciente. Refleti muito sobre isso até que, depois de muita luta,
entrei para a escola, em 1996, e passei a interagir com outras meninas que também
estavam insatisfeitas com seus direitos. Foi isso que apertou o gatilho da minha
consciência. Foi aí que realmente entendi: as mulheres não
estão seguras aqui! Foi como acender uma chama. Era uma questão
de tempo até que eu tomasse alguma atitude, depois de carregar tanta
dor e revolta comigo.
Pelas minhas colegas, pela minha mãe,
por mim mesma, eu tinha que quebrar esse círculo de violência de
uma vez por todas, e comecei a mobilizar as meninas que conhecia. Então,
a partir de 1998, servi como voluntária em uma organização
de assistência social durante três anos.
Seu trabalho vai contra valores tradicionais
do Zimbábue. Como a sociedade reage a isso?
As reações são diferentes
dependendo do caso. Famílias e comunidades que tiveram suas meninas abusadas
sexualmente aguardam desesperadamente pela minha ajuda. Já ajudei cerca
de 20 mil meninas violentadas desde 1998. Isso significa que pelo menos 20 mil
famílias e seus vizinhos apóiam meu trabalho. Por outro lado,
pelo menos 20 mil estupradores e suas famílias me odeiam e fazem o possível
para colocar minha vida em perigo.
Além de entrarem na minha casa encapuzados
e me ameaçando, eles também me difamam sempre que podem. Como
sabem que o Zimbábue é um país em conflito, e que estar
contra o governo também pode significar risco de vida, eles espalham
que sou contra o governo. Homens da agência de inteligência foram
à minha casa para procurar qualquer coisa que pudesse ser um sinal de
subversão, e eu fui presa. Mas sei exatamente como isso foi acontecer:
esse fato está ligado a homens que mandei para a prisão.
Como você pretende perpetuar
seu trabalho? Ele está sendo multiplicado?
César
Munhoz / Positivo Informática
Lisa,
11, entrou para a Girl Child Network quatro anos atrás. Hoje, ela
ajuda a multiplicar o trabalho de Betty.
Sim, ele está. Todas as meninas são
treinadas para assumir posições de liderança. Estamos replicando
o modelo que criei. Há 25 organizações da sociedade civil
que apoiamos com a Girl Child Network (Rede de Meninas). Temos mulheres, homens
e meninos comandando programas que promovem a igualdade de gêneros. Temos
programas ligados à música, que ensinam as meninas sobre seus
direitos e lhes dão poderes. Há muito acontecendo em volta da
Girl Child Network. A Lisa, que está me acompanhando aqui na Suécia,
é uma das meninas que mais tem se destacado no papel de líder.
Ela entrou para a GCN aos sete anos de idade e, depois de quatro anos de treinamento,
lidera um clube de meninas em sua comunidade. Atualmente, há 500 clubes
desse tipo.
E quanto às vilas seguras que
você mantém? Como elas funcionam?
As vilas seguras são como “shopping
centers” onde as meninas encontram tudo o que precisam. Lá, elas
têm acesso à proteção, a aconselhamento, a mantimentos…
Há também uma espécie de museu, em que as meninas encontram
histórias de mulheres poderosas que conquistaram grandes feitos. Nesse
museu, elas aprendem mais sobre essas mulheres e adquirem o senso de que podem
fazer o que quiserem e de que podem chegar aonde quiserem. Assim, refletem sobre
o que podem e querem ser amanhã.
Há também uma “pedra sagrada”
para meninas. Temos a “casa da princesa”, um lugar no qual as meninas
adquirem o poder de fazer regras. Todas as meninas que vão às
vilas visitam a casa da princesa. E os homens que entram lá não
falam nada, apenas demonstram seu apoio com essa atitude.
Como você pretende aplicar o
dinheiro que recebeu do Prêmio das Crianças do Mundo pelos Direitos
da Criança?
Vou usá-lo para expandir uma das vilas,
numa região em que o número de estupros dobrou nos últimos
tempos. Vamos abrir uma central de apoio lá, e aumentar os serviços
da vila.
Além disso, é muito difícil
conseguir doações. Por isso, estou pensando em usar quase 20%
do valor do prêmio e aplicar em uma conta para que o dinheiro renda e
garanta a escola das meninas no futuro.
Você ouviu falar que as Nações
Unidas divulgaram recentemente um relatório dizendo que a igualdade entre
homens e mulheres no mundo todo só será atingida em 2490?
Não acho que meninas como Lisa vão
esperar tanto tempo. Não considero esse número realista, isso
já está acontecendo. Quero dizer, é preciso mobilizar!
Temos que nos reunir e nos mexer rápido! Dos líderes mundiais,
90 por cento são homens. Nós vamos dançar ao ritmo deles?
Eles não priorizam mulheres, priorizam guerras. Nós, mulheres,
temos que tomar as rédeas do poder agora mesmo.
Com estratégias como a da Girl Child
Network, não precisaremos esperar tanto. Acho que esse relatório
deve ter sido feito por pessoas que não têm a mesma visão
que a minha, que não têm em mente soluções práticas
para o problema da igualdade de gênero. Pense: se 20 mil meninas que eu
ajudei estão espalhando a mensagem da igualdade, e isso está surtindo
grande efeito, imagine se replicarmos esse modelo em todos os países!
Esse tempo de espera vai diminuir significativamente.
O júri do Prêmio das
Crianças do Mundo pelos Direitos da Criança decidiu entregar ao
ombudsman das crianças na ONU, Olara Otunnu, a missão de lutar
pelos direitos das meninas. O que você teria a comentar a respeito?
Essa missão chegou na hora certa. Enquanto
a igualdade de gêneros não entrar na agenda de nossos representantes,
ainda teremos esses problemas. Quando olho para as crianças que votaram…
Bem, crianças normalmente tomam decisões com base em idéias
que parecem realistas para elas. Então, fico feliz que tenham visto a
situação das meninas do mundo como um problema crítico.
Entretanto, eu gostaria de ressaltar que o ombudsman é um homem. Eu
gostaria também que ele contasse com a ajuda de uma mulher, porque precisamos
de uma representante em uma missão grande como essa.
Por César Munhoz
• Betty gravou
uma mensagem em vídeo especialmente para as meninas do Brasil!
Confira!