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Todos devem ter direito a saúde. Estou fazendo a minha parte.
No Brasil, para cada 100 mil crianças
que nascem, 60 mães morrem. É uma taxa de mortalidade materna
bastante alta, mas não se compara ao Haiti. Lá, essa proporção
é de 500 mães mortas para cada 100 mil partos. É o pior
lugar para uma gestante viver em todo o Hemisfério Oeste. Ainda bem que
lá existem pessoas como a enfermeira belga Colette Gadenne. Integrante
da organização Médicos sem fronteiras, ela administra o
hospital Jude Ann, na capital Porto Príncipe, que atende mulheres com
gravidez de risco. Nesta entrevista exclusiva ao portal, Colette fala sobre
as causas desse problema, das dificuldades que enfrenta todos os dias e, principalmente,
da diferença que o trabalho de voluntários como ela faz para melhorar
a qualidade de vida em lugares como o Haiti.
O Haiti tem a maior taxa de
mortalidade materna do Hemisfério Oeste, e pelo menos 10% das suas
crianças morrem antes de completar um ano de idade. O que explica
essas taxas?
Eclampsia e hemorragia são as
principais causas de morte entre as mães. O Haiti é um país
estruturalmente desequilibrado há décadas, e as instituições
governamentais têm pouquíssimo poder. A rede pública
tem médicos altamente capacitados (mais do que na maioria dos países
africanos), mas os hospitais enfrentam sérias limitações
financeiras; e os serviços são cobrados até mesmo
das mulheres em piores condições. Além disso, faltam
profissionais nas áreas rurais. Em lugares mais pobres, como na
favela de Martissant, em Porto Príncipe, não há nenhum
posto de saúde. E Martissant tem 150 mil habitantes! Há
uma vontade clara do governo de resolver essa questão, mas não
há dinheiro.
Pelo que parece, a pobreza e
a violência são os principais obstáculos para quem
vive no Haiti. De que forma esses fatores interferem nas condições
de saúde materna?
Em 2006, assim como em 2004 e 2005, a violência
generalizada na capital Porto Príncipe, com seqüestros, estupros,
crime organizado, tráfico de drogas, balas perdidas, brigas de rua entre
gangues armadas e contra a equipe das Nações Unidas, contribuiu
para agravar a instabilidade política e social. Tudo indica que os haitianos,
especialmente os mais pobres, continuarão sofrendo com isso por muito
tempo. O governo não é capaz de responder às necessidades
básicas da população. Vai levar anos até que as
pessoas tenham acesso à saúde de qualidade. A violência
nas ruas impede as mulheres de comunidades mais distantes de chegarem ao nosso
hospital.
De que forma o projeto do qual você participa ajuda a mudar
essa realidade?
Cinco mil mulheres dão à luz por mês em Porto Príncipe.
A equipe Médicos sem fronteiras (MSF) atende, em média,
a 1.200 por mês, entre mulheres pobres e com gravidez de risco.
Isso faz uma grande diferença.
Como você descreveria sua rotina diária atual? Que
horas começa e termina o seu dia, e que tipo de situações
você costuma enfrentar?
Como chefe de missão, lido principalmente com questões
ligadas à gerência e segurança. Em 2006, passamos
por tempos dificílimos por aqui. Foi um verão realmente
violento. O número de pessoas feridas por armas de fogo em nossa
comunidade foi tão grande, que precisamos abrir espaço em
nossa maternidade para atendê-las. Havia muitas brigas nas ruas,
e o número de seqüestros era assustador, intimidando a população
e nossa equipe.
Quando os hospitais públicos entraram em greve no último
mês de dezembro, atendemos um número ainda maior de mulheres
grávidas, já que elas estavam completamente desamparadas.
Nossa equipe vivia tensa e exausta, trabalhando sob constante pressão.
Tivemos que contratar mais e mais profissionais para poder suprir essa
altíssima demanda.
Ainda bem que nossa equipe esteve sempre altamente comprometida com nossas
pacientes, e é impressionante ver como conseguiu lidar com esse
gigantesco volume de trabalho. Nós sabemos o quanto somos importantes
para estas pobres mães haitianas, e nossa maior satisfação
é ver a diferença que fazemos para elas. Como sou voluntária,
não tenho horários. Trabalho tanto quanto precisar para
suprir as necessidades de nossas pacientes.
Uma das maiores preocupações em saúde materna
é a transmissão vertical do HIV, de mãe para filho,
antes, durante e logo após o parto. Qual a situação
do Haiti nesse sentido?
Em junho passado, iniciamos um programa em nosso hospital com o objetivo
de reduzir a transmissão vertical do HIV. Em 2006, realizamos o
teste para detectar a presença do vírus em 2.369 mães,
das quais 87 (3%) eram portadoras do vírus. Essas mulheres foram
direcionadas a um centro especializado nesse tipo de tratamento. O parto
propriamente dito, nós procuramos fazer em nosso hospital mesmo,
onde podemos garantir que as mães tenham o cuidado necessário.
Imagino que tornar-se voluntário na área de saúde
em um país como o Haiti é uma decisão difícil:
trata-se, muitas vezes, de abandonar uma série de possibilidades
de construir uma carreira rentável e uma vida confortável
no seu próprio país para viver em uma área onde os
riscos são constantes; e vive-se uma realidade terrível.
Que razões levaram você a se decidir por essa opção?
Eu me considero uma pessoa privilegiada por ter nascido na Bélgica,
um país onde temos acesso à saúde e Educação
de qualidade. Decidi me tornar enfermeira depois de ler o livro How
the other half dies, de Susan George*, que explica as verdadeiras
razões para a fome no mundo. O que me motivou foi acreditar que
todos têm direito a receber tratamento médico adequado. Depois
de completar a escola de enfermagem, graduei-me em Administração
Hospitalar. Embarquei em minha primeira missão em 1995, no Cambodja.
Foi lá que vi a dura realidade de uma área de conflito,
com a população sendo afetada pelas conseqüências
de guerras e genocídios. Eu me lembro da primeira pessoa ferida
que atendi em um campo minado, dos primeiros pacientes com cólera,
malária... Depois de um ano no Cambodja, decidi continuar entre
os Médicos sem Fronteiras, por acreditar que essa é uma
das mais relevantes e eficientes organizações de emergência
médica do mundo. Estou muito feliz por estar entre os Médicos
Sem Fronteiras, e vou continuar com eles, pois vejo o quanto nosso trabalho
traz alívio às pessoas direta e indiretamente vitimadas
pela violência.
* Nota do repórter: o livro
foi editado e publicado no Brasil pela Editora Paz e Terra, com o nome
O Mercado da fome: as verdadeiras razões da fome no mundo.
Além do Cambodja e do Haiti,
em que outros lugares você já prestou serviço voluntário?
Depois do Cambodja (1995), estive em Angola (1996 e 1997), Burundi (1998
e 1999), Congo (1999), Sudão (1999), Serra Leoa (2002), Costa do
Marfim (2003), Libéria (2004), na região norte do Cáucaso
(Rússia) e na Somália (2006). Em 2000, retornei à
universidade para estudar as leis humanitárias internacionais.
Como disse anteriormente, antes de integrar a equipe MSF, trabalhei como
enfermeira em um hospital belga, enquanto estudava administração
hospitalar.
Cheguei ao Haiti em junho de 2006 como chefe interina da missão
para MSF em Cité Soleil, uma das favelas mais violentas da capital,
Porto Príncipe. A equipe MSF continua trabalhando no Choscal Hospital,
em Cite Soléil. Em 2006, recebemos em média 400 pacientes
por mês. Desde sua abertura, em agosto de 2005, esse hospital recebeu
2.647 vítimas de violência, destas, 574 atingidas por armas
de fogo. Nesse mesmo período, 3.180 mulheres tiveram bebês
lá. Em Porto Príncipe, MSF comanda três hospitais
e dois postos de saúde.
Atualmente, sou chefe de missão no hospital Jude Ann, que atende
a emergências obstetrícias, aberto em março de 2006.
Em um ano, mais de 10 mil mulheres deram à luz nesse hospital,
e mais de 2.600 cesáreas foram realizadas.
O que estudantes e professores
de todo o mundo podem fazer para mudar essa realidade?
Precisamos lutar pela causa das futuras mães que vivem em áreas
pobres e também pelas que passam por gravidez de risco e não
têm acesso a atendimento médico de qualidade. Temos que chamar
a atenção de políticos e potenciais doadores internacionais
que possam ajudar a melhorar os fundos de saúde pública
de países mais pobres. E, finalmente, quando possível, ofereçam-se
como voluntários em iniciativas como a MSF, que realmente fazem
a diferença em sociedades desestabilizadas, como o Haiti.
Por César Munhoz
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