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Entrevistas   Entrevista da Semana

Colette Gadenne é formada em Administração Hospitalar e integra a organização Médicos Sem Fronteiras desde 1995. Esteve em missões em Angola, Cambodja, Burundi, Congo, Sudão, Serra Leoa, Costa do Marfim, Libéria, Somália e na região norte do Cáucaso (Rússia). Atualmente, administra o hospital Jude Ann em Porto Príncipe, capital do Haiti.

 

Todos devem ter direito a saúde. Estou fazendo a minha parte.

No Brasil, para cada 100 mil crianças que nascem, 60 mães morrem. É uma taxa de mortalidade materna bastante alta, mas não se compara ao Haiti. Lá, essa proporção é de 500 mães mortas para cada 100 mil partos. É o pior lugar para uma gestante viver em todo o Hemisfério Oeste. Ainda bem que lá existem pessoas como a enfermeira belga Colette Gadenne. Integrante da organização Médicos sem fronteiras, ela administra o hospital Jude Ann, na capital Porto Príncipe, que atende mulheres com gravidez de risco. Nesta entrevista exclusiva ao portal, Colette fala sobre as causas desse problema, das dificuldades que enfrenta todos os dias e, principalmente, da diferença que o trabalho de voluntários como ela faz para melhorar a qualidade de vida em lugares como o Haiti.

O Haiti tem a maior taxa de mortalidade materna do Hemisfério Oeste, e pelo menos 10% das suas crianças morrem antes de completar um ano de idade. O que explica essas taxas?

• Saiba mais sobre eclampsia e outras doenças que caracterizam a gravidez de risco, na notícia comentada “Mais pré-natal, menos mortalidade infantil”.

Eclampsia e hemorragia são as principais causas de morte entre as mães. O Haiti é um país estruturalmente desequilibrado há décadas, e as instituições governamentais têm pouquíssimo poder. A rede pública tem médicos altamente capacitados (mais do que na maioria dos países africanos), mas os hospitais enfrentam sérias limitações financeiras; e os serviços são cobrados até mesmo das mulheres em piores condições. Além disso, faltam profissionais nas áreas rurais. Em lugares mais pobres, como na favela de Martissant, em Porto Príncipe, não há nenhum posto de saúde. E Martissant tem 150 mil habitantes! Há uma vontade clara do governo de resolver essa questão, mas não há dinheiro.

Pelo que parece, a pobreza e a violência são os principais obstáculos para quem vive no Haiti. De que forma esses fatores interferem nas condições de saúde materna?

Em 2006, assim como em 2004 e 2005, a violência generalizada na capital Porto Príncipe, com seqüestros, estupros, crime organizado, tráfico de drogas, balas perdidas, brigas de rua entre gangues armadas e contra a equipe das Nações Unidas, contribuiu para agravar a instabilidade política e social. Tudo indica que os haitianos, especialmente os mais pobres, continuarão sofrendo com isso por muito tempo. O governo não é capaz de responder às necessidades básicas da população. Vai levar anos até que as pessoas tenham acesso à saúde de qualidade. A violência nas ruas impede as mulheres de comunidades mais distantes de chegarem ao nosso hospital.

De que forma o projeto do qual você participa ajuda a mudar essa realidade?

Cinco mil mulheres dão à luz por mês em Porto Príncipe. A equipe Médicos sem fronteiras (MSF) atende, em média, a 1.200 por mês, entre mulheres pobres e com gravidez de risco. Isso faz uma grande diferença.

Como você descreveria sua rotina diária atual? Que horas começa e termina o seu dia, e que tipo de situações você costuma enfrentar?

Como chefe de missão, lido principalmente com questões ligadas à gerência e segurança. Em 2006, passamos por tempos dificílimos por aqui. Foi um verão realmente violento. O número de pessoas feridas por armas de fogo em nossa comunidade foi tão grande, que precisamos abrir espaço em nossa maternidade para atendê-las. Havia muitas brigas nas ruas, e o número de seqüestros era assustador, intimidando a população e nossa equipe.

Quando os hospitais públicos entraram em greve no último mês de dezembro, atendemos um número ainda maior de mulheres grávidas, já que elas estavam completamente desamparadas. Nossa equipe vivia tensa e exausta, trabalhando sob constante pressão. Tivemos que contratar mais e mais profissionais para poder suprir essa altíssima demanda.

Ainda bem que nossa equipe esteve sempre altamente comprometida com nossas pacientes, e é impressionante ver como conseguiu lidar com esse gigantesco volume de trabalho. Nós sabemos o quanto somos importantes para estas pobres mães haitianas, e nossa maior satisfação é ver a diferença que fazemos para elas. Como sou voluntária, não tenho horários. Trabalho tanto quanto precisar para suprir as necessidades de nossas pacientes.

Uma das maiores preocupações em saúde materna é a transmissão vertical do HIV, de mãe para filho, antes, durante e logo após o parto. Qual a situação do Haiti nesse sentido?

• Saiba mais sobre a transmissão vertical do HIV, na notícia comentada “Mais pré-natal, menos mortalidade infantil”.

Em junho passado, iniciamos um programa em nosso hospital com o objetivo de reduzir a transmissão vertical do HIV. Em 2006, realizamos o teste para detectar a presença do vírus em 2.369 mães, das quais 87 (3%) eram portadoras do vírus. Essas mulheres foram direcionadas a um centro especializado nesse tipo de tratamento. O parto propriamente dito, nós procuramos fazer em nosso hospital mesmo, onde podemos garantir que as mães tenham o cuidado necessário.

Imagino que tornar-se voluntário na área de saúde em um país como o Haiti é uma decisão difícil: trata-se, muitas vezes, de abandonar uma série de possibilidades de construir uma carreira rentável e uma vida confortável no seu próprio país para viver em uma área onde os riscos são constantes; e vive-se uma realidade terrível. Que razões levaram você a se decidir por essa opção?

Eu me considero uma pessoa privilegiada por ter nascido na Bélgica, um país onde temos acesso à saúde e Educação de qualidade. Decidi me tornar enfermeira depois de ler o livro How the other half dies, de Susan George*, que explica as verdadeiras razões para a fome no mundo. O que me motivou foi acreditar que todos têm direito a receber tratamento médico adequado. Depois de completar a escola de enfermagem, graduei-me em Administração Hospitalar. Embarquei em minha primeira missão em 1995, no Cambodja. Foi lá que vi a dura realidade de uma área de conflito, com a população sendo afetada pelas conseqüências de guerras e genocídios. Eu me lembro da primeira pessoa ferida que atendi em um campo minado, dos primeiros pacientes com cólera, malária... Depois de um ano no Cambodja, decidi continuar entre os Médicos sem Fronteiras, por acreditar que essa é uma das mais relevantes e eficientes organizações de emergência médica do mundo. Estou muito feliz por estar entre os Médicos Sem Fronteiras, e vou continuar com eles, pois vejo o quanto nosso trabalho traz alívio às pessoas direta e indiretamente vitimadas pela violência.

* Nota do repórter: o livro foi editado e publicado no Brasil pela Editora Paz e Terra, com o nome O Mercado da fome: as verdadeiras razões da fome no mundo.

Além do Cambodja e do Haiti, em que outros lugares você já prestou serviço voluntário?

Depois do Cambodja (1995), estive em Angola (1996 e 1997), Burundi (1998 e 1999), Congo (1999), Sudão (1999), Serra Leoa (2002), Costa do Marfim (2003), Libéria (2004), na região norte do Cáucaso (Rússia) e na Somália (2006). Em 2000, retornei à universidade para estudar as leis humanitárias internacionais. Como disse anteriormente, antes de integrar a equipe MSF, trabalhei como enfermeira em um hospital belga, enquanto estudava administração hospitalar.

Cheguei ao Haiti em junho de 2006 como chefe interina da missão para MSF em Cité Soleil, uma das favelas mais violentas da capital, Porto Príncipe. A equipe MSF continua trabalhando no Choscal Hospital, em Cite Soléil. Em 2006, recebemos em média 400 pacientes por mês. Desde sua abertura, em agosto de 2005, esse hospital recebeu 2.647 vítimas de violência, destas, 574 atingidas por armas de fogo. Nesse mesmo período, 3.180 mulheres tiveram bebês lá. Em Porto Príncipe, MSF comanda três hospitais e dois postos de saúde.

Atualmente, sou chefe de missão no hospital Jude Ann, que atende a emergências obstetrícias, aberto em março de 2006. Em um ano, mais de 10 mil mulheres deram à luz nesse hospital, e mais de 2.600 cesáreas foram realizadas.

O que estudantes e professores de todo o mundo podem fazer para mudar essa realidade?

Precisamos lutar pela causa das futuras mães que vivem em áreas pobres e também pelas que passam por gravidez de risco e não têm acesso a atendimento médico de qualidade. Temos que chamar a atenção de políticos e potenciais doadores internacionais que possam ajudar a melhorar os fundos de saúde pública de países mais pobres. E, finalmente, quando possível, ofereçam-se como voluntários em iniciativas como a MSF, que realmente fazem a diferença em sociedades desestabilizadas, como o Haiti.

Por César Munhoz

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