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Daniel Aarão Reis Filho é professor de História Contemporânea da Universidade Federal Fluminense (UFF). É autor e organizador de diversos livros sobre o socialismo e temas afins, como História do Marxismo no Brasil: o impacto das revoluções (Paz e Terra, 1991), Revolução Perdida: a História do socialismo soviético (Perseu Abramo, 2002), Manifesto Comunista: 150 anos depois (Perseu Abramo, 1998, com Carlos Nelson Coutinho e Leandro Konder), Revolução Russa: 1917–1921 (Brasiliense, 1989) e Revoluções Russas e o socialismo soviético (Unesp, 2004).

 

O que acontece quando um país acaba?

O que acontece quando o maior país que a Terra já conheceu, formado durante uma revolução, controlado por um regime rígido, e até então inédito, despedaça-se em várias repúblicas? Em 2001, dez anos depois do fim da URSS, a situação na região era caótica: pobreza generalizada, altíssimas taxas de desemprego, regimes autoritários, violações aos direitos humanos, etc. E hoje, 15 anos após a separação, como estão os ex-soviéticos?

Para o historiador Daniel Aarão Reis Filho, autor de diversos livros sobre a aventura socialista, houve um progresso sensível de forma geral, mas a recuperação ocorre de forma desigual, e questões como democracia e economia continuam instáveis. Exceto pelos países bálticos, que lideraram o processo de separação ao final do governo de Gorbatchev, muitas repúblicas ainda vivem uma situação de dependência da Rússia, principalmente em relação à energia elétrica.
 
Entre os jovens — especificamente os russos —, Aarão destaca um movimento curioso: uma certa admiração pelo tempo dos czares, e outro preocupante: a proliferação de grupos neofascistas. Em entrevista concedida ao portal por e-mail, o historiador fala sobre essas e outras questões relacionadas à ex-URSS, fazendo um balanço de como está a região, 15 anos depois da separação. Veja suas respostas na íntegra, a seguir.

Veja também as reportagens:
Rússia: das origens ao Império

URSS: da revolução à superpotência

URSS: o início do fim

Em 1991, quem olhava para as ex-repúblicas soviéticas via um quadro econômico, político e social alarmante em praticamente todas elas. Qual é o balanço que se pode fazer atualmente sobre os países que integravam a URSS, 15 anos após a separação?
Dentro delas, há problemas muito diferentes. Primeiramente, uma grande separação precisa ser feita, entre: as ex-repúblicas soviéticas da Ásia Central (Turcomenistão, Tadjiquistão, Quirguistão, Cazaquistão e Uzbequistão); as repúblicas ocidentais e eslavas (Ucrânia e Bielo-Rússia); a Moldávia constituindo um caso à parte; as ocidentais bálticas (Lituânia, Letônia e Estônia) e, finalmente, as caucasianas (Geórgia, Armênia e Azerbaijão).

Resumidamente, a situação é a seguinte: o primeiro grupo, constituído pelas nações da Ásia Central, manteve-se estruturado em regimes autoritários (de modo geral, os comunistas metamorfosearam-se, transformando-se em partidários de credos nacionalistas, mas mantiveram o poder). Do ponto de vista da inserção internacional, ele se mantém na órbita da Rússia, em termos comerciais e econômicos. Alguns estão autorizando os EUA a instalarem bases militares e centros de comunicação em seus territórios. Imaginam, com isso, garantir proteção em caso de agressão russa. O processo, já denunciado pela Rússia e pela China, pode, no entanto, alterar a relação de forças internacionais na área e se constituir, em conseqüência, em elemento de tensão no futuro imediato.

Entre as nações eslavas não-russas, distingue-se a Ucrânia, ganhando cada vez mais autonomia e se aproximando da Europa. Apesar de recuperar ritmos de desenvolvimento econômico e construir um regime democrático, com pluripartidarismo e alternância do poder, ela continua muito dependente da Rússia, sobretudo em assuntos energéticos. A Bielo-Rússia, por sua vez, está cada vez mais próxima da Rússia, falando-se inclusive numa eventual fusão. O regime político é ditatorial e o país está profundamente vinculado à Rússia em termos econômicos. Quanto à Moldávia, é um país paupérrimo, com grande proporção de população russa — cerca de um terço —, que se mantém extremamente dependente do jogo estabelecido entre os grandes vizinhos — e rivais — Rússia e Ucrânia.

As nações bálticas recuperaram níveis relativamente altos de desenvolvimento econômico e se encontram em processo de franca integração com o mundo europeu, em particular, com o mundo da Europa escandinava. Pode-se dizer que conseguiram largar-se da órbita russa, construindo regimes democráticos pluripartidários. É importante não esquecer que os ex-comunistas ainda conservam relativa importância nesse ponto, porém, transmudados em partidos socialdemocratas ou socialistas e comprometidos com políticas de bem-estar social, embora se curvando às determinações mais gerais do mundo globalizado.

Finalmente, os países do Cáucaso encontram-se em situação mais instável, com destaque para a Geórgia. É ali também, na fronteira norte do Cáucaso, que se encontra a república da Chechênia, minada por uma interminável guerra civil. Recentemente, acirraram-se as contradições entre Rússia e Geórgia. Tais países constroem regimes democráticos com grandes dificuldades e ainda são profundamente dependentes da Rússia, embora estejam lutando para estabelecer laços sólidos com a Europa e os EUA, dos quais esperam, como todas as ex-repúblicas soviéticas, garantias de segurança contra eventuais agressões russas.

Em termos sintéticos, pode-se dizer que toda essa área superou o estado caótico instalado imediatamente após a desagregação da URSS. Os ritmos de recuperação econômica e de democratização política, no entanto, são muito desiguais e, no geral, com exceção dos países bálticos, ainda é grande a dependência que esses países têm da Rússia, principalmente de energia. Isso afeta, inclusive e em certa medida, os próprios países bálticos.

Como vive hoje a juventude nas repúblicas da ex-URSS, principalmente na Rússia?
É difícil generalizar a situação da juventude em todas essas repúblicas. Mas, pelo menos entre os jovens russos, há uma notável tendência conservadora em curso, inclusive com a recuperação positiva da memória sobre a época czarista. Não é difícil deparar-se com jovens russos encantados com um eventual retorno do czarismo. Em termos econômicos e culturais, eles são os mais adaptados às mudanças vertiginosas que tiveram lugar no país depois da desagregação da URSS. Ocupam posições de destaque no mundo empresarial, na mídia, no setor informático, e entre os chamados novii ruskii (os novos russos), ou seja, as novas elites, que são as grandes beneficiárias do processo em curso, principalmente nas grandes cidades.

Os noticiários vêm mostrando o desenvolvimento de movimentos neofascistas entre os jovens. Por que e desde quando isso está acontecendo, e quais são as principais áreas afetadas?
O neofascismo, em toda a Europa Central, tem raízes, de um lado, na situação social difícil — desemprego, falta de perspectivas quanto à Educação — e, de outro, no nacionalismo ascendente. A combinação de desespero social com nacionalismo exacerbado é explosiva, como já se sabe por experiências históricas anteriores.

Percebe-se em algumas parcelas da população uma certa onda de nostalgia em relação ao comunismo e aos tempos de Stalin. Por que isso ocorre? É realmente um desejo de retorno ao regime anterior, ou simplesmente a manifestação de insatisfação com a situação atual?
As duas coisas. Há um percentual considerável de nostálgicos, estimado pelas pesquisas que se fazem entre um quarto e um terço da população. Essas pessoas se recordam com saudade da ordem, da paz, da ausência quase absoluta de inflação, do pleno emprego, das redes de saúde e de instrução, assim como sentem falta do tempo em que a URSS era uma potência mundial, das glórias e do orgulho que daí advinham para os russos. Tendem a esquecer as precariedades, a opressão, a censura e outras mazelas que levaram aquele mundo à ruína.

Que balanço o senhor faz dos governos de Boris Yeltsin e Vladimir Putin, como os primeiros presidentes do capitalismo russo?
Yeltsin foi o desastre. Empolgado com os conselhos dos “Chicago boys”, empreendeu uma aventura liberal que foi catastrófica para a Rússia. Seu desempenho na época da desagregação da URSS, a capacidade de comunicação com as massas e seu histrionismo asseguraram-lhe o posto de presidente da Rússia, para o qual foi, inclusive, reeleito. Não é certo, porém, em função dos erros cometidos, que passe à História como um grande chefe de Estado.

“Chicago boys” era o nome dado a um grupo de economistas que fez história nos anos 70 e início dos 80 do século XX, principalmente no Chile. Eram assim chamados porque a maioria tinha passado pela escola de Economia de Chicago. Eles pregavam a privatização imediata das estatais chilenas e acabaram influenciando as políticas econômicas de diversos países da América Latina, inclusive o Brasil.

Discípulo dos Chicago boys, Yeltsin comandou uma profunda onda de privatizações na Rússia. O processo recebeu diversas denúncias de irregularidades e diminuiu a qualidade de vida da população, já que vários serviços básicos (saúde, educação, etc.) foram entregues à iniciativa privada.


Já Putin é de uma outra catadura. Conseguiu restabelecer a estabilidade e a prosperidade, aproveitando-se, é verdade, das altas tarifas do petróleo, devolvendo ao Estado russo uma ampla capacidade de intervenção e regulação. No entanto, são inegáveis as derivas autoritárias, tanto internas (controle exacerbado dos meios de comunicação), como no plano das relações internacionais (pressões sobre a Ucrânia e a Geórgia, guerra sem quartel contra os chechenos). Já conseguiu uma reeleição e, dependendo das circunstâncias, pode pretender eternizar-se no poder.

Conheça os principais acontecimentos dos governos de Boris Yeltsin e Vladimir Putin.

Há perspectivas de paz no confronto Moscou X Chechênia?
O povo checheno é pequeno, mas bravo e guerreiro. Sua luta contra a dominação russa vem de longa data. É possível que sejam derrotados nesta e em novas guerras, mas nunca serão vencidos. Paz, por lá, pelo menos por enquanto, só se for a dos cemitérios.

O que é socialismo hoje?
Como sempre foi, é uma pluralidade de propostas, que, às vezes, mais se batem entre si que com o capitalismo. Em comum, está a perspectiva de abolir a propriedade privada dos grandes meios de produção. A partir daí, abre-se o leque: de um socialismo democrático, a ser reinventado, às gradações diversas do socialismo autoritário, padrão do século XX, inspirado nas grandes revoluções socialistas vitoriosas daquele tempo, isto é, a russa, a chinesa e a cubana. Ainda não foi possível combinar socialismo com liberdade e democracia. Basta esperar, para ver o que nos reservará o século XXI.

Por César Munhoz
Colaborou Ederson Santos Lima

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