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O que acontece quando um país acaba?
O que acontece quando o maior país
que a Terra já conheceu, formado durante uma revolução,
controlado por um regime rígido, e até então inédito,
despedaça-se em várias repúblicas? Em 2001, dez anos depois
do fim da URSS, a situação na região era caótica:
pobreza generalizada, altíssimas taxas de desemprego, regimes autoritários,
violações aos direitos humanos, etc. E hoje, 15 anos após
a separação, como estão os ex-soviéticos?
Para o historiador Daniel Aarão Reis Filho, autor de diversos livros
sobre a aventura socialista, houve um progresso sensível de forma geral,
mas a recuperação ocorre de forma desigual, e questões
como democracia e economia continuam instáveis. Exceto pelos países
bálticos, que lideraram o processo de separação ao final
do governo de Gorbatchev, muitas repúblicas ainda vivem uma situação
de dependência da Rússia, principalmente em relação
à energia elétrica.
Entre os jovens — especificamente os russos —, Aarão destaca
um movimento curioso: uma certa admiração pelo tempo dos czares,
e outro preocupante: a proliferação de grupos neofascistas. Em
entrevista concedida ao portal por e-mail, o historiador fala sobre essas e
outras questões relacionadas à ex-URSS, fazendo um balanço
de como está a região, 15 anos depois da separação.
Veja suas respostas na íntegra, a seguir.
Em 1991, quem olhava para as ex-repúblicas soviéticas
via um quadro econômico, político e social alarmante em praticamente
todas elas. Qual é o balanço que se pode fazer atualmente sobre
os países que integravam a URSS, 15 anos após a separação?
Dentro delas, há problemas muito diferentes. Primeiramente,
uma grande separação precisa ser feita, entre: as ex-repúblicas
soviéticas da Ásia Central (Turcomenistão, Tadjiquistão,
Quirguistão, Cazaquistão e Uzbequistão); as repúblicas
ocidentais e eslavas (Ucrânia e Bielo-Rússia); a Moldávia
constituindo um caso à parte; as ocidentais bálticas (Lituânia,
Letônia e Estônia) e, finalmente, as caucasianas (Geórgia,
Armênia e Azerbaijão).
Resumidamente, a situação é a seguinte: o primeiro grupo,
constituído pelas nações da Ásia Central, manteve-se
estruturado em regimes autoritários (de modo geral, os comunistas metamorfosearam-se,
transformando-se em partidários de credos nacionalistas, mas mantiveram
o poder). Do ponto de vista da inserção internacional, ele se
mantém na órbita da Rússia, em termos comerciais e econômicos.
Alguns estão autorizando os EUA a instalarem bases militares e centros
de comunicação em seus territórios. Imaginam, com isso,
garantir proteção em caso de agressão russa. O processo,
já denunciado pela Rússia e pela China, pode, no entanto, alterar
a relação de forças internacionais na área e se
constituir, em conseqüência, em elemento de tensão no futuro
imediato.
Entre as nações eslavas não-russas, distingue-se a Ucrânia,
ganhando cada vez mais autonomia e se aproximando da Europa. Apesar de recuperar
ritmos de desenvolvimento econômico e construir um regime democrático,
com pluripartidarismo e alternância do poder, ela continua muito dependente
da Rússia, sobretudo em assuntos energéticos. A Bielo-Rússia,
por sua vez, está cada vez mais próxima da Rússia, falando-se
inclusive numa eventual fusão. O regime político é ditatorial
e o país está profundamente vinculado à Rússia em
termos econômicos. Quanto à Moldávia, é um país
paupérrimo, com grande proporção de população
russa — cerca de um terço —, que se mantém extremamente
dependente do jogo estabelecido entre os grandes vizinhos — e rivais —
Rússia e Ucrânia.
As nações bálticas recuperaram níveis relativamente
altos de desenvolvimento econômico e se encontram em processo de franca
integração com o mundo europeu, em particular, com o mundo da
Europa escandinava. Pode-se dizer que conseguiram largar-se da órbita
russa, construindo regimes democráticos pluripartidários. É
importante não esquecer que os ex-comunistas ainda conservam relativa
importância nesse ponto, porém, transmudados em partidos socialdemocratas
ou socialistas e comprometidos com políticas de bem-estar social, embora
se curvando às determinações mais gerais do mundo globalizado.
Finalmente, os países do Cáucaso encontram-se em situação
mais instável, com destaque para a Geórgia. É ali também,
na fronteira norte do Cáucaso, que se encontra a república da
Chechênia, minada por uma interminável guerra civil. Recentemente,
acirraram-se as contradições entre Rússia e Geórgia.
Tais países constroem regimes democráticos com grandes dificuldades
e ainda são profundamente dependentes da Rússia, embora estejam
lutando para estabelecer laços sólidos com a Europa e os EUA,
dos quais esperam, como todas as ex-repúblicas soviéticas, garantias
de segurança contra eventuais agressões russas.
Em termos sintéticos, pode-se dizer que toda essa área superou
o estado caótico instalado imediatamente após a desagregação
da URSS. Os ritmos de recuperação econômica e de democratização
política, no entanto, são muito desiguais e, no geral, com exceção
dos países bálticos, ainda é grande a dependência
que esses países têm da Rússia, principalmente de energia.
Isso afeta, inclusive e em certa medida, os próprios países bálticos.
Como vive hoje a juventude nas repúblicas da ex-URSS,
principalmente na Rússia?
É difícil generalizar a situação
da juventude em todas essas repúblicas. Mas, pelo menos entre os jovens
russos, há uma notável tendência conservadora em curso,
inclusive com a recuperação positiva da memória sobre a
época czarista. Não é difícil deparar-se com jovens
russos encantados com um eventual retorno do czarismo. Em termos econômicos
e culturais, eles são os mais adaptados às mudanças vertiginosas
que tiveram lugar no país depois da desagregação da URSS.
Ocupam posições de destaque no mundo empresarial, na mídia,
no setor informático, e entre os chamados novii ruskii (os novos
russos), ou seja, as novas elites, que são as grandes beneficiárias
do processo em curso, principalmente nas grandes cidades.
Os noticiários vêm mostrando o desenvolvimento
de movimentos neofascistas entre os jovens. Por que e desde quando isso está
acontecendo, e quais são as principais áreas afetadas?
O neofascismo, em toda a Europa Central, tem raízes, de um lado, na situação
social difícil — desemprego, falta de perspectivas quanto à
Educação — e, de outro, no nacionalismo ascendente. A combinação
de desespero social com nacionalismo exacerbado é explosiva, como já
se sabe por experiências históricas anteriores.
Percebe-se em algumas parcelas da população
uma certa onda de nostalgia em relação ao comunismo e aos tempos
de Stalin. Por que isso ocorre? É realmente um desejo de retorno ao regime
anterior, ou simplesmente a manifestação de insatisfação
com a situação atual?
As duas coisas. Há um percentual considerável de nostálgicos,
estimado pelas pesquisas que se fazem entre um quarto e um terço da população.
Essas pessoas se recordam com saudade da ordem, da paz, da ausência quase
absoluta de inflação, do pleno emprego, das redes de saúde
e de instrução, assim como sentem falta do tempo em que a URSS
era uma potência mundial, das glórias e do orgulho que daí
advinham para os russos. Tendem a esquecer as precariedades, a opressão,
a censura e outras mazelas que levaram aquele mundo à ruína.
Que balanço o senhor faz dos governos de Boris Yeltsin
e Vladimir Putin, como os primeiros presidentes do capitalismo russo?
Yeltsin foi o desastre. Empolgado com os conselhos dos “Chicago boys”,
empreendeu uma aventura liberal que foi catastrófica para a Rússia.
Seu desempenho na época da desagregação da URSS, a capacidade
de comunicação com as massas e seu histrionismo asseguraram-lhe
o posto de presidente da Rússia, para o qual foi, inclusive, reeleito.
Não é certo, porém, em função dos erros cometidos,
que passe à História como um grande chefe de Estado.
| “Chicago boys” era
o nome dado a um grupo de economistas que fez história nos anos 70
e início dos 80 do século XX, principalmente no Chile. Eram
assim chamados porque a maioria tinha passado pela escola de Economia de
Chicago. Eles pregavam a privatização imediata das estatais
chilenas e acabaram influenciando as políticas econômicas de
diversos países da América Latina, inclusive o Brasil.
Discípulo dos Chicago boys, Yeltsin comandou uma profunda
onda de privatizações na Rússia. O processo recebeu
diversas denúncias de irregularidades e diminuiu a qualidade de
vida da população, já que vários serviços
básicos (saúde, educação, etc.) foram entregues
à iniciativa privada.
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Já Putin é de uma outra catadura. Conseguiu
restabelecer a estabilidade e a prosperidade, aproveitando-se, é verdade,
das altas tarifas do petróleo, devolvendo ao Estado russo uma ampla capacidade
de intervenção e regulação. No entanto, são
inegáveis as derivas autoritárias, tanto internas (controle exacerbado
dos meios de comunicação), como no plano das relações
internacionais (pressões sobre a Ucrânia e a Geórgia, guerra
sem quartel contra os chechenos). Já conseguiu uma reeleição
e, dependendo das circunstâncias, pode pretender eternizar-se no poder.
• Conheça
os principais acontecimentos dos governos de Boris Yeltsin e Vladimir Putin.
Há perspectivas de paz no confronto Moscou X Chechênia?
O povo checheno é pequeno, mas bravo e guerreiro. Sua luta contra a dominação
russa vem de longa data. É possível que sejam derrotados nesta
e em novas guerras, mas nunca serão vencidos. Paz, por lá, pelo
menos por enquanto, só se for a dos cemitérios.
O que é socialismo hoje?
Como sempre foi, é uma pluralidade de propostas, que, às vezes,
mais se batem entre si que com o capitalismo. Em comum, está a perspectiva
de abolir a propriedade privada dos grandes meios de produção.
A partir daí, abre-se o leque: de um socialismo democrático, a
ser reinventado, às gradações diversas do socialismo autoritário,
padrão do século XX, inspirado nas grandes revoluções
socialistas vitoriosas daquele tempo, isto é, a russa, a chinesa e a
cubana. Ainda não foi possível combinar socialismo com liberdade
e democracia. Basta esperar, para ver o que nos reservará o século
XXI.
Por César Munhoz
Colaborou Ederson Santos Lima
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