|
Lya Luft, autora de denúncia.
“Não sou educadora nem especialista
em educação” — avisou Lya Luft ao grupo de jornalistas
que esperavam conversar justamente sobre o tema da palestra que ela daria à
noite em uma escola: educação. “Sou uma escritora, uma ficcionista.
O que faço é refletir sobre a vida e colocar minhas impressões
no papel.”
Acontece que as reflexões de Lya, pela profundidade e aplicação
prática que apresentam, vêm chamando a atenção de
pais, educadores e jovens de todo o Brasil, principalmente depois que ela passou
a publicá-las quinzenalmente nas páginas da revista Veja.
Assuntos como família, comunicação, relacionamento e infância
— relacionados, de certa forma, à educação —estão
presentes na obra da escritora desde seus primeiros livros.
Para falar dessas e outras questões humanas, ela faz uso dos mais diversos
gêneros: romance, poesia, ensaio, crônica e literatura infantil.
Lya também possui a experiência de anos como tradutora de grandes
clássicos de Virginia Woolf e Günter Grass, além de ter traduzido
seus próprios livros para o alemão e o inglês. Inclassificável,
diz que gostaria de ser lembrada como uma autora de denúncia, por “botar
o dedo na ferida de algumas mazelas da sociedade, na nossa hipocrisia”.
À medida que os jornalistas insistem em perguntar sobre escola, pais,
filhos e questões afins, Lya brinca: “Pois é, vejam vocês,
a vida é mesmo muito complicada.” Todos riem enquanto ela continua:
“As pessoas vêem e pedem receitas demais para tudo: para segurar
marido, para criar filho. Só teremos uma sociedade melhor se as pessoas
tiverem acesso livre à informação, o que lhes dará
possibilidade de escolher seus caminhos com mais propriedade e serem mais felizes.”
Veja, a seguir, trechos da conversa e conheça mais sobre as idéias,
a vida e a obra da escritora.
...o tipo de mensagem que espera passar
ao leitor:
Gosto de roubar uma frase do Gerald Thomas, diretor de teatro.
Uma vez, no Teatro São Pedro (Porto Alegre), houve um debate com o público
após uma peça, e perguntaram a ele qual era a mensagem da peça.
Ele disse: “quem passa mensagem é fax”.
Eu não passo mensagem, pelo contrário. Quando escrevo na Veja
ou nos meus livros de ensaios não-acadêmicos — Rio do
meio, que é o irmão mais velho, e Perdas e ganhos,
o mais novo —, procuro evitar o tom didático ao máximo.
Não me considero, de maneira alguma, uma educadora.
O que faço é refletir sobre temas que me preocupam e sobre os
quais as pessoas me chamam para falar. Hoje falo sobre educação,
amanhã dou uma palestra para um grupo de psicanalistas... Às vezes
sobre criatividade, outras vezes, família... São coisas que escrevo
desde o primeiro romance, como o drama existencial e o isolamento da comunicação.
Mas não me considero uma pessoa que trabalha com educação.
...família:
Essa questão sempre me preocupou. Meus romances são todos centrados
em famílias disfuncionais, neuróticas, e a loucura é a
parte interessante nisso. Nunca escrevi um livro que terminava com “casaram,
tiveram filhos e foram felizes para sempre”. Até queria que a vida
fosse assim, mas meu trabalho, minha reflexão e arte têm raízes
no conflito.
Tenho uma família legal: meus três filhos estão casados
e tenho muitos netos. Tive uma infância feliz, numa família divertida,
mas sempre trabalhei com a imaginação, olhando as pessoas e imaginando
seu lado avesso.
No avião, reli uma biografia da Anna Freud, uma das filhas do Freud,
que o acompanhou em seus últimos anos de vida e se tornou analista. Ele
permitiu que ela lesse o primeiro livro dele quando tinha por volta de 17 anos.
E disse-lhe, naquela ocasião: “Quando você vir a fachada
de uma casa, com jardim e tudo mais, saiba que, por mais bonita que ela seja,
por trás não é bem assim. Com os seres humanos é
a mesma coisa.”
Esse lado escondido, conflitado, é o que sempre me fascinou e é
sobre ele que tento escrever e falar.
...auto-intitular-se como autora de denúncia:
Acho que minha literatura é, de certa forma, uma denúncia, pois
“bota o dedo na ferida” de algumas mazelas da sociedade, na nossa
hipocrisia. Dizemos que somos uma sociedade muito liberal, o que não
é verdade: temos muito preconceito. Pensamos que entendemos de psicologia,
mas não entendemos. Pegue alguma revista feminina e veja receitas que
vão desde segurar marido até conseguir um amante ou criar filhos.
Somos muito ignorantes nessas coisas, nos afastamos muito da natureza.
Tenho uma filha pediatra que me diz que muitas vezes atende mães que
não sabem segurar bebês, que pedem para a enfermeira cortar as
unhas das crianças. Tantas receitas entram em nossas casas, tantos modelos
impossíveis, acabamos perdendo um pouco a escuta para o bom senso. Nesse
sentido, eu gostaria sim que as pessoas se referissem a mim como uma autora
que escreve refletindo, criando personagens e tramas baseando-se nesses conflitos.
...a diversidade de estilos com os quais trabalha:
Isso me parece natural. Alguns escritores transitam por estilos
diversos. O único compromisso que tenho é o de fazer a coluna
da Veja, fora isso, faço o que “me dá na telha”.
Às vezes, estou fazendo um romance, mas à margem dele, estou escrevendo
poesia, que mais tarde posso ou não reunir em livro.
É interessante que, entre os artistas plásticos, ninguém
estranha essa versatilidade. Pintor pode fazer pintura e escultura, trabalhar
com aquarelas, óleo, crayon e carvão, fazer instalações,
e ninguém estranha. Mas sempre me perguntam: “Você agora
fez romance, antes poesia, por quê?” Eu sigo o que vem naturalmente.
...o início da carreira:
Comecei quando tinha mais ou menos 20 anos. Enviei um livro de poemas para um
concurso do Instituto Estadual do Livro, do Rio Grande do Sul, ganhei e eles
publicaram o livro, que chama-se Canções de linear. Quando
ele saiu, eu já estava casada e comecei a trabalhar como tradutora de
inglês e alemão da editora Globo.
Recebi um convite para escrever crônicas no Correio do Povo. Depois, publiquei
outro livro de poesias chamado Flauta doce, por uma editora pequena,
a Sulina, que não existe mais. Mais tarde, pelo Instituto Estadual do
Livro, publiquei uma coletânea daquelas crônicas do Correio do Povo,
chamada Matéria do cotidiano. Posso dizer que tinha uma carreira
quando publiquei meu primeiro romance, As parceiras, na Editora Nova
Fronteira, do Rio, para a qual trabalhei por muitos anos.
Hoje não faço mais traduções, mas, durante muitos
anos, traduzi muito. Com o Celso Pedro Luft (pai dos meus filhos, hoje falecido),
formei uma família que consistia em um professor universitário
e uma tradutora com três filhos. Trabalhávamos muito, e eu o fazia
porque realmente precisava ajudar a sustentar a casa.
Considero a tradução como minha profissão. A literatura,
para mim, é um prazer. Não faço livros para ganhar dinheiro,
mas traduzia para ganhar dinheiro. Como hoje estou velha no trotoir da literatura
e já tenho muitos livros, posso colocar “escritora” embaixo
do meu nome. Mas levei muitos anos para fazer isso.
...o ofício da tradução:
Gosto muito de traduzir. Tive sorte nessa profissão,
porque, apesar de ser malvista, mal amada e mal paga, é algo delicioso
para quem gosta de literatura, palavra e linguagem. Sempre traduzi inglês
e alemão porque são línguas que eu falava em casa, desde
criança.
O que realmente interessa não é traduzir frases, mas sim aproximar
uma cultura da outra, pois, às vezes, elas são muito diferentes.
A cultura está no ritmo da frase, nos espaços, silêncios,
alusões, referências à geografia, alimentação
e plantas que não existem no Brasil.
Traduzi vários livros da Virginia Woolf, além de uma biografia
dela, para a Editora Nova Fronteira, e só depois de muito tempo tive
a oportunidade de ir a Londres. Enquanto andava lá, eu tentava perceber
as sensações e objetos descritos nos livros, como a cor de uma
casa, o cheiro de uma rua. Quem sabe se eu tivesse podido freqüentar Londres
antes de trabalhar com esses livros, teria feito algo diferente?
Também traduzi muitos livros de Günter
Grass. Ele faz muitas alusões a questões históricas e políticas
que, às vezes, são difíceis até para um alemão
compreender. Pesquisei muito, ligava para meus amigos na Alemanha perguntando
e eles não sabiam.
Foi um treinamento maravilhoso, porque eu escrevi oito horas por dia, durante
muitos anos, e também porque isso me deu certa agilidade mental, pois
eu estava sempre pensando em dois idiomas ao mesmo tempo.
...educação contemporânea:
O nível de ensino tem caído muito. O professor
é uma figura extraordinariamente maltratada. É uma responsabilidade
muito grande: você está mexendo com a alma das pessoas, deve formar
indivíduos capazes de discernir e questionar a realidade. Instruir é
ensinar a pensar.
Com essa crise de autoridade que está havendo, as coisas ficaram ainda
mais bagunçadas. Sou contra uma educação muito severa,
porque a minha foi assim. Eu tinha horror à escola, era como uma prisão.
Eu gostava de ler, mas não de estudar. Fui uma aluna medíocre,
só era boa em português porque lia muito. Nas outras matérias,
sempre passei “raspando” e tinha muita dificuldade com disciplina.
Continuo contra uma educação rígida, mas acho que escola
não é lugar para ficar brincando, deve haver um meio-termo. Você
vai à escola para receber instruções, aprender a trabalhar
e ter disciplina, senão faz 18 anos, “cai na vida” e ela
cobra duramente. Os professores deveriam ser muito mais bem pagos e preparados.
Os políticos falam em educação, mas não de verdade.
Um homem só se torna um homem quando consegue ter alguma opinião
sobre a sociedade. Os números sobre alfabetização não
são verdadeiros: alfabetizado não pode ser quem escreve o próprio
nome, mas sim quem o coloca embaixo de um documento que leu e compreendeu. Estamos
longe disso, só haverá melhoras à medida que as pessoas
tiverem mais informação, para que possam fazer melhores escolhas
em suas vidas.
...pais e filhos:
O drama da maternidade e da paternidade é justamente
o de encontrar um caminho razoável, sem ser o censor ou proprietário
dos filhos, nem um pai “bacana e omisso”. Vejo crianças de
11 anos na rua, à noite, e os pais não sabem disso. As mães
passam batom e vestem sapatos plataforma nas meninas de cinco anos. É
perverso.
Pais jovens recebem muita informação, nem sempre sensata. Vejo-os
assustados, principalmente em relação à autoridade. Há
uma ilusão de que pai e mãe devem ser os melhores amigos dos filhos.
Acho que devem ser mais: amigos, legais, bem-humorados, mas pais. Boa parte
das crianças não tem pai e mãe em casa: tem um gatão
e uma gatinha.
...leitura:
Há pais reclamando que os filhos não lêem.
Pergunto: “Quantos livros você leu esse mês? Quantos tem em
casa?” Não é uma questão de dar o exemplo, mas sim
de transformar o livro em um objeto do cotidiano, como revista, computador e
CD.
Precisamos entender que nem todo mundo gosta de ler. Conheço casas de
intelectuais nas quais um filho gosta de ler e outro não. É preciso
descobrir que tipo de leitura pode agradar mais uma ou outra pessoa. Um pode
gostar de ler sobre aventura, outro sobre automóveis, outro sobre futebol
ou História. Não precisa obrigar todo mundo a ler Machado de Assis,
ler jornal já é uma grande coisa.
Tenho um irmão que gosta de ler sobre automóveis, mas detesta
literatura. Por que não? Ele não é menos gente que eu.
...o que gosta de ler:
Leio pouca ficção. Lembro-me de meu compadre
Erico Verissimo ter me dito um dia, quando eu era bem jovenzinha, que quanto
mais lia romance, menos ele gostava de escrever romance. Leio muito ensaio e
poesia.
É difícil falar sobre a literatura atual feita por jovens escritores.
Poderemos falar disso daqui a 10, 20 anos, quando eles já tiverem se
firmado e pudermos ter um olhar mais distante. Coisas boas são produzidas,
mas as pessoas estão muito aflitas: todos querem publicar, ser bem pagos
e famosos aos 20 anos, e não é assim. Há um processo de
amadurecimento longo. O trabalho deve ser levado com seriedade, mas também
com bom humor.
Admiro muito Guimarães Rosa, pela magia que criou. É realmente
maravilhoso. Há também os clássicos, etc. Não gosto
muito de falar, porque sempre deixo alguém de fora. O que me vem à
cabeça agora é... Drummond, Bandeira, Adélia Prado, Lygia
Fagundes Telles, Clarice Lispector. Na crônica, acho que Rubem Braga nunca
foi superado.
Gosto muito de romance policial. Meu pai tinha muitos em casa, principalmente
em alemão e eu lia loucamente. Geralmente quando estou em aeroportos,
compro um romance policial para ler no avião ou enquanto espero escalas,
principalmente em inglês, que leio um pouquinho mais devagar que português,
e adoro. A vida tem que ter o seu lado leve. Não leio apenas Goethe e
Machado de Assis, a vida não é assim.
...televisão:
Vejo muita televisão. Não tenho assistido a
novelas, porque parecem sempre a mesma coisa. Quem sabe eu devesse assistir
mais para poder falar a respeito. Prefiro não comentar sobre novelas.
Há coisas interessantes para ver. Sou fissurada em notícias:
CNN, FOX News, BBC, Deutsche Welle, History Channel (que adoro), olho todos
esses canais quando posso. Gosto também de entrevistas, filmes e séries
policiais americanas, que são meu relax, como o Cold Case.
Você pode não gostar de muita coisa que vem dos Estados Unidos,
mas eles são bons nesse tipo de série. Também gosto de
E.R.
Morei muito tempo sozinha depois que o Celso faleceu. Sou muito quieta e caseira,
então me acostumei com a televisão. Tendo bons programas, é
uma belíssima companhia. Com uma TV por assinatura, você tem o
mundo em sua casa. Em TV aberta, vejo mais jornais e paro por aí.
…reality shows:
Aqueles programas que mostram as mulheres mudando de casa
por uma semana pra ver como é? Até acho divertido, mas não
acompanho, é um pouco aberrante. O que me diverte loucamente é
a Supernanny. Não deixe de ver. É muito engraçado,
e mostra algo que está aí: os pais não conseguem mais cuidar
dos filhos.
...o que mais gosta de fazer:
Gosto de ler, ouvir música, mexer no computador (escrevendo
uma coisa aqui outra ali, trocando e-mails com meio mundo), caminhar, olhar
paisagens. Moro num apartamento em cima do Country Club — do qual não
sou sócia —, então tenho uma paisagem deslumbrante na janela.
Fico horas ali olhando uma árvore, adoro... Também gosto de reunir
a família.
Sou mais alegre do que talvez pareça, gosto de coisas divertidas e alegres.
Não faço café literário, não freqüento
círculos literários, nos quais os escritores lêem seus textos
para outros. É um programa no qual eu me sentiria meio ridícula.
Respeito quem faz, mas não é meu programa.
Porto Alegre é meu lugar no mundo, mas meu canto favorito é o
quarto e sala que tenho no 16.º andar de um prédio na praia de Torres,
RS. Lá, somos eu, Deus e o mar.
E eu detesto cozinhar, mas gosto de comer.
Recentemente, o escritor alemão
Günter Grass (que já teve obras traduzidas por Lya e é
um de seus autores favoritos) revelou ter sido membro do Batalhão
Frundsberg das SS Nazista. Veja o que Lya tem a comentar:
Não acredito que ele tenha sido um adorador de Hitler. O cidadão
era convocado e ia, sobretudo no fim da guerra. Conheço gente que
pertenceu à juventude hitlerista porque não tinha outra opção,
a não ser que fosse morar no mato e não freqüentasse
a escola. Houve um período que era assim.
Quando as pessoas começaram a se dar conta do tipo de coisa em
que estavam se envolvendo, já era tarde. Saíam, fugiam,
eram presas, mortas. É complicado quando o país fica de
cabeça para baixo. O povo alemão nunca vai se livrar disso,
ficou essa marca, essa dor.
|
...a descendência alemã:
De alemã, acho que tenho mais a cara, o jeitão.
Minha família está há muitas gerações no
Brasil. Não me sinto alemã, quando vou à Alemanha, percebo
que não tenho nada a ver com aquilo, é estranho. Não tenho
relação com aquele tipo de vida, educação, nada.
Meus primeiros livros de História vieram da Alemanha. Meu pai tinha
muitos livros em alemão, então eu os lia junto com os de português.
Mas passei quase a vida toda lutando contra um superego germânico que
ainda era da primeira educação, do primeiro colégio: “Dever,
dever...” Tenho horror a isso, nesse ponto, sou mais baiana que alemã.
...os próximos planos:
Tenho material para um romance, mas ele não deslanchou,
há pedacinhos dele me esperando no computador.
A editora também me propôs reunir as colunas da Veja
em um livro, que será lançado no fim de outubro. Chama-se Em
outras palavras. Algumas vão exatamente como foram publicadas, outras
eu aperfeiçoei depois que li. Como na revista tenho limitações
de espaço, aproveitei para me estender um pouco mais em alguns temas,
no livro.
...otimismo:
Sou otimista em relação à vida e ao ser humano. Quando
eu era pequena não havia penicilina. As pessoas morriam loucamente. Na
Idade Média, as mulheres estavam desdentadas aos 30 e os homens morriam
entre os 17 e os 23. Não concordo com quem diz que “naquele tempo
era melhor”. Acho que vivemos em uma época que é, ao mesmo
tempo, assustadora e fascinante.
Por César Munhoz
*****

|