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Entrevistas   Entrevista da Semana
Foto: Divulgação

Aderlei de Souza é jornalista graduado pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas e, há 15 anos, faz a cobertura do setor de transportes multimodais, escrevendo atualmente no portal estradas.com.br.

Claudio Barbieri da Cunha é engenheiro civil graduado pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, doutor em Engenharia de Transportes pela mesma instituição e pós-doutor em Engenharia Industrial e de Sistemas pela Universidade da Flórida. É professor do Departamento de Engenharia de Transportes da USP.

 

Transportes: falta vontade política.

Não adianta tapar buracos, é preciso recuperar efetivamente a malha rodoviária brasileira e desenvolver programas de educação para os motoristas. Além disso, deve-se investir em modais alternativos, mais econômicos e seguros para o transporte de passageiros e cargas, como as hidrovias e ferrovias. Resumidamente, é isso que precisa ser feito para que o setor de transportes consiga atender melhor os cidadãos e acompanhar o ritmo de desenvolvimento que o governo brasileiro pretende instaurar no País. Quem avisa é o jornalista Aderlei de Souza, articulista do portal estradas.com.br. Há mais de 15 anos cobrindo o setor, ele conta que, pelo menos desde a década de 80, nenhum governo brasileiro levou os transportes a sério. “Precisamos de governantes com vontade política para enfrentar o problema e resolvê-lo.”

A seguir, você lê a entrevista na íntegra, na qual ele detalha esses e outros pontos. Ela também traz comentários do professor Cláudio Barbieri da Cunha, do Departamento de Engenharia de Transportes da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo.

Qual é o saldo da Operação tapa-buracos? Houve algum resultado efetivo na melhoria da qualidade das estradas em que foi executada? Reduziu o número de acidentes, por exemplo?
Aderlei: Operações tapa-buraco são sempre medidas paliativas e normalmente são inócuas, como é o caso dessa. A malha rodoviária brasileira está muito desgastada. Não adianta mais tapar buracos, uma medida assim minimiza pouco os problemas, não os soluciona. O que resolve efetivamente é investir em reformas para recuperar as estradas e realizar campanhas educativas para tornar os motoristas mais conscientes no trânsito. Os acidentes no País, cujos índices continuam altos, são, na maioria das vezes, conseqüência da imprudência dos condutores de veículos e da impunidade. Nas rodovias paulistas, por exemplo, morrem mais de 300 pessoas por dia, é como se caísse um Boeing diariamente.

Percebo que, pelo menos desde a década de 80, nenhum governo levou as estradas a sério. Não se investe na instrução dos motoristas nem na recuperação das pistas. Educação para o trânsito deveria fazer parte do currículo escolar.

O governo federal lançou, em setembro, o edital para seleção da primeira PPP (parceria público—privada) para recuperação de estradas federais. Alguns Estados, como Paraná e São Paulo, já experimentam parcerias como essa há algum tempo. Quais os prós e contras desse tipo de iniciativa?
Aderlei: Há muitas controvérsias sobre os modelos de concessão de estradas à iniciativa privada, mas o paulista é um dos melhores. O único problema é o valor do pedágio, que é muito alto, mas é o jeito de manter as estradas em bom estado. Esse é um caminho natural diante da falta de vontade política do governo de assumir a questão, pois é obrigação dele se esforçar ao máximo para manter o sistema de transportes sem recorrer à iniciativa privada. Mas, sem dinheiro em caixa, os governos viram essa como a única saída e tiveram que utilizá-la.

Em São Paulo, melhoraram muito o asfalto, as condições de trânsito e a segurança, em vários pontos. Nos outros Estados, como Rio e Paraná, há problemas em relação ao valor cobrado da população e ao modelo de concessão, que parecia desvantajoso para os empresários envolvidos. Esse é um problema em concessões: às vezes a empresa oferece um preço muito baixo e, depois, percebe que com esse valor não é possível efetuar os serviços satisfatoriamente. Em São Paulo havia casos em que a empreiteira fez um preço de licitação tão baixo que, depois de um tempo, a obra estava paralisada com a justificativa de que faltavam verbas. As empreiteiras pediam muitos aditivos, até que se percebeu a necessidade de fazer uma nova licitação.

O modelo adotado pelo governo federal é diferente: está sendo concedida apenas a parte de conservação das estradas, mais nada. Não acredito nesse modelo, acho que ele não vai funcionar. A malha que precisa de cuidados é muito grande e eles querem aplicar as PPPs em apenas algumas rodovias.

Por que quase não existem ferrovias em funcionamento no Brasil? É economicamente interessante que elas sejam reativadas?
Aderlei: Como sempre, falta vontade política para fazer essas ferrovias voltarem a funcionar. Economicamente, elas são muito interessantes para o País, mas não para os empresários. O transporte rodoviário ainda é mais rentável, e existe um lobby forte das empresas que operam em rodovias para que o governo não incentive muito outras formas de transporte, tanto para cargas como para passageiros. Hoje, viajar de trem é turismo. É caro, raro e curioso ver alguém andando de trem.

O Brasil viveu, nos últimos anos, uma onda de popularização do transporte aéreo. O professor Barbieri, da USP, comenta este processo:
Certas tarifas oferecidas por algumas empresas em determinados itinerários e horários são realmente muito atraentes. Podem ser, às vezes, até mais baratas que ônibus. Por outro lado, ainda temos um mercado muito restrito. Com a redução drástica das operações da Varig, aumentou a concentração de passageiros em duas empresas principais. Com menos oferta e a mesma demanda, as tarifas tendem a subir. Esse processo de popularização não só foi freado, como também pode estar sendo revertido.

O que impede que o governo invista no transporte hidroviário, considerado um meio de baixo custo em comparação ao rodoviário, que é o predominante no Brasil? Levando-se em consideração a vasta rede de rios que possuímos, por que essa forma de transporte tem uma participação tão pequena em nosso país?
Aderlei: Também é vítima do lobby do transporte rodoviário. O governo atual chegou a dar mais atenção ao transporte hidroviário, mas ainda faltam investimentos, há muito que ser feito. A quantidade de containers de caminhões que uma barcaça comporta é fenomenal. Os rios estão aí, é só fazer algumas obras de melhorias e investimentos em equipamentos e pessoal. É um tipo de transporte que minimizaria problemas, como acidentes em rodovias e poluição do ar, além de ser muito mais barato.

Barbieri complementa:
Entre as várias questões envolvendo o subaproveitamento das hidrovias brasileiras, uma delas é cultural. Muitas empresas não estão acostumadas com esse tipo de modal, pois ele é muito lento, não pode ser aproveitado para qualquer tipo de carga. Na verdade, há uma configuração geográfica e econômica no Brasil que desfavorece o uso do transporte hidroviário. Você pode usar a hidrovia Tietê—Paraná para trazer soja, mas o que há para ser levado de volta? A barca voltaria vazia, fazendo com que esse modal deixe de ser competitivo. Além disso, as cargas hidroviárias são em sua maioria agrícolas, portanto, sazonais. Então, não há transporte o ano todo, o que torna o investimento ainda menos atraente.

Por que a gasolina é tão cara no Brasil, em comparação com outros países produtores de petróleo da América Latina?
Aderlei: O problema no Brasil está nos tributos incorporados ao preço do produto, que o encarecem bastante. Tenho conversado muito com donos de postos e distribuidores de combustível na região onde moro, que me contam que “não tem como vender gasolina por menos de X”, e esse X é sempre muito alto. Quem vende por menos está adulterando o material.

É verdade que o gasto com transportes é um dos maiores no orçamento mensal dos trabalhadores de classes mais baixas?
Aderlei: Sim. Pessoas de baixa renda têm que morar na periferia, longe das grandes concentrações de empresas, porque é onde os aluguéis são mais baratos. Nas regiões metropolitanas, muitas vezes os trabalhadores precisam tomar quatro conduções em um dia para chegarem ao trabalho. Em grandes cidades, uma passagem de ônibus custa aproximadamente R$ 2, o que explica por que o mercado de transporte clandestino é tão intenso. Quando pesa no bolso, o trabalhador quase nunca pensa no que é mais seguro: pegar um ônibus que custa R$ 2 ou uma Kombi superlotada e com manutenção malfeita pagando um real.

Algumas cidades brasileiras possuem sistemas “semi-integrados” de transporte. Em alguns trechos, o usuário faz uma ou duas baldeações pagando apenas uma passagem. Mas por que não há no Brasil cidades em que, com apenas uma passagem, possa-se rodar todo o perímetro urbano? O professor da USP responde:
A integração é uma experiência relativamente nova, que envolve questões complexas, inclusive esferas de poder diferentes. Metrôs e trens de subúrbio, como os de São Paulo, são meios da esfera estadual, o transporte metropolitano é intermunicipal e os ônibus que circulam dentro do município são da esfera municipal. Portanto, seria necessário que essas instâncias públicas mantivessem um acordo entre si, e isso é complicado.

Por César Munhoz
Colaboraram Ederson Santos Lima, Josemara Boiko, Julio Cezar Winkler e Ricardo von Staa.

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