Entrevistas   Entrevista da Semana
Foto: Ivone Perez / ENSP / Fiocruz

Débora Cynamon é pesquisadora adjunta e chefe do Departamento de Saneamento e Saúde Ambiental da Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP), da Fundação Oswaldo Cruz. É também coordenadora do Subprograma de Gestão Ambiental do Programa Fiocruz Saudável.

 

Saneamento: não se investe pouco, os recursos existentes são mal aproveitados.

Dados do IBGE mostram que quase todos os brasileiros têm acesso à água. Um dado animador, à primeira vista. Mas, de que tipo de água estamos falando? “Há quem se abasteça em chafarizes, barreiros e poças. Estas pesquisas deveriam trazer uma diferenciação mais detalhada”, explica Débora Cynamon, chefe do Departamento de Saneamento e Saúde Ambiental da Escola Nacional de Saúde Pública, da Fundação Oswaldo Cruz. Em entrevista concedida ao portal, ela contou que, além da ausência de dados sólidos, algo que impede a melhoria da situação do saneamento básico no país é a falta de programas educacionais relacionados ao meio ambiente e saneamento. Questionada sobre as disparidades em ofertas de serviços de saneamento no Brasil, ela respondeu que a situação é mais preocupante em lugares em que não há informação. “Observei muito isso no Norte e no Nordeste, principalmente em municípios onde há resquícios do coronelismo. Nesses lugares, educar as pessoas pode ser perigoso para os poderes locais, pois representa uma forma de mobilização social”. Esse é o problema que ela pretende amenizar, estando à frente do Programa de Educação Ambiental e Mobilização Social para o Saneamento (Peamss), que envolve a ENSP e cinco ministérios.

Conheça em detalhes o Programa de Educação Ambiental e Mobilização Social para o Saneamento.

A seguir, Débora fala sobre a situação do saneamento básico no Brasil e alerta: os recursos destinados a esses serviços precisam ser mais bem geridos.

A Organização Mundial da Saúde acaba de divulgar em um relatório que o mundo não conseguirá cumprir as metas do milênio relacionadas ao saneamento básico e à água. Como está o Brasil nesse sentido?
Em termos de acesso à água, pelo menos nos números oficiais, o Brasil está quase atingindo a universalização. Mas, quando se fala em esgoto, principalmente em relação ao tratamento, o Brasil é considerado uma das cinco piores realidades da América Latina. É bem possível, portanto, que não atinjamos essa meta.

Gostaria de ressaltar que faltam dados confiáveis. Apenas 3% dos municípios responderam às perguntas sobre o lixo na primeira pesquisa nacional que houve. Mesmo assim, identifica-se que há poucos aterros sanitários. Sem falar na confusão que as pessoas fazem acerca do que é um aterro sanitário. Os contratados para executar essas pesquisas normalmente não possuem a qualificação necessária, pois não são eficientemente instruídos sobre os conceitos de saneamento, são treinados durante uma semana.

A pesquisa funciona assim: pergunto se na sua região tem um aterro sanitário, você diz que sim e eu anoto no questionário. Será sabemos o que é um aterro sanitário?

Em Volta Redonda, há um lixão que as pessoas acham que é um aterro sanitário controlado e não é. São terminologias que nem todos conhecem. As pesquisas camuflam muito.

Temos problemas com água também. Alguns lugares têm adensamento populacional e as pessoas usam poços. Então, quando a pesquisa pergunta sobre o acesso à água, os moradores dizem que possuem, mas não sabemos a que tipo. As regras mandam que o poço esteja de 20 a 30 metros de uma fossa ou qualquer outra possível fonte de contaminação.
A maioria dos brasileiros (95%) têm acesso à água, mas há quem se abasteça em chafarizes, barreiros e poças. A pesquisa deveria trazer uma diferenciação.

Para que tenhamos dados mais confiáveis, o IBGE precisa investir mais no detalhamento de suas pesquisas e no treinamento dos entrevistadores.

Ainda há muitas disparidades regionais no Brasil com relação à oferta de saneamento básico à população. Onde a situação é mais crítica?
A situação é mais crítica onde há um nível mais baixo de educação ambiental, porque há menor conscientização da população.

Uma dificuldade que enfrentamos para difundir essa educação ambiental é o coronelismo, que ainda é muito forte em algumas regiões brasileiras — o interior do Nordeste e do Norte, por exemplo — coincidentemente os locais onde estão as piores condições de saneamento.
Normalmente, é difícil informar a população que vive sob esse domínio. Por ser uma forma de mobilização social, isso ameaça os poderes regionais.

Gostaria de ressaltar um movimento interessante. Estive há pouco no município de Pintadas, interior da Bahia, que fica a três horas de Salvador. Lá, há muitos lugares melhorando sua situação de saneamento com a ajuda da Igreja. É engraçado, por um lado vemos igrejas que levam a questão religiosa para um lado que não é interessante, mas lá ela tem um papel fundamental na melhoria da qualidade de vida. Há lugares onde o acesso é muito difícil, e mesmo assim há a ajuda da Igreja.

Integrantes da arquidiocese do sul formaram uma associação de mulheres que conseguiu mobilizar os moradores e resolver vários problemas de saneamento. Por exemplo: eles estão auxiliando as pessoas a fazerem cisternas de água de chuva. Quase todas as casas lá são atendidas por esse sistema de água.

Isso mostra que a diversidade de acidentes geográficos do Brasil não permite soluções padronizadas de saneamento para todas as regiões do país, é preciso buscar respostas regionalizadas.

E quanto às populações indígenas? Dados da Fundação Nacional de Saúde (Funasa) mostram que as doenças mais comuns entre crianças são as infecto-parasitárias. Isso indicaria condições precárias de saneamento básico?
Quando falamos de saneamento em comunidades indígenas, há de se levar em conta a questão cultural. Por exemplo: uma amiga ambientalista foi passar um tempo em uma aldeia e viu os indígenas tomando banho e recolhendo água para uso próprio no mesmo rio em que defecam.

A Funasa está investindo muito em saúde indígena, em uma campanha para fazer banheiros nas aldeias, mas há uma grande discussão sobre a preservação da cultura indígena e seu modo de vida. Pergunta-se: a construção desses banheiros nas aldeias não estaria ferindo a cultura dos indígenas? Mas, se vivem em áreas onde as águas estão poluídas — por ação deles ou de outras comunidades, é importante que aprendam a lidar com isso, é uma interferência saudável. A saída que a Funasa tem encontrado é treinar agentes de saúde entre os próprios indígenas, para que eles possam instruir seus semelhantes sobre saneamento.

A USP recentemente apresentou um projeto feito em parceria com a Fiocruz de Manaus, que visava identificar problemas desse tipo em áreas indígenas. É por meio desse trabalho, do conhecimento da cultura e do estudo de formas de inserir técnicas de saneamento básico nessas populações com o mínimo de interferência em suas culturas, que vamos realmente fazer alguma diferença.

• Saiba mais sobre a saúde das crianças indígenas na reportagem “Como estão as crianças no Brasil?

Por que ainda se investe tão pouco em saneamento básico em nosso país, sabendo que ele é fundamental para que se tenha qualidade de vida?
Dados do Ministério das Cidades mostram que tem se empregado bastante dinheiro em saneamento no último triênio, mais de quatro bilhões de reais, mas, ainda seriam necessários mais de 178 bilhões nos próximos 20 anos para universalizar o acesso a saneamento básico.
Não acho que se invista pouco em saneamento. Agora, que estou trabalhando em maior proximidade com o Ministério das Cidades e com a Secretaria Nacional de Saneamento Ambiental, vejo que eles investem. O problema é que os recursos não são distribuídos corretamente.

Antes, tinha-se o sistema de companhias estaduais, com subsídios cruzados: de um lugar onde a taxa de água rendia muito saíam recursos para localidades cuja taxa não dava retorno. Atualmente, o Ministério das Cidades possui uma boa proposta de administração microrregional, que sugere a divisão dos Estados em áreas menores, mais fáceis de administrar.

Há muito desperdício de dinheiro e erros gritantes em questões como manutenção de redes e equipamentos, pois algumas companhias estaduais não cuidam direito disso. Há municípios pedindo recursos para a expansão de suas redes que não administram bem os que possuem, desperdiçando cerca de 50% deles. Mas, o governo está no caminho certo. O Ministério das Cidades está dando treinamento para as companhias estaduais de saneamento, instruindo-as a distribuírem melhor as verbas e a diminuírem o desperdício.

Está certo dizer que investir em saneamento é investir em saúde? Muitos governos, como o de Minas Gerais, por exemplo, usam esse argumento como justificativa por não terem atingido o investimento mínimo previsto em saúde na constituição.
Meu pai, João Carlos Simone Cynamon, criou os princípios de saneamento válidos para o Brasil em 1969. Um deles prevê que as medidas sanitárias tomadas levam certo tempo para serem respondidas. Em termos de água, quando se leva abastecimento de água potável a um lugar, rapidamente nota-se a queda da mortalidade infantil, ou seja, a incidência de doenças diminui. Já no caso de algumas verminoses, leva mais tempo para se obter essa resposta sanitária. Mesmo que se implante uma rede de tratamento de esgoto, há pessoas que tinham essas doenças antes da chegada da rede e continuam doentes e transmitindo essas enfermidades.

Foi um erro político, de estratégia, a OMS afirmar que a cada dólar investido em saneamento economiza-se quatro em saúde. Dizer que uma ação é mais importante que outra significa criar uma disputa em torno do recurso financeiro. Na verdade, a intenção de se fazer essa comparação foi boa. A regional Pan-americana de saúde da OMS afirmou que a idéia era conscientizar as pessoas sobre a importância de se investir em saneamento, mas não quis dizer que é possível diminuir o investimento em saúde pública. Haverá sempre pessoas adoecendo e é preciso ter hospitais para recebê-las.

Mas, à medida que se for investindo em saneamento, ao longo dos anos, a tendência é que menos pessoas adoeçam. O conceito de saneamento é controlar tudo que possa causar doenças, então, acredito que, pode-se dizer que investir em saneamento é investir em saúde.

Por César Munhoz
Colaboraram Alexandre Loureiro, Ederson Santos Lima, Josemara Boiko, Julio Cezar Winkler, Patricia Martinelli e Ricardo von Staa.

*****


   


         
<< voltar