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Foto: Vimo - Moacir Francisco - PortalEducacional

Enes Gonçalves é graduado em Análise de Sistemas Lineares (Engenharia Elétrica e Engenharia de Computação) e Sistemas de Controle e Automação (TSCA) — Controle de Motores Elétricos, com pós-graduação em Modelagem Dinâmica de Máquinas Elétricas. Wagner da Silva Lima é Engenheiro Elétrico formado pela Universidade Federal de Goiás, com especialização em Regulação do Setor Elétrico e Gás pela Universidade de São Paulo, mestrado em Engenharia Elétrica pela Universidade Estadual de Campinas e doutorado em Engenharia Elétrica pela Universidade de São Paulo. Ambos são professores do Núcleo de Pesquisa em Processamento de Energia e Qualidade da Universidade Federal de Goiás.

 

Energia: economizar é a solução

Pouco mais de quatro anos depois do “apagão”, escândalo energético que deixou o Brasil no escuro, o país pergunta: Como está nossa matriz energética? Corremos o risco de passar por esse sufoco novamente? Para Enes Gonçalves e Wagner da Silva Lima, professores do Núcleo de Pesquisa em Processamento de Energia e Qualidade da Universidade Federal de Goiás, o perigo existe e pode nos pegar de surpresa no próximo ano.
Como solução de longo prazo, eles vêem com bons olhos o plano do governo de reativar o programa nuclear brasileiro, construindo 10 novas usinas até 2035. “As tecnologias atuais reduziram muito o risco de acidentes. É preciso deixar de lado o preconceito contra a energia nuclear”, afirma Wagner.
Para resolver a questão emergencial, as propostas são muitas, inclusive a compra de gás liquefeito. Os professores concordam ao afirmar que, seja qual for a idéia adotada por este e pelos próximos governantes, é preciso ter consciência das limitações de todas as fontes de energia, mesmo as renováveis. De fato, o caminho é economizar.
A seguir, você lê a conversa na íntegra, na qual os estudiosos também falam sobre os combustíveis feitos com óleo vegetal e questões sociais e ambientais envolvendo a produção de energia.

Atualmente, mais de 80% da energia gerada no Brasil vem de hidrelétricas. Isso não nos torna um país suscetível demais às volatilidades de se ter apenas uma fonte?
Enes: Essa grande participação das hidrelétricas pode ser encarada positivamente. A dependência de uma única fonte cria uma certa preocupação, mas a hidrelétrica é um sistema muito firme e confiável de geração energética. A maior apreensão não está na capacidade já instalada, mas sim em relação a seu futuro. À medida que o espaço para a instalação dessas usinas próximas aos mercados consumidores for se esgotando, será preciso construí-las em locais mais distantes, o que encarecerá o processo.
Outra questão que vem se intensificando é a ambiental. Vivemos, atualmente, em um cenário diferente do da época da instalação maciça das usinas que temos hoje. As pressões ambientais para se construir uma hidrelétrica não são as mesmas das décadas de 70 e 80.

A energia gerada em hidrelétricas é uma boa alternativa: é de baixo custo e tem um impacto ambiental relativamente baixo (relativo mais à fauna e às populações que precisam se deslocar para dar lugar às instalações).

Não existe fonte de energia com impacto ambiental zero, mas, comparada às outras (carvão, óleo combustível e gás natural) a hidrelétrica é considerada de baixo impacto ambiental. Além disso, o Brasil tem grande disponibilidade de recursos para a geração desse tipo de energia, embora já esteja na hora de pensar em outras fontes.

O atual governo planeja reativar Angra 3 — que deve entrar em funcionamento em sete anos — e construir pelo menos mais 10 usinas nucleares até 2035, a maioria no Nordeste. Quais os prós e contras dessa idéia?
Enes: A energia termonuclear gera bastante polêmica, principalmente por dois pontos: o risco de acidentes e os resíduos radioativos. As tecnologias atuais fazem com que esses riscos sejam bastante reduzidos, desde que se tomem todos os cuidados e sejam feitos todos os acompanhamentos e manutenções necessários. O grande problema atual é o lixo radioativo.

Ainda assim, essa é realmente uma fonte de energia extremamente viável e interessante. Para se ter uma idéia, a França pretende desativar todas as fontes que emitem carbono na natureza e trocá-las por energia nuclear em um prazo de 10 a 20 anos. Há muito tempo eles vêm fazendo investimentos maciços no desenvolvimento de tecnologias nucleares confiáveis e de baixo custo.

Uma das grandes vantagens da usina nuclear é a liberdade de escolha de local para instalá-la, o que facilita o transporte. Alguns exemplos do passado, como Chernobyl, assustam-nos, mas, hoje, tudo isso está tecnologicamente bem resolvido.

Outro pró: é preciso pensar na geração de energia no Brasil de forma estratégica, a longo prazo. Se realmente o país pretende crescer 5% ao ano, a atual matriz energética não está preparada para esse aumento, é necessário apelar para a geração de energia termonuclear. Não se pode ter uma visão preconceituosa a respeito.

Wagner: As maiores jazidas de urânio do mundo estão no Brasil, portanto, temos a matéria-prima. O gás e o petróleo não vão durar mais de 50 anos — muito pouco tempo. Que soluções o mundo tem? Para abastecer veículos, temos os óleos vegetais, ou a extração de gás de carvão mineral, do qual ainda há muitas jazidas no mundo, que servirão por mais uns 200 anos.

Com relação às hidrelétricas, há um momento em que não há mais rios para instalá-las. No Brasil, ainda dá pra implantar o dobro de hidrelétricas, mas a resistência ambiental inviabiliza esse projeto. Precisamos mesmo voltar a investir em energia nuclear.

Atualmente, quais os meios mais eficazes de se produzir energia elétrica no Brasil, preservando e conservando o meio ambiente?
Enes: O governo tem feito investimentos interessantes em energia eólica, que é uma fonte viável. Você não pode “armazenar” o vento, portanto ela não pode ser encarada como energia de “base”, mas sim de ponta, ou seja, que pode ser associada a outras mais firmes em situações específicas.
O uso de energia solar, pelo menos no que se refere à geração de energia elétrica, ainda é limitado, pois os painéis solares fotovoltaicos são muito caros, mas utilizar esse tipo de fonte no Brasil é uma alternativa bem interessante. São os aquecedores solares em substituição aos chuveiros elétricos.

Existe uma corrente no planejamento da geração de energia elétrica chamada “arquitetura sustentável”, que tira proveito das melhores características de cada região para que se use a energia de maneira racional e eficiente. Por exemplo: é um contra-senso que em um país com tanto sol como o Brasil, ainda se usem chuveiros elétricos em vez de energia solar. Vale lembrar que, em alguns casos, o aquecimento de água pode corresponder a mais da metade do consumo energético de uma residência.

Existe alguma movimentação do governo no sentido de implantar o uso de energia solar em larga escala?
Enes: Não. Na verdade, o governo tem uma série de planos que servem como indutores de ações nas companhias energéticas. Existe uma obrigação legal da concessionária de geração de energia elétrica de investir 0,25% do seu faturamento operacional líquido na “eficientização” energética. Isso poderia incentivar a introdução de painéis solares térmicos para famílias de baixa renda, por exemplo, mas, muitas vezes, as empresas vêem essa possibilidade como perda de faturamento.

A auto-suficiência em petróleo é uma realidade ou um discurso?
Wagner: A auto-suficiência é verdadeira, o que não significa que o Brasil não precisa mais comprar nada de ninguém. Produzimos um tipo de óleo e precisamos de outros também. A quantidade necessária e a produzida são iguais, mas exportamos parte desse óleo nativo e importamos parte do óleo que não produzimos, mas do qual precisamos.

E quanto ao gás natural, quando o Brasil vai se tornar auto-suficiente nesse combustível? Qual é o seu ponto de vista em relação aos acontecimentos sobre a nacionalização dos postos de petróleo e gás natural entre o Brasil e a Bolívia? De que forma isso pode prejudicar o abastecimento brasileiro a curto e longo prazo?
Wagner: Talvez a auto-suficiência brasileira em gás natural nunca ocorra. Nossa demanda já é grande. O que temos atualmente é um gasoduto no Nordeste, que vai de Fortaleza à Bahia, outro que sai da Bacia de Campos e vai a São Paulo e o que sai da Bolívia, passa no Mato Grosso do Sul e termina em Porto Alegre.

Um dos problemas que temos é a falta de infra-estrutura, outro é a disponibilidade de fontes. O que ocorreu na Bolívia não significa que vamos ter dificuldades no fornecimento do produto, mas o preço vai ser bem mais alto do que pagamos hoje.
Mas, essa é uma exigência deles, não estão errados.

A Argentina também exportava gás para o Brasil, mas está passando por uma crise, usando todo o gás possível para abastecer as próprias termelétricas. Pode ser até que o Brasil tenha que exportar energia para a Argentina.

O governo anunciou a construção de uma infra-estrutura para 2008, mas acho que levará mais tempo, talvez saia em 2010. Além disso, está sendo feita a interligação dos gasodutos do Nordeste e do Sudeste.

O gás é utilizado em veículos, caldeiras e termelétricas e, atualmente, a demanda é por termelétricas, mas não há gás suficiente, estamos no limite. O fluxo do gasoduto Brasil—Bolívia é de 27 milhões de metros cúbicos por dia, e o máximo de produção dele é de 30 milhões.

Gastamos o que temos no reservatório ou racionamos energia. Ainda não há risco de voltarmos ao problema do apagão de 2002, porque a temporada de chuvas voltou, mas, correremos perigo no próximo ano. Por isso, os preços estão subindo tanto. De acordo com a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica, no início do ano o megawatt/hora custava 19 reais. Agora, custa 130 reais, e vai continuar aumentando.

O momento é propício para o Brasil importar gás natural liquefeito. É o jeito para abastecer o mercado brasileiro sem que passemos sufoco até 2010. Depois, com a entrada dos gasodutos novos, a situação estará estabilizada por mais 20, 30 anos, até que se achem outras reservas.

Quais as vantagens e desvantagens do uso do biodiesel e do Hbio como combustíveis? Eles têm potencial para se tornarem produtos com mercado global?
Wagner: O biodiesel é o diesel normal misturado com uma parte de óleo vegetal, e o Hbio é somente o óleo vegetal, que pode vir da mamona, da canola (como é feito na Europa e na Alemanha), do girassol, da soja, etc. Tanto o uso do Hbio quanto do biodiesel são ambientalmente muito bons, porque a emissão de carbono é menor. No caso do óleo vegetal puro, é quase inexistente.
Outra vantagem dos combustíveis de óleo vegetal é a geração de emprego: ele é excelente socialmente também. No entanto, precisamos desenvolver motores especiais, pois esse óleo gera um resíduo chamado éster, que pode danificar a máquina. O mercado global já existe, a Índia e a Alemanha, entre outros países, produzem-no.

Na verdade, isso não é novo. O inventor do motor a diesel, antes de utilizar a forma derivada de petróleo, usava óleo de amendoim. No entanto, descobriram-se muitas jazidas do óleo mineral na região arábica e o preço caiu muito, inviabilizando a opção com óleo vegetal. Isso foi esquecido isso por um tempo, mas, com o preço do petróleo aumentando, soluções como essa são valorizadas.

O controle do setor energético deve ficar nas mãos do Estado ou do setor privado?
Enes: A capacidade do investimento governamental é limitada, pois não há carga tributária suficiente para pagar por toda a infra-estrutura necessária para a geração de energia. O governo tem vários papéis: o estratégico, de indutor de investimentos; o de investidor, em parceria com a iniciativa privada, e o de regulador da relação entre consumidor e empresa, por meio de suas agências. O controle e as decisões devem ser governamentais.

Até mesmo nas economias mais liberais, como os Estados Unidos, o governo é quem dá as cartas no setor energético, por ele ser estratégico. As participações da iniciativa privada que já foram feitas no Brasil têm tido certo sucesso, mas isso, naturalmente, aumentará o custo da energia. A própria escassez do recurso vai elevar os preços. Se analisarmos países como os da Europa, onde se utiliza muito o carvão, óleo combustível e gás natural, veremos que a energia tem participação maior no orçamento das empresas. De certa forma, isso também ajuda a criar consciência da necessidade de racionamento.

Finalizando, a conclusão é: o aumento do custo de energia no Brasil é inevitável. Não há nada mais eficiente para o equilíbrio energético que pagar caro pela energia e buscar formas de economizar. Esse pensamento precisa e já está sendo assimilado pela população.

Por César Munhoz
Colaboraram Ricardo von Staa, Josemara Boiko, Ederson Santos Lima,
Julio Cezar Winkler e Sandro Ferreira.

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