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Energia: economizar é a solução
Pouco mais de quatro anos depois do “apagão”,
escândalo energético que deixou o Brasil no escuro, o país
pergunta: Como está nossa matriz energética? Corremos o risco
de passar por esse sufoco novamente? Para Enes Gonçalves e Wagner da
Silva Lima, professores do Núcleo de Pesquisa em Processamento de Energia
e Qualidade da Universidade Federal de Goiás, o perigo existe e pode
nos pegar de surpresa no próximo ano.
Como solução de longo prazo, eles vêem com bons olhos o
plano do governo de reativar o programa nuclear brasileiro, construindo 10 novas
usinas até 2035. “As tecnologias atuais reduziram muito o risco
de acidentes. É preciso deixar de lado o preconceito contra a energia
nuclear”, afirma Wagner.
Para resolver a questão emergencial, as propostas são muitas,
inclusive a compra de gás liquefeito. Os professores concordam ao afirmar
que, seja qual for a idéia adotada por este e pelos próximos governantes,
é preciso ter consciência das limitações de todas
as fontes de energia, mesmo as renováveis. De fato, o caminho é
economizar.
A seguir, você lê a conversa na íntegra, na qual os estudiosos
também falam sobre os combustíveis feitos com óleo vegetal
e questões sociais e ambientais envolvendo a produção de
energia.
Atualmente, mais de 80% da energia gerada no Brasil vem de hidrelétricas.
Isso não nos torna um país suscetível demais às
volatilidades de se ter apenas uma fonte?
Enes: Essa grande participação das hidrelétricas
pode ser encarada positivamente. A dependência de uma única fonte
cria uma certa preocupação, mas a hidrelétrica é
um sistema muito firme e confiável de geração energética.
A maior apreensão não está na capacidade já instalada,
mas sim em relação a seu futuro. À medida que o espaço
para a instalação dessas usinas próximas aos mercados consumidores
for se esgotando, será preciso construí-las em locais mais distantes,
o que encarecerá o processo.
Outra questão que vem se intensificando é a ambiental. Vivemos,
atualmente, em um cenário diferente do da época da instalação
maciça das usinas que temos hoje. As pressões ambientais para
se construir uma hidrelétrica não são as mesmas das décadas
de 70 e 80.
A energia gerada em hidrelétricas é uma boa alternativa: é
de baixo custo e tem um impacto ambiental relativamente baixo (relativo mais
à fauna e às populações que precisam se deslocar
para dar lugar às instalações).
Não existe fonte de energia com impacto ambiental zero, mas, comparada
às outras (carvão, óleo combustível e gás
natural) a hidrelétrica é considerada de baixo impacto ambiental.
Além disso, o Brasil tem grande disponibilidade de recursos para a geração
desse tipo de energia, embora já esteja na hora de pensar em outras fontes.
O atual governo planeja reativar Angra 3 — que deve entrar em funcionamento
em sete anos — e construir pelo menos mais 10 usinas nucleares até
2035, a maioria no Nordeste. Quais os prós e contras dessa idéia?
Enes: A energia termonuclear gera bastante polêmica,
principalmente por dois pontos: o risco de acidentes e os resíduos radioativos.
As tecnologias atuais fazem com que esses riscos sejam bastante reduzidos, desde
que se tomem todos os cuidados e sejam feitos todos os acompanhamentos e manutenções
necessários. O grande problema atual é o lixo radioativo.
Ainda assim, essa é realmente uma fonte de energia extremamente viável
e interessante. Para se ter uma idéia, a França pretende desativar
todas as fontes que emitem carbono na natureza e trocá-las por energia
nuclear em um prazo de 10 a 20 anos. Há muito tempo eles vêm fazendo
investimentos maciços no desenvolvimento de tecnologias nucleares confiáveis
e de baixo custo.
Uma das grandes vantagens da usina nuclear é a liberdade de escolha
de local para instalá-la, o que facilita o transporte. Alguns exemplos
do passado, como Chernobyl,
assustam-nos, mas, hoje, tudo isso está tecnologicamente bem resolvido.
Outro pró: é preciso pensar na geração de energia
no Brasil de forma estratégica, a longo prazo. Se realmente o país
pretende crescer 5% ao ano, a atual matriz energética não está
preparada para esse aumento, é necessário apelar para a geração
de energia termonuclear. Não se pode ter uma visão preconceituosa
a respeito.
Wagner: As maiores jazidas de urânio do mundo estão
no Brasil, portanto, temos a matéria-prima. O gás e o petróleo
não vão durar mais de 50 anos — muito pouco tempo. Que soluções
o mundo tem? Para abastecer veículos, temos os óleos vegetais,
ou a extração de gás de carvão mineral, do qual
ainda há muitas jazidas no mundo, que servirão por mais uns 200
anos.
Com relação às hidrelétricas, há um momento
em que não há mais rios para instalá-las. No Brasil, ainda
dá pra implantar o dobro de hidrelétricas, mas a resistência
ambiental inviabiliza esse projeto. Precisamos mesmo voltar a investir em energia
nuclear.
Atualmente, quais os meios mais eficazes de se produzir energia elétrica
no Brasil, preservando e conservando o meio ambiente?
Enes: O governo tem feito investimentos interessantes em energia
eólica, que é uma fonte viável. Você não pode
“armazenar” o vento, portanto ela não pode ser encarada como
energia de “base”, mas sim de ponta, ou seja, que pode ser associada
a outras mais firmes em situações específicas.
O uso de energia solar, pelo menos no que se refere à geração
de energia elétrica, ainda é limitado, pois os painéis
solares fotovoltaicos são muito caros, mas utilizar esse tipo de fonte
no Brasil é uma alternativa bem interessante. São os aquecedores
solares em substituição aos chuveiros elétricos.
Existe uma corrente no planejamento da geração de energia elétrica
chamada “arquitetura sustentável”, que tira proveito das
melhores características de cada região para que se use a energia
de maneira racional e eficiente. Por exemplo: é um contra-senso que em
um país com tanto sol como o Brasil, ainda se usem chuveiros elétricos
em vez de energia solar. Vale lembrar que, em alguns casos, o aquecimento de
água pode corresponder a mais da metade do consumo energético
de uma residência.
Existe alguma movimentação do governo no sentido de implantar
o uso de energia solar em larga escala?
Enes: Não. Na verdade, o governo tem uma série
de planos que servem como indutores de ações nas companhias energéticas.
Existe uma obrigação legal da concessionária de geração
de energia elétrica de investir 0,25% do seu faturamento operacional
líquido na “eficientização” energética.
Isso poderia incentivar a introdução de painéis solares
térmicos para famílias de baixa renda, por exemplo, mas, muitas
vezes, as empresas vêem essa possibilidade como perda de faturamento.
A auto-suficiência em petróleo é uma realidade ou um
discurso?
Wagner: A auto-suficiência é verdadeira, o que
não significa que o Brasil não precisa mais comprar nada de ninguém.
Produzimos um tipo de óleo e precisamos de outros também. A quantidade
necessária e a produzida são iguais, mas exportamos parte desse
óleo nativo e importamos parte do óleo que não produzimos,
mas do qual precisamos.
E quanto ao gás natural, quando o Brasil vai se tornar auto-suficiente
nesse combustível? Qual é o seu ponto de vista em relação
aos acontecimentos sobre a nacionalização dos postos de petróleo
e gás natural entre o Brasil e a Bolívia? De que forma isso pode
prejudicar o abastecimento brasileiro a curto e longo prazo?
Wagner: Talvez a auto-suficiência brasileira em gás
natural nunca ocorra. Nossa demanda já é grande. O que temos atualmente
é um gasoduto no Nordeste, que vai de Fortaleza à Bahia, outro
que sai da Bacia de Campos e vai a São Paulo e o que sai da Bolívia,
passa no Mato Grosso do Sul e termina em Porto Alegre.
Um dos problemas que temos é a falta de infra-estrutura, outro é
a disponibilidade de fontes. O que ocorreu na Bolívia não significa
que vamos ter dificuldades no fornecimento do produto, mas o preço vai
ser bem mais alto do que pagamos hoje.
Mas, essa é uma exigência deles, não estão errados.
A Argentina também exportava gás para o Brasil, mas está
passando por uma crise, usando todo o gás possível para abastecer
as próprias termelétricas. Pode ser até que o Brasil tenha
que exportar energia para a Argentina.
O governo anunciou a construção de uma infra-estrutura para 2008,
mas acho que levará mais tempo, talvez saia em 2010. Além disso,
está sendo feita a interligação dos gasodutos do Nordeste
e do Sudeste.
O gás é utilizado em veículos, caldeiras e termelétricas
e, atualmente, a demanda é por termelétricas, mas não há
gás suficiente, estamos no limite. O fluxo do gasoduto Brasil—Bolívia
é de 27 milhões de metros cúbicos por dia, e o máximo
de produção dele é de 30 milhões.
Gastamos o que temos no reservatório ou racionamos energia. Ainda não
há risco de voltarmos ao problema do apagão de 2002, porque a
temporada de chuvas voltou, mas, correremos perigo no próximo ano. Por
isso, os preços estão subindo tanto. De acordo com a Câmara
de Comercialização de Energia Elétrica, no início
do ano o megawatt/hora custava 19 reais. Agora, custa 130 reais, e vai continuar
aumentando.
O momento é propício para o Brasil importar gás natural
liquefeito. É o jeito para abastecer o mercado brasileiro sem que passemos
sufoco até 2010. Depois, com a entrada dos gasodutos novos, a situação
estará estabilizada por mais 20, 30 anos, até que se achem outras
reservas.
Quais as vantagens e desvantagens do uso do biodiesel e do Hbio como combustíveis?
Eles têm potencial para se tornarem produtos com mercado global?
Wagner: O biodiesel é o diesel normal misturado com
uma parte de óleo vegetal, e o Hbio é somente o óleo vegetal,
que pode vir da mamona, da canola (como é feito na Europa e na Alemanha),
do girassol, da soja, etc. Tanto o uso do Hbio quanto do biodiesel são
ambientalmente muito bons, porque a emissão de carbono é menor.
No caso do óleo vegetal puro, é quase inexistente.
Outra vantagem dos combustíveis de óleo vegetal é a geração
de emprego: ele é excelente socialmente também. No entanto, precisamos
desenvolver motores especiais, pois esse óleo gera um resíduo
chamado éster, que pode danificar a máquina. O mercado global
já existe, a Índia e a Alemanha, entre outros países, produzem-no.
Na verdade, isso não é novo. O inventor do motor a diesel, antes
de utilizar a forma derivada de petróleo, usava óleo de amendoim.
No entanto, descobriram-se muitas jazidas do óleo mineral na região
arábica e o preço caiu muito, inviabilizando a opção
com óleo vegetal. Isso foi esquecido isso por um tempo, mas, com o preço
do petróleo aumentando, soluções como essa são valorizadas.
O controle do setor energético deve ficar nas mãos do Estado
ou do setor privado?
Enes: A capacidade do investimento governamental é
limitada, pois não há carga tributária suficiente para
pagar por toda a infra-estrutura necessária para a geração
de energia. O governo tem vários papéis: o estratégico,
de indutor de investimentos; o de investidor, em parceria com a iniciativa privada,
e o de regulador da relação entre consumidor e empresa, por meio
de suas agências. O controle e as decisões devem ser governamentais.
Até mesmo nas economias mais liberais, como os Estados Unidos, o governo
é quem dá as cartas no setor energético, por ele ser estratégico.
As participações da iniciativa privada que já foram feitas
no Brasil têm tido certo sucesso, mas isso, naturalmente, aumentará
o custo da energia. A própria escassez do recurso vai elevar os preços.
Se analisarmos países como os da Europa, onde se utiliza muito o carvão,
óleo combustível e gás natural, veremos que a energia tem
participação maior no orçamento das empresas. De certa
forma, isso também ajuda a criar consciência da necessidade de
racionamento.
Finalizando, a conclusão é: o aumento do custo de energia no
Brasil é inevitável. Não há nada mais eficiente
para o equilíbrio energético que pagar caro pela energia e buscar
formas de economizar. Esse pensamento precisa e já está sendo
assimilado pela população.
Por César Munhoz
Colaboraram Ricardo von Staa, Josemara Boiko, Ederson Santos Lima, Julio Cezar
Winkler e Sandro Ferreira.
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