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Prazer, Verissimo
Mais de 60 livros, memoráveis incursões no jornalismo,
uma carreira premiada na publicidade, uma banda de jazz e uma vontade incontrolável
de observar o dia-a-dia e transformar suas anotações em textos
divertidos e espirituosos, que agradam desde o leitor iniciante até o
grande conhecedor de literatura. Esse é o saldo dos 70 anos (comemorados
em 25 de setembro de 2006) de Luis Fernando Verissimo, que é, provavelmente,
o escritor mais popular e um dos mais respeitados do Brasil. A verdade é
que ele é, acima de tudo, uma pessoa feliz: “tive uma infância
muito boa, pais fantásticos, consegui formar uma família formidável
e faço o que gosto, inclusive na música. Acho que soube aproveitar
a vida sim.” Contrariando a fama de tímido, ele aproveitou sua
visita à sede do portal, em Curitiba, para bater um longo e animado papo
com nossa equipe e contar um pouco da origem de toda essa felicidade e sucesso.
A impressão que fica da conversa é que ele é um homem “bem
vivido”, em todos os sentidos — tem a sabedoria típica do
homem experiente e desfruta cada minuto da vida com muito prazer.
Seu site traz informações sobre O Patentino, um jornal que
você editou quando criança. O que você teria a contar sobre
essa experiência? E o nome “Patentino”, de onde vem?
É engraçado que sempre que alguém me pergunta sobre meu
início no jornalismo, falo sobre quando já tinha 30 anos. Nunca
me lembro do Patentino, que foi realmente uma experiência com
a “imprensa”. Eu, minha irmã e meu primo tivemos a idéia
de fazer um jornal em casa, batido à máquina e preso ao lado da
privada. No Rio Grande do Sul, chama-se privada de patente. Fazíamos
comentários sobre os acontecimentos da casa e família e criticávamos
todo mundo. Era um jornal combativo, durou pouco tempo, mas foi minha primeira
experiência jornalística. Lembro de um amigo da família
que foi lá em casa, viu o Patentino, ficou maravilhado e mandou
fazer um carimbo, que virou o cabeçalho do jornal.
Eu era garoto, tinha 13 ou 14 anos. Não ficou nada daquela época
no meu trabalho atual. Eu até gostaria de rever o Patentino.
Como foi conviver com um pai escritor?
Durante muito tempo, tive dificuldade para explicar aos meus colegas e amigos
o que meu pai fazia. Naquela época, a profissão de escritor não
existia no Brasil — até hoje não existe. “O cara fica
inventando histórias? O que é isso? Deve ser um vagabundo.”
Comecei a acompanhar a literatura cedo, “vendo” os livros infantis
e, depois aprendi, lendo. O primeiro livro adulto que li foi Caminhos cruzados.
Tive que ler escondido, porque havia “cenas fortes” nele, como se
dizia na época.
Lembro de ver meu pai escrevendo O tempo e o vento quando eu tinha
uns 12 ou 13 anos. Ele trabalhava na mesa da sala de jantar e, em alguns casos,
corrigia os próprios textos. Li muitos trechos no momento em que saíram
da máquina de escrever. Fui sempre um grande leitor e admirador dele.
Foi bom conviver com ele e os amigos e viver em uma casa que tinha livros, que
eram tidos como algo muito importante.
Além da paixão pela leitura, você é apaixonado
por música, especialmente pelo jazz...
Sim, sempre gostei muito de música: americana, brasileira, mas, principalmente,
o jazz. Meu grande ídolo da adolescência foi Louis Armstrong, que
tocava trompete. Passei quatro anos nos Estados Unidos com meu pai, que foi
trabalhar na Organização dos Estados Americanos (OEA), e decidi
que, como estava na terra do Jazz, iria aproveitar para aprender a tocar algum
instrumento. Eu queria aprender trompete, o instrumento do Louis Armstrong,
só que o curso de música que eu fazia não tinha um para
me emprestar. Havia um saxofone, então foi ele mesmo. Nunca me aprofundei,
mas dá para brincar de músico, o que faço até hoje
no Jazz 6, a banda em que toco.
Ficamos nos EUA de 1953 a 1956, em Washington, mas eu ia muito a Nova Iorque,
principalmente nos feriadões. Achava um hotel barato e ficava lá,
visitando os clubes de jazz. Na verdade, eu ainda não tinha idade para
freqüentar esses lugares, mas, como já tinha cara de adulto, conseguia
entrar. Numa dessas vezes, vi Charlie Parker, o grande gênio do jazz,
e Dizzie Gilespie tocarem no Birdland. Foi uma experiência marcante que
lembro claramente até hoje, embora não soubesse muito bem o que
tinha ouvido naquela noite. Depois que comecei a gostar do jazz mais moderno
me dei conta do que havia presenciado.
Falando em viagens, como foi trabalhar com a série Traçando,
em que você retrata algumas de suas cidades favoritas?
A idéia de fazer a série foi do Joaquim da Fonseca, ilustrador
dos livros, que tinha passado uma temporada em Nova Iorque justamente na época
em que eu estive por lá. Ele havia feito um caderno de desenhos e anotações
sobre a cidade e teve a idéia de produzir um livro com esse material,
batalhando por isso durante 10 anos, até que uma editora se interessou
por ela. Na época, eu mandava textos de Nova Iorque para um jornal daqui.
Então saiu o Traçando Nova Iorque, o primeiro livro da
série. Os posteriores foram desenvolvidos de modos diferentes, por exemplo:
eu tinha textos sobre Roma, então o Joaquim foi pra lá fazer os
desenhos para o Traçando Roma. Para o Traçando Madri
fomos à Espanha e depois ao Japão, nesse caso a convite do governo
japonês. Foi um projeto que gostei muito de fazer, mas com o qual não
pretendo continuar, pelo menos por enquanto.
Quais são seus próximos planos?
Acabei de escrever um romance, parte de uma série de uma editora que
chamou três autores para fazer romances com base em comédias de
Shakespeare. Já saíram o do Jorge Furtado e o da Adriana Falcão
e o último será meu, baseado em Noite de Reis, para o
fim do ano. Ele deve se chamar A 12ª Noite.
Você é conhecido por falar pouco e ser introvertido. Como explicar
tanta desenvoltura pra escrever e ser compreendido por um público tão
diversificado?
Não sei qual é a fórmula. Pode ser um tipo de compensação:
tenho dificuldade de me expressar em uma forma e facilidade em outra. Comecei
a escrever tarde, depois dos 30 anos, mas já sabia como fazer porque
tinha lido muito. Até então, não pensava em ser escritor
ou jornalista. Normalmente escrevo textos curtos, de fácil leitura, talvez
por isso tanta gente goste. É bom saber que grande parte do meu público,
possivelmente a maioria dele, seja formada por jovens.
A velhinha de Taubaté ainda está viva?
Não (risos). Ela se desencantou tanto com a política e as revelações
de corrupção do último governo, que passou a não
acreditar em mais nada e morreu de desgosto.
A impressão que se tem é que você é uma pessoa
que sabe aproveitar a vida. Parecem ter sido 70 anos muito felizes.
Acho que sim. Apesar de ser bastante introvertido e ter essa dificuldade de
me comunicar com outras pessoas, algo que me atrapalha bastante, não
posso me queixar da vida. Tive uma infância muito boa, pais fantásticos,
consegui formar uma família formidável e faço o que gosto,
inclusive na música. Acho que sei aproveitar a vida sim. Estou chegando
aos 70 anos e, às vezes, acho que estou chegando ao fim. Mas, até
agora, foram 70 anos bem aproveitados.
Por César Munhoz
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