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Foto: Divulgação

José Wilker é ator, diretor, produtor e crítico de cinema. Participou de mais de 50 filmes e de 30 novelas e minisséries para televisão. É presidente da Riofilme desde 2003.

 

Com o cinema e pelo cinema

"O cinema ajudou a formar o caráter de países como os EUA, que, por sua vez - e também por meio do cinema -, exportaram seu caráter para o mundo inteiro." Assim, José Wilker, 59 anos e 54 filmes, exemplifica a importância da sétima arte para um país. Ele, que cresceu em Juazeiro do Norte, "onde o cinema era uma janela para o mundo", acredita na força desta e de outras modalidades culturais para a formação de um povo. Cultura e educação não podem ser dissociadas e, por conta dessa convicção, ele é um dos principais agentes da produção cinematográfica brasileira. Além de ator de sucesso, ainda é diretor, produtor, comentarista e, desde 2003, presidente da Riofilme, a maior distribuidora nacional de cinema. Em uma rápida conversa com o portal durante o lançamento de seu mais recente filme, O Maior Amor do Mundo, dirigido por Cacá Diegues, José Wilker fez uma análise da produção cultural brasileira e de sua relação com a educação e contou um pouco sobre seu início de carreira (curiosamente ligado à educação). Leia, na íntegra, a seguir.

Você é uma pessoa que não trabalha apenas "com" cinema, mas "pelo" cinema brasileiro. É ator, diretor, produtor, crítico, presidente da Riofilme, enfim: um “realizator”, como costuma brincar seu amigo Cacá Diegues. De onde vem essa paixão pela sétima arte e como ela tomou conta da sua vida?
Comecei a ver cinema quando tinha 5 ou 6 anos de idade e, desde então, não parei. Assisto a pelo menos um filme por dia. Tenho um fascínio particular por cinema. Nasci em Juazeiro do Norte, uma cidade do interior do Ceará, onde nossa janela para o mundo era o cinema. Era ele que mostrava para nossa gente a China, a África, a Europa, os EUA e até mesmo o Brasil. Quase tudo que aprendi na vida foi com o cinema. Ele sempre esteve presente na minha formação, em todos os sentidos. E me senti atraído por toda essa variedade de atividades ligadas à minha profissão desde cedo. Na verdade, comecei trabalhando com teatro, junto com um grupo de Recife cuja função primeira era ilustrar as aulas de alfabetização de adultos do método Paulo Freire, que eram dadas pelo rádio. Só que a gente também não sabia muito bem o que era teatro. A minha referência de teatro era o cantador de livros de cordel das feiras livres. Então, a gente teve que estudar e aprender a escrever, dirigir, interpretar e fazer cenários, tudo ao mesmo tempo. Durante dois anos, fiz teatro no meio da rua, no canavial, na zona da mata pernambucana, em carroceria de caminhão, em igreja, enfim, fora dos espaços tradicionais, até chegar ao palco e, depois, ao cinema. Naquela época, o teatro para mim tinha a função de atender a uma demanda política e até partidária, em alguns casos — algo que eu fui abandonando aos poucos. Hoje, por exemplo, acredito que jamais se deve submeter a própria criatividade a qualquer política partidária, sob pena de empobrecer a criação. Ou seja, não creio no “intelectual orgânico”, aquele que cumpre projetos político-partidários. É preciso ter absoluta liberdade para inventar e sair por aí duvidando de tudo.

É interessante saber que você começou sua carreira nas artes cênicas com uma atividade ligada à educação. O que mais você teria a dizer sobre a relação entre produção cultural e educação no Brasil?
Temos cerca de 58 milhões de pessoas envolvidas com educação no Brasil — é um número notável. No entanto, a tiragem de um livro é de 2.500 exemplares, ou seja, há uma separação entre o mundo da educação e o da cultura que eu acho imperdoável. Hoje, uma pessoa pode ter se formado em Medicina sem jamais ter escutado Beethoven ou Mozart e sem nunca ter tido acesso à boa pintura, lido um livro ou ido ao teatro ou ao cinema. Essa separação entre educação e cultura significa um empobrecimento enorme para a pessoa.

O Brasil dos anos 40, 50 e 60, mesmo levando-se em contas todas as mazelas vividas nessa época, com o analfabetismo em torno de 60%, ainda assim era um país que não fazia essa dissociação tão grave entre educação e cultura. Uma não sobreviverá sem a outra. Eu não acredito que um bom médico, advogado, engenheiro ou arquiteto consiga ser realmente bom nessas especialidades se do ponto de vista humano não for uma pessoa rica, ou seja, se não tiver a sensibilidade de conhecer o mundo da cultura e utilizá-lo para melhorar sua produção técnica específica.

Mais especificamente sobre o cinema, digo que ele tem tudo a ver com educação. É um instrumento de formação da maior importância. Quando a história do século XX for escrita, o cinema será uma referência. Ele ajudou a formar o caráter de países como os EUA, que, por sua vez e por meio do cinema, exportaram seu caráter para o mundo inteiro. Sugiro que você procure um filme que se chama Brother, Can You Spare a Dime? (1975), que é um documentário sobre o cinema feito nos EUA na época da depressão, após a quebra da bolsa em 1929. Esse filme mostra como, de algum modo, o cinema ensinou os americanos a conviverem com a depressão e a superarem. O cinema é uma atividade estratégica, necessária. Franklin Roosevelt imprimiu na década de 1930 a frase “Flag follows films” (“A bandeira acompanha os filmes”), isto é, aonde vai o nosso cinema, vão os nossos produtos. E, quando falava em produtos, ele não se referia apenas à Coca-Cola e ao jeans, mas também ao "american way of life", que hoje é algo que ocupa um espaço monumental no mundo. O cinema, o audiovisual contribuiu imensamente para isso.

Carlota Joaquina, Princesa do Brasil, de Carla Camurati, completa 12 anos em 2006. O lançamento desse filme ficou conhecido como o marco da tal "retomada do cinema nacional" após a era Collor. Como crítico, que análise você faz da produção brasileira desde então?

Sobre cinema e democracia
Durante muito tempo fomos muito sectários dizendo que só se devia fazer determinado tipo de filme e que outro tipo não era aceitável, não merecia atenção. Eu acho que a grande conquista moderna é a de hoje você ter coragem de dizer "Nem sempre eu estou certo". Já cheguei a achar que a história fosse um trem que avançasse em direção ao futuro inexoravelmente. A história é uma velha bêbada, que vai pra tudo quanto é lado e que de repente chega ao futuro porque tropeça, porque erra. Por outro lado, percebi que o outro tem certezas que são muito boas. E que, se eu reconheço nos outros certezas, estou aprendendo a viver em uma democracia. Essa harmonia faz parte do convívio democrático. Um presidente não se elege para governar em nome de um partido. Ele se elege com o apoio de um partido, mas para governar uma nação, e uma nação tem opiniões das mais variadas. E a gente tem que aprender que o convívio em sociedade é o convívio com as diferenças.

De lá pra cá, surgiram mais de uma centena de novos cineastas nesse país. Aprendemos a diversificar a produção e a não sermos sectários como chegamos a ser em outras épocas. Nossos filmes hoje trabalham com uma variedade enorme de temáticas, gêneros, estilos e economias. E, completados os 12 anos de Carlota Joaquina, percebo que o mais importante é que a produção tenha continuidade, permanência. Não basta que tenhamos um “surto” de produção, precisamos ter permanência. Também está claro que qualquer crescimento no cinema passa por um investimento na instalação de novas salas, ou seja, novas janelas para que ele possa chegar aos consumidores, espectadores, apaixonados, cinéfilos e assim por diante. Os governos vêm compreendendo que têm um papel importante a desempenhar nesse sentido. A economia do cinema é muito frágil. Percebemos isso quando Collor acabou com o cinema com uma penada. O cinema precisa de apoio oficial sim. Não há nenhum país do mundo onde isso não exista. Nos EUA, a capital do neoliberalismo, do capitalismo livre, a indústria de cinema é altamente protegida, a ponto de fazer com que cada presidente americano, assim que deixa a Casa Branca, seja automaticamente empossado como membro vitalício da Motion Pictures Association of America. E a sede dessa associação fica na própria Casa Branca. Outra coisa importante: hoje a gente compreende que não deve haver essa separação que foi preconceituosamente estabelecida entre cinema e televisão. Os dois se completam. A televisão só tem a crescer colaborando com o cinema, e vice-versa. Não existe cinema forte em lugar nenhum do mundo sem uma associação com as televisões. Existem no Congresso mecanismos legais (que serão aprovados, porque foram feitos por acordo de lideranças) que permitem às televisões de fato participar do mercado produtor de cinema para a tela grande, utilizando renúncia fiscal e outras formas de captação de dinheiro. Eu vejo tudo isso com otimismo, acho que finalmente percebemos que há várias alternativas e estamos trabalhando com elas sim. Penso que em médio prazo conseguiremos resultados bem satisfatórios. O cinema brasileiro vem produzindo com regularidade. Tivemos um ano excepcional, que foi 2003, no qual chegamos a ocupar mais de 25% do mercado. Depois caímos para 14%, 15%, 16%, o que não é grave. Gostaria que continuasse em torno dos 25% sim, mas nosso percentual de market share é exatamente o mesmo do mundo inteiro, com exceção da Coréia do Sul, que tem 60% do seu mercado, da França, da Índia, da China. E agora temos a Nigéria, que está criando alternativas de produção de cinema, chegando a realizar 1.200 filmes por ano. Filmes que eles vendem na rua. Esse market share de 15% é normal, o resto geralmente é ocupado pela produção de Hollywood, o que não é grave. A gente tem uma tendência a achar que tudo que vem de lá é ruim. Há filmes bons e ruins, assim como nós aqui também temos filmes bons e ruins. Enfim, sou otimista e espero que essa "retomada" do cinema, iniciada 12 anos atrás, estenda-se por um período bem maior que o dos outros surtos de cinema que tivemos no Brasil. O Cinema Novo durou pouco, assim como as chanchadas, as pornochanchadas e os círculos de Recife e de Cataguazes.

Já são três anos como presidente da Riofilme. Como é participar da produção cultural e da gestão dela ao mesmo tempo?
Sou basicamente um ator e acho que meu exercício como ator é o de olhar, ouvir, estar atento ao que está acontecendo ao meu redor, fazer uma síntese disso e reproduzir como intérprete. Fui para a Riofilme com esse espírito. Não fui inventar absolutamente nada. Ouvi o que as pessoas de cinema queriam e resolvi que aquela seria a política da Riofilme. E, para isso, montamos uma organização interna com bons departamentos administrativo, jurídico, comercial, etc. Essa é a parte executiva da Riofilme. Eu me permiti ficar com a parte estratégica, cuidando de um planejamento mais geral. Preciso de, pelo menos, duas horas por dia na Internet (quando não estou no Rio) para estar em contato com o pessoal de lá, mas acho que o segredo de administrar determinadas atividades é saber delegar poderes. Essa coisa concentradora, de "só você decide, só você faz" não é do meu temperamento.

Então, eu distribuí deveres entre cada um dos 42 funcionários da Riofilme, e a coisa está andando bem. Não sou um burocrata nem tenho nenhuma pretensão a esse tipo de coisa. E está dando certo. É lento. A burocracia é algo que entrava muito em nossos processos, mas acho que minha teimosia me leva a acreditar que posso chegar a um bom porto. E a gente tem chegado, já estamos bem avançados em alguns objetivos, como a ampliação da rede de salas, uma concentração maior na produção de longas, investimento maior no curta, criação da Rio Film Comission, o planejamento da instalação de uma cidade de cinema no Rio. As coisas estão andando bem, sim.

Por César Munhoz
Colaborou Gabriel Piovezan

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