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O terrorismo continua vivo e atuante
Uma semana após os ataques do Onze de Setembro aos EUA, Clóvis Brigagão afirmava, em entrevista à revista IstoÉ, que o momento era propício para que as grandes potências discutissem um modelo mais justo para suas políticas externas. Esse cientista político alertava, entre outras coisas, para os riscos da atitude de George W. Bush de ignorar as convenções internacionais na “guerra contra o terrorismo” que iria desencadear nos meses seguintes.
Cinco anos após o maior atentado terrorista da história, Brigagão lamenta que essa política tenha persistido e confirma as previsões que fizera para o cenário sociopolítico mundial. Os conflitos já não envolvem Estados, mas grupos não necessariamente ligados a um povo ou território. O terrorismo continua vivo e cada vez mais atuante. A política dos EUA de combate ao terror, além de não funcionar, gerou um forte sentimento antiamericano no mundo todo. “E mais: causou uma divisão no seio da comunidade internacional em simpatizantes e antipáticos aos movimentos terroristas”, completa.
Ele, que já morou em Nova Iorque — mas não voltou mais à cidade desde os ataques (“Morro de medo”, confessa) — falou ao portal sobre como o mundo mudou depois desse acontecimento. Quando perguntamos a Brigagão que países corriam menor risco de atentados atualmente, ele citou o nosso, mas logo ironizou: “Só seria preciso prestar mais atenção à nossa tríplice fronteira, mas como o Brasil ‘é um país abençoado por Deus’...”.
Quais foram as principais mudanças ocorridas no mundo nos últimos cinco anos em decorrência do Onze de Setembro?
Primeiro, o Onze de Setembro virou de cabeça para baixo a idéia de guerra “entre Estados”. Quando um grupo sem base territorial, desvinculado de um Estado, ameaça a maior potência do mundo (não de forma definitiva, mas de forma psicopolítica), configura-se outro plano de conflitos internacionais. Segundo, notou-se que, apesar de uma manifestação global de comoção e apoio à sociedade americana, o governo Bush, ao invés de investir numa política externa multilateral, adotou uma política unilateral. Terceiro: essa política unilateral de combate ao terrorismo adotada pelo governo Bush fez com que a aliança, considerada quase natural, entre o governo norte-americano e a Europa se desfizesse, gerando vários atritos. Quarto: essa guerra ao terrorismo desencadeou um ataque ao Afeganistão, contra o Talebã e a Al Qaeda — nesse caso, ainda passando pelo Conselho de Segurança da ONU. O quinto ponto, que ocorre com a invasão do Iraque, é o rompimento do equilíbrio dentro do Conselho de Segurança da ONU, quando os EUA desobedecem às resoluções da entidade e adotam essa política unilateral. Poderia acrescentar um sexto ponto importante: o sentimento no mundo de que essa “guerra contra o terrorismo”, da maneira como o governo Bush resolveu levar, principalmente em seu segundo mandato, não é a maneira mais adequada de combater as redes terroristas. Isso fez com que os EUA assumissem uma posição de antipatia internacional, quando poderiam ter adquirido uma enorme simpatia se tivessem tomado outros caminhos após o Onze de Setembro.
Se não é possível combater o terrorismo da forma como Bush propõe, qual seria o melhor caminho para atingir esse objetivo? Afinal, é mesmo possível combater o terrorismo?
É, sim, se unirmos a comunidade internacional, apoiada pelos governos, pelo direito internacional e pela polícia internacional, isolando os grupos terroristas. Essa política de Bush, ao contrário, gera uma divisão no seio da comunidade internacional em simpatizantes e antipáticos aos movimentos terroristas. Divide o mundo ocidental, divide o mundo islâmico, as ideologias, tudo. Não consagra o direito internacional como forma de combate legítimo ao terrorismo, que é uma forma ilegítima de fazer política.
Muitos analistas culpam as grandes potências por induzirem a internacionalização do terrorismo ao adotarem políticas externas unilaterais, como ocorre nos EUA, por exemplo.
Poderíamos escrever um tratado a respeito, mas isso não pode ser confundido com uma justificativa para o terrorismo. Não existe justificativa — seja de natureza filosófica, política, social, cultural, ideológica ou religiosa — para o terrorismo. Pode-se até justificar a guerra entre dois Estados ou a guerra revolucionária, etc., mas não há como justificar o seguinte: uma pessoa está sentada, lendo essa entrevista, e de repente é “detonada” por alguma razão que desconhece, sem ter a mínima idéia de quem mandou matá-la. Isso é terrorismo: seu objetivo não é o combate de forças inimigas do ponto de vista militar. É a destruição de alvos civis, que não têm nenhuma relação com a causa da guerra. Foge a uma explicação humana razoável. O terrorismo é a ausência da política. A política estabelece um diálogo, e até na guerra propriamente dita, entre Estados, existe diálogo. Há momentos em que a guerra é interrompida para se tentar resolver o assunto diplomaticamente. No terrorismo, isso não existe. E é preciso esclarecer que não há apenas o terrorismo de “grupos”, como a Al Qaeda e o Hezbollah, mas também o terrorismo de Estado, cujos agentes prefiro não nomear.
As invasões do Afeganistão e do Iraque pelos EUA logo após os atentados são até hoje duramente criticadas pela opinião pública. A primeira visava a derrubar o Talebã e a Al Qaeda e encontrar Osama Bin Laden. A outra, no Iraque, passou longe de concretizar o discurso de "democratização" do país. Afinal, como estão esses países hoje e o que será deles no futuro?
A situação no Afeganistão parece até estar razoavelmente resolvida: há um governo constitucional eleito, patrocinado pelas forças de coalizão e aceito de alguma maneira pela comunidade internacional. Mas a Al Qaeda e o Talebã continuam vivíssimos e voltam. Há batalhas, não muito noticiadas, no norte, no centro e até mesmo na capital, enfim, conflitos que mostram que a tal estabilidade defendida pelas forças de coalizão ainda não foi alcançada. E no Iraque? A cada dia há um atentado, um conflito, mortos pra lá e pra cá... Ele ainda é um barril de pólvora. É difícil dizer o que vai acontecer com esse país.
Um dos discursos de Bush era de que essa “democratização” do Iraque poderia servir como um modelo para o Oriente Médio.
Todos sabemos que não há nada melhor que a democracia para restabelecer a convergência das forças políticas do país, mas também sabemos que no Iraque há aspectos culturais e étnicos que complicam muito esse processo, e o modelo ocidental de democracia (no qual eu acredito) é difícil, complexo e envolve um investimento muito grande das próprias forças políticas. Lá no Iraque, há um caldeirão de fatores, como a ocupação de forças estrangeiras, terrorismo, etc., que fez com que essa democracia não tenha se concretizado.
Principalmente depois das ações militares norte-americanas pós-Onze de Setembro, nota-se o enfraquecimento do Conselho de Segurança da ONU. Por que isso aconteceu?
Há algumas interpretações de que o Conselho teria se fortalecido por ter sempre sido contra essa política unilateral dos EUA. Mas, na realidade, foi enfraquecido, pois, no momento em que a maior potência retirou sua participação nas negociações internacionais de segurança, esse Conselho deixou de ter a legitimidade consagrada no cenário internacional.
Ainda é possível pensar em um Conselho de Segurança nos moldes do da ONU que realmente funcione?
Ele até funciona, mas é preciso que tenha maior amplitude, ou seja, que incorpore a participação de outros países. É uma pena que a proposta feita por Brasil, Alemanha, Japão e Índia de aumentar o Conselho não tenha progredido. Essa amplitude é fundamental para que ele expresse a conjuntura internacional atual e não dê continuidade a uma conjuntura de décadas atrás.
O sistema de inteligência dos EUA sempre foi associado às idéias de alta tecnologia, desempenho impecável, infalibilidade, etc., mas muito se questiona sobre suas ações antes e depois dos atentados. Ele não conseguiu prever a força dos ataques nem preparar a população. Há dúvidas sobre suas conclusões em relação a quem são os reais culpados pelo Onze de Setembro, etc. O que explica todas essas falhas?
Todo o sistema de inteligência norte-americano é da época da Guerra Fria. Para desmontar suas concepções e adaptá-las para que funcionem em conflitos como os atuais, leva tempo, apesar de todo o arcabouço tecnológico do qual os EUA dispõem. A CIA erra muito, eu diria que em 90% dos casos, sem contar aqueles em que os erros são “varridos para baixo do pano”. O FBI já é mais efetivo em relação ao combate da criminalidade internacional, mas, ainda assim, nessa zona sombria do terrorismo, tudo fica muito mais difícil de entender e investigar.
Isso explicaria por que os EUA ainda não conseguiram “encontrar Osama Bin Laden”?
Também. A Suécia, que é um país tranqüilo, calmo, pacífico, tinha um primeiro-ministro que andava de bicicleta e podia ser encontrado nas ruas, e ele foi assassinado pelas costas na saída do cinema. Não houve serviço de inteligência ou tecnologia sueca suficiente para protegê-lo. Reagan quase foi assassinado, mesmo com toda aquela monstruosidade tecnológica dos EUA. A mesma coisa ocorreu com o Papa. Não há tecnologia que funcione contra o terrorismo. Isso depende muito mais da logística dos aparelhos de inteligência dos Estados que propriamente de agências especializadas.
De que forma os atentados mexeram com as liberdades civis dos norte-americanos?
Totalmente. Hoje, mexe-se até em conta bancaria, faz-se escuta telefônica generalizada, etc. Tudo isso já seria suficiente para que os EUA sentassem no banco do tribunal penal internacional.
Há algum território que não corra perigo ou que esteja menos exposto a atentados terroristas atualmente?
Sim, o Brasil, mas, mesmo assim, ainda há uma zona de perigo, que é a nossa tríplice fronteira, da qual não cuidamos. Mas, como o Brasil é “um país abençoado por Deus”, está temporariamente livre desses conflitos.
Esse baixo risco tem a ver com o que se chama de “posição neutra” do Brasil em relação a conflitos internacionais?
O Brasil não é um país neutro. Esteve entre os aliados na Segunda Guerra e participou da invasão da República Dominicana em 1965, ao lado dos EUA. O Brasil tem uma política de resolução de conflitos por meios pacíficos, mas não é um país neutro.
Você esteve em Nova Iorque após o Onze de Setembro?
Não, até porque morro de medo de atentado. Só daqui a muitos anos é que vou voltar pra lá. Mas sei que houve um movimento interno de aproximação da própria sociedade. Normalmente, em cidades como São Paulo e Nova Iorque, ninguém se incomoda com ninguém. Se a casa do vizinho pegou fogo, o problema é dele. Após o Onze de Setembro, houve um grande movimento voluntário de solidariedade entre as pessoas. Elas conversam mais, importam-se mais umas com as outras. É uma coisa muito positiva, que resultou dessa tragédia.
Por César Munhoz
Colaboraram Camila Souza, Josemara Boiko e Ricardo von Staa
• Veja também a entrevista que Clóvis Brigagão concedeu à revista IstoÉ em 19 de setembro de 2001.
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