|
Em vez de cadernos, laptops
Quem assiste à penúria da educação pública no Brasil pode achar chocante a idéia de que, em vez de cadernos, as crianças usem computadores portáteis. Pelo menos é esse o objetivo do programa One Laptop per Child (OLPC), do Massachusetts Institute of Technology (MIT), que pretende concluir até o final de 2006 o projeto de uma máquina de baixo custo (pouco mais de cem dólares), com acesso à Internet sem fio e energia movida a manivela, que possa ser distribuída a todos os estudantes da rede pública. O Brasil está entre um dos principais incentivadores do projeto e pode ser um dos primeiros a adotá-lo. Para David Cavallo, pesquisador do grupo de estudos sobre o Futuro da Aprendizagem do MIT e um dos porta-vozes do OLPC, é também o país que tem maior capacidade de contribuir para o desenvolvimento do projeto: “O Brasil tem gente brilhante pesquisando tecnologia e educação há nada menos que 25 anos”. Ele, que acaba de se mudar para nossas terras, conversou com a equipe do portal e explicou detalhes sobre esse projeto ambicioso.
Qual é o status do projeto atualmente?
A primeira edição de máquinas de teste já está sendo distribuída em diversos países. Ainda não fizemos acordo propriamente dito com nenhum deles. Esperamos ter o projeto fechado até o fim deste ano, para que, então, possamos conversar sobre acordos. O sistema está evoluindo, há muitas novidades em termos de software desde o início do projeto. É empolgante. Semanas atrás, durante uma conferência em Las Vegas, Barry Vercoe, um dos professores do MIT, fez uma espécie de “concerto” usando um software de criação de música e uma rede sem fio com diversos computadores: seis deles eram OLPCs. O que esperamos agora é que mais pessoas passem a desenvolver conteúdo para essas máquinas.
Durante uma palestra em um evento recente sobre tecnologia e educação, você afirmou que o Brasil é um país único em diversos aspectos, principalmente no que diz respeito a iniciativas educacionais desse tipo.
Sim. Minha opinião pessoal é de que o Brasil, talvez mais do que qualquer outro país — e incluo aí os EUA — é o que mais tem potencial para mostrar um trabalho interessante usando computadores para a educação. Claro que há muita desigualdade no país, há uma grande parcela da população que não tem acesso a recursos, mas também existe um grande número de pessoas que estão interessadas em desenvolver tecnologia. E o Brasil tem pessoas com muita experiência — nada menos que 25 anos — no trabalho com educação e tecnologia. Há pessoas excelentes, como Lea Fagundes, entre muitas outras que eu realmente admiro. Além disso, o país possui um espírito de criatividade e inovação. Não quero estereotipar, mas, em algumas partes da Ásia, as coisas funcionam “de cima para baixo”, são hierárquicas, é muito mais difícil fazer com que os projetos fujam a essa regra. E no Brasil não há isso, as pessoas apóiam novas idéias. Todos esses fatores combinados criam condições para que a gente acredite que muitos dos bons exemplos de uso dessa tecnologia acabem saindo daqui. E esperamos que essa experiência seja aproveitada no resto do mundo.
Quando os laptops chegarão ao Brasil?
O governo ainda está avaliando qual é o melhor jeito de investir nesse projeto. Não há uma decisão de nenhum dos lados ainda. Ele ainda está estudando, nós também estamos promovendo a idéia. Obviamente, espero que o Brasil participe. Ainda estamos trabalhando em coisas que precisam melhorar. Como disse, as primeiras máquinas estão circulando entre pessoas designadas para testá-las. Depois disso, vamos para dois ciclos maiores, a segunda linha de máquinas de teste, com melhorias, e a final, que será o teste de produção em escala industrial, para verificar se tudo vai dar certo. Tudo deve ocorrer até o fim deste ano. Espera-se que as primeiras máquinas comecem a chegar no início de 2007. E desejamos que os acordos com todos os países interessados ocorram mais ou menos ao mesmo tempo, de preferência até o final deste ano. De qualquer forma, acho que deve haver um trabalho prévio de infraestrutura, preparando o ambiente para a chegada das máquinas. E não basta instalar um ponto de Internet sem fio no corredor. É preciso também desenvolver conteúdo, preparar os professores. Seja o que for que os governos decidam, será a escolha deles. Acredito que mesmo que eles não façam nada disso, ainda assim vai valer a pena. Creio que todos os países — até mesmo o Brasil e os EUA —, precisam mudar seus sistemas educacionais. Nós vemos grandes ganhos em trazer a tecnologia para a educação. Não acho que seja uma questão de “adotar ou não essa idéia”. Esse é o caminho da evolução. Vai acontecer, e os países podem escolher entre participar disso cedo ou tarde.
Você conhece os atuais candidatos à Presidência do Brasil? Que posição espera deles com relação ao projeto?
Nós temos um bom apoio do governo atual, mas não é nosso papel assumir este ou aquele lado em um processo eleitoral. Por não ser um cidadão brasileiro, não acho apropriado fazer qualquer pronunciamento nesse sentido. O que importa é que, seja qual for a corrente vencedora, que ela preste muita atenção aos assuntos relacionados à educação, pois o futuro do país realmente depende disso e não apenas economicamente, mas também socialmente. O importante é que a atitude do governo em relação à educação não seja simplesmente reativa. Dada a atual crise na educação, isso não é suficiente. Infelizmente, é mais comum ver os políticos evitando propostas realmente ousadas. Eles não fogem ao que já está estabelecido, para que, se algo der errado, “não seja culpa deles”. Mas se há uma crise e você não tenta algo ousado, vai continuar na crise. Eu daria um exemplo dos EUA, sobre o qual me sinto confortável em comentar: há seis anos, quando Gore concorreu contra Bush, eles falavam muito sobre educação, mas nenhum realmente a levava a sério. Eles pegavam idéias simplistas e vinham com o discurso de que “tudo precisa ser testado”. É popular dizer que se é a favor da educação, mas não se fala em nada especifico. Eles dão respostas muito simplistas para questões complexas. Todos perdem com esse discurso. O que precisamos é de representantes que toquem nesses temas e se perguntem como é que realmente vamos melhorar o sistema educacional. Educação não é apenas um item no cartaz da campanha eleitoral. E respostas simplistas não vão resolver o problema.
Por César Munhoz
*****

|