|
“Não adianta trancar o filho em casa. É preciso conversar.”
O site da Rede Nacional de Identificação e Localização de Crianças e Adolescentes Desaparecidos — Redesap — registra um aumento explosivo dos casos de desaparecimentos de menores no Brasil. Os números de 2006 são três vezes maiores que os do ano anterior. Mas, como explica o coordenador da Rede, Alexandre Reis, essa informação vai além da má notícia: “A Rede é nova, não temos dados anteriores sólidos para comprovar que houve realmente um crescimento do número de casos. O fato é que as denúncias estão aumentando. Nossos agentes estão mais bem preparados para registrar essas ocorrências em nosso banco”.
A Rede, que existe desde 2002, consiste em um banco de dados alimentado por mais de 40 agentes em todas as regiões brasileiras, incluindo delegacias, ONGs e núcleos de estudo sobre o tema em universidades. É ligada à Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República e recebe apoio tecnológico do Ministério da Justiça — mais um canal que vem fortalecer os esforços na prevenção e solução de casos que tanto preocupam pais brasileiros. Com a Internet, a preocupação cresce, já que, entre as ocorrências de desaparecimentos envolvendo crianças e adolescentes, a maioria é de fuga espontânea. “Nossa Rede tem apenas um caso registrado de uma criança que foi induzida a fugir de casa por alguém com quem manteve contato na Net. Mas sabemos que, nos EUA, por exemplo, acontecem 500 desses por ano,” alerta Alexandre. Na opinião do especialista, não adianta superproteger: a melhor arma é o fortalecimento do diálogo em casa. “Se a criança tiver medo de falar com os pais sobre as coisas que está vivenciando, vai escondê-las, e é aí que mora o perigo.” Veja, a seguir, a íntegra da entrevista que ele concedeu ao portal.
No quadro de estatísticas do site da Rede Nacional, o número de crianças que fogem espontaneamente de casa é muito maior que o de seqüestros e até mesmo que o de raptos consensuais. O que explica isso?
Nós trabalhamos em parceria com um projeto chamado “Caminho de Volta”, da faculdade de medicina da Universidade de São Paulo, em uma pesquisa sobre causas de desaparecimento. E esse estudo tem demonstrado que a principal causa do problema é mesmo a fuga de casa — praticamente 80% dos casos.
O que provoca a fuga? Geralmente, problemas que a criança e o adolescente estão enfrentando na família. E, entre eles, o mais visível e grave é a violência doméstica. Há também problemas de relacionamento, como no caso da não-aceitação da orientação sexual do adolescente, problemas na família, etc.
Aliás, qual é a diferença entre “fuga do lar” e “rapto consensual”?
O rapto consensual é um crime previsto no código penal e consiste em um adulto seduzir um adolescente ou criança para fins sexuais. A palavra rapto tem conotação sexual. Nesse caso, a criança é induzida à fuga e dá seu consentimento. Não é forçada, é seduzida. Já a fuga está mais relacionada com uma decisão própria da criança, com menor influência de um agente externo.
Parece que o número de fugas triplicou no último ano. O que explica essa explosão?
Na verdade, não é possível dizer que os casos estejam aumentando ou diminuindo. Todas as informações quantitativas que temos são novas. A Rede ainda está em fase de implementação, e houve um aumento do registro desses casos por causa das melhorias nas condições de trabalho dos agentes operadores do cadastro. Nós estamos capacitando melhor, dando computadores, tudo para que eles alimentem o cadastro da melhor maneira possível. Isso não quer dizer necessariamente que as fugas estejam diminuindo ou aumentando.
No site da Rede há a informação de que 15% das crianças permanecem desaparecidas por “longo prazo”. O que isso significa?
Quase 80% dos casos são resolvidos nas primeiras 48 horas. À medida que o tempo vai passando, a taxa de localização obviamente diminui. A maioria das localizações é feita em 30 dias. Aproximadamente 15% ultrapassam esse período, que é o que consideramos “longo prazo”. Isso não quer dizer que esses 15% não serão mais encontrados. Essas pessoas vão aparecendo, mas a localização começa a ficar mais difícil. Geralmente, saíram do município ou foram assassinadas.
O que diferencia os casos de fuga e rapto consensual envolvendo crianças e adolescentes?
Os adolescentes fogem mais do que as crianças. As fugas estão mais relacionadas a adolescentes porque envolvem maior autonomia: achar um lugar para ficar, articular a ação com algum amigo, empreender uma viagem... Em geral, as crianças são levadas. Não que elas também não fujam, mas, estatisticamente, esse fenômeno está muito associado à adolescência. Quando falo de crianças sendo “levadas”, não me refiro apenas aos casos em que as crianças são seqüestradas à força. Há um número grande de crianças que são levadas de casa por um dos pais, sem o consentimento do outro. Isso é comum em processos de separação e também é considerado desaparecimento, porque não há localização do pai nem da criança.
Os casos de seqüestro de crianças por estanhos chegam a 5% do total ou menos. E, entre esses, há dois mais comuns: um é de mulheres que não podem ter filhos e roubam crianças de hospitais; o outro é o dos seqüestros para abuso sexual. E estes costumam ser trágicos, porque geralmente acabam em morte.
É possível identificar alguma influência da Internet na tomada de decisão de fuga e de rapto consensual?
Até hoje, em nosso banco, há um caso registrado de uma menina que saiu de casa influenciada por um contato na Internet. Mas temos dados dos EUA, por exemplo, de que há cerca de 500 desaparecimentos por ano relacionados ao uso da Internet.
O que significa isso? O Brasil já tem um número considerável de usuários da Internet, e esse número ainda vai crescer muito mais. E esse crescimento deve vir acompanhado de educação, orientação, para que não se repitam aqui os problemas que já estão sendo identificados em outros países.
O portal conversou, no início deste ano, com a delegada Marcia Tavares, do Serviço de Investigação de Crianças Desaparecidas da Polícia Civil do Estado do Paraná — Sicride. Ela comentou que, hoje, as crianças não conhecem sequer os cuidados básicos para prevenir desaparecimentos (como não aceitar carona de estranhos e ter sempre o telefone dos pais consigo). Esses eram conceitos comuns para a geração que hoje tem 20, 30 anos. Por que as crianças de hoje estão tão despreparadas?
Eu não diria apenas que as crianças estão despreparadas. O fato é que o mundo é mais perigoso hoje. A minha geração brincava na rua, não tinha essa preocupação enorme que existe atualmente com a violência urbana. Hoje, as crianças têm menos liberdade e ficam dentro de casa o dia todo.
Em alguns casos, há um descuido que chega a ser até mesmo compulsório. Não acontece por desleixo puro e simples. Em geral, a mãe (em muitos casos, são famílias monoparentais) que sai de casa para trabalhar deixa a criança com outro filho maior. É uma negligência forçada. E os pais mal têm contato com os filhos, mal conversam com eles. Essa informação precisa ser disseminada.
Então, essa “superproteção” não está sendo acompanhada por um trabalho de diálogo e informação?
Talvez. Como a criança fica muito dentro de casa, acaba não recebendo aquela orientação que era dada quando a garotada era mais livre. É como se não fosse preciso avisá-la de nenhum perigo. Os pais não dizem para a criança que ela não pode aceitar carona simplesmente porque ela não sai para a rua. E, quando ela faz isso, está mais desprotegida.
O diálogo e o bom relacionamento entre pais e filhos são a melhor prevenção. Se os pais conversam com seus filhos - e estes têm liberdade para manifestar suas dificuldades e contrariedades com relação aos pais - acabam conhecendo melhor seus filhos, suas companhias, suas atividades e o que fazem na Internet. Já se houver negligência ou, ao contrário, rigidez excessiva, a criança terá medo de falar com os pais sobre as coisas que está vivenciando e vai escondê-las, e é aí que mora o perigo.
Observar o filho enquanto ele navega é uma medida que resolve?
A experiência de navegação na Internet deve ser socializada dentro de casa. Não é recomendável que crianças e adolescentes tenham computadores em seus quartos e fiquem trancados navegando. Os pais, inclusive, devem se aproximar dos filhos enquanto eles estiverem na Internet e pedir-lhes que os ensinem a fazer as coisas que sabem. Muitos pais não têm a mesma habilidade em lidar com esse meio e as tecnologias que crianças e adolescentes possuem.
Por exemplo: se a criança acessa o Orkut, o Messenger, o bate-papo, é interessante que o pai se aproxime e pergunte como se faz para criar um perfil e enviar mensagens. É importante que o pai procure entender o que a criança está fazendo. Geralmente, quando os pais pedem às crianças que os ensinem a fazer algo, elas o fazem com boa vontade.
Sou contrário à idéia de que a criança precisa de privacidade enquanto navega. Acho que os pais devem saber para quem ela está mandando e-mail, com quem está conversando. E devem fazer isso abertamente e colocar limites claros para a criança. Ela tende a responder bem a esse tipo de postura.
Já o adolescente vai querer mais privacidade, não vai desejar compartilhar tudo. É natural que seja assim, mas é preciso que os pais também observem seu comportamento: durante quantas horas ele fica navegando na Internet durante o dia? Passa a noite conversando? Essas atividades têm de ser controladas. A Internet é como uma grande metrópole: possui muita coisa boa, mas tem suas áreas perigosas. Oferece conteúdos que podem realmente trazer danos a crianças e adolescentes. Quem vive numa metrópole tem de aprender a atravessar a rua e alguns sinais e desenvolver condutas autoprotetoras, como não trocar insultos numa sala de chat e não distribuir informações pessoais.
De que forma a Internet auxilia no processo de busca de crianças e adolescentes desaparecidos?
Eu trabalho com esse meio desde 1999. A Rede Nacional começou a ser estruturada em dezembro de 2002. Eu considero a Internet uma forma auxiliar na busca dessas crianças. Ela facilita bastante a comunicação entre os órgãos que trabalham nesse sistema, agiliza a troca de informações e é um meio de divulgação de fotografias excelente e barato. Muitas pessoas já identificaram crianças no site e nos ajudaram a solucionar casos, mas o site não é nem pretende ser o principal meio de divulgação das fotos.
Nossa expectativa é de que esse cadastro sirva como uma base para outras formas de divulgação, como televisão e imprensa. Há casos de empresas que visitam nosso site e nos ligam pedindo autorização para usar as imagens das crianças em embalagens, por exemplo. O empresário baixa a foto do site e usa. Todo dia, recebemos algum tipo de auxílio. Já tivemos as fotografias impressas em caixas de sapato, etiquetas de roupas, notas de pedágio, brindes, sacolas de supermercado, contas de luz... São centenas de exemplos.
Como funciona o processo de envelhecimento de fotos de desaparecidos?
Essa é outra grande vantagem da era dos computadores: fica mais fácil projetar a aparência dos desaparecidos quando mais velhos. Essa técnica é um misto de uso de software de edição de imagens, o Photoshop, e habilidade artística. Geralmente, quem faz isso são pessoas que trabalham com retratos falados, artistas forenses que dominam recursos de informática. Eles observam fotografias da criança e dos parentes para ter uma idéia do fenótipo da família, além de fotos dos pais na idade para a qual queremos projetar a aparência da criança. Com base nisso, desenham retratos falados.
O Distrito Federal é o local onde se faz isso com mais eficiência. Aqui, para todos os casos em que o desaparecimento ultrapassa dois anos, é feita a projeção. Em São Paulo e no Paraná, também fazem isso muito bem.
Por César Munhoz
*****

|