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Jovens cientistas
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| Maria Carolina Pellegrini projetou um semáforo adaptado para deficientes visuais. |
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Publicado em 13/04/2006
“Eu não achei que fosse capaz.” Essa frase é comum entre os estudantes finalistas da Feira Brasileira de Ciências e Engenharia — Febrace. Subestimados por um sistema de ensino que não valoriza a investigação e o método científico, eles se assustam com a qualidade e a relevância dos trabalhos que conseguem desenvolver.
A quarta edição da feira esteve mais plural que
nunca. Entre os já tradicionais projetos de engenharia, em 2006 destacou-se
também a qualidade dos estudos humanistas e sociais. Um dos mais surpreendentes
foi o “Jogo dos Sophos”, feito por Teurrá Fernandes, estudante
de Curitiba (PR). Sem precisar de máquinas ou sistemas eletrônicos,
Teurrá propôs um jogo de tabuleiro baseado na filosofia. Cada jogador
recebe uma linha de pensamento e, durante o jogo, precisa tomar decisões
com base nela. “Cheguei lá e vi aquele monte de máquinas,
e eu com um simples jogo de tabuleiro — achei que ninguém fosse
visitar meu estande”, revelou Teurrá. Simples jogo? A preparação
levou meses e exigiu de Teurrá um mergulho em 12 correntes filosóficas,
com a ajuda do professor orientador Sandro Luis Fernandes. Na parte de metodologia,
ela contou com o apoio do professor Celso Hartmann. E, para surpresa deles todos,
não só teve uma visita considerável como levou o segundo
lugar entre os projetos individuais de Ciências Humanas. “Tem gente
que foge da filosofia sem mesmo saber do que se trata. E nós pudemos
provar que ela pode se tornar interessante”, constata o professor Sandro.
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| Teurrá Fernandes e o “Jogo dos Sophos”, segundo melhor projeto individual da área de Humanas. |
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Outro estande genial, também da área de Humanas, foi o do Colégio Padre Moye, de São Paulo, que levou à Febrace a história de Santos Dumont. Inicialmente, a feira vetou a proposta dos alunos e do professor: um estande fechado até o topo e uma escada que o visitante subiria para ver tudo, literalmente, “de cima”. Mas, com certa insistência, o formato foi aprovado. A inspiração foi a famosa frase de Santos Dumont: “As coisas da vida são mais belas quando vistas de cima”. “À medida que eu estudava, descobria que Santos Dumont não foi apenas o pai da aviação, ele foi pioneiro no uso de vários materiais, além de ter sido uma pessoa muito generosa”, conta Larissa Guerra. Essas características foram cuidadosamente incorporadas ao estande. Há montagens em alumínio, bambu e seda. Um dos integrantes estava fantasiado de Dumont: conversava com os visitantes e até “incorporou” o ídolo ao dar uma entrevista para a TV. “Compensamos a falta de uma máquina com a valorização do elemento humano, com nossa criatividade e nossa presença”, conta o professor orientador, Ricardo Jacob, que comemora os cinco prêmios conquistados, entre eles, o de melhor projeto de Ciências Humanas do Brasil. O estande já tem presença confirmada no espaço Estação Ciência e na Feira da Aeronáutica no dia 23 de outubro, data em que se comemora o Centenário do Vôo do 14-Bis.
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| Rafael Sarmiento, Gabriel Senize e Lucas Giacomini, autores do projeto “Puriágua”. |
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Entre os trabalhos de engenharia, a galera continua mostrando a capacidade que tem de aprender, manipular e criar alta tecnologia. De Brasília veio “Trens de Levitação Magnética como uma Proposta para o Transporte Urbano”. Com esse projeto, os alunos do Centro Educacional Sigma fizeram história. “Todos os anos, alguém tentava emplacar esse projeto em nossa feira de ciência, mas nunca dava certo, ninguém conseguia fazer funcionar”, conta o aluno Marcus Vinicius. Pesquisando na Internet, eles descobriram o segredo, entrando em contato com uma universidade de Lisboa. Venceram a feira do colégio, conquistaram mais quatro prêmios na Febrace e já foram convidados para participar de outros eventos.
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| O “Dosador de Remédios”, projeto dos alunos Leandro Arriagada e Marcelo Gabriel. |
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Assim como o projeto dos trens, muitos outros tinham como objetivo a melhoria da qualidade de vida. O simples e eficaz “Puriágua” nasceu da imaginação de Gabriel Senize, que sofre de bronquite e convive com fumantes em casa. “O ar é sugado, passa por um conjunto de frascos com carvão ativo e água de cal e sai puro. Vou continuar desenvolvendo o projeto e quero levar para a Febrace no ano que vem”, conta ele. O “Dosador de Remédios” foi pensado por Leandro Rodrigues e Marcelo Barone como uma solução para o desperdício e a automedicação. “Os comprimidos seriam vendidos um a um, evitando que a pessoa gaste desnecessariamente com uma cartela de oito unidades, use mais do que deve e guarde em casa remédios vencidos”, dizem. Enquanto fazia “O Som da Travessia”, a estudante Maria Carolina Pellegrini descobriu muito sobre a vida do deficiente visual. Resolveu fazer um semáforo adaptado, que funciona com sensores de presença e substitui os sinais coloridos por sons. Os três projetos vêm do Colégio Dante Alighieri, de São Paulo, que mantém o Grupo de Estudos Experimentais em Tecnologia — GeeTec. “É uma oficina híbrida, trabalhamos não apenas com projetos de robótica, mas com todo tipo de projeto científico”, explica a professora coordenadora, Valdenice Cerqueira. Para ela, inserir o jovem na pesquisa científica desde cedo o ajuda não apenas na escolha de uma profissão, mas em todas as esferas da vida. “Tivemos alunos que mal faziam contato visual e transformaram-se durante o processo. Hoje, são pessoas mais seguras. Sem contar que a realização de um trabalho assim já os prepara para o nível de exigência que encontrarão na faculdade” — Valdenice se refere aos critérios para inscrição da Febrace. O principal produto desse exercício de metodologia é o Diário de Bordo, um caderno em que os alunos documentam cada passo dado na conquista de seus objetivos. Ao mesmo tempo que registra o que faz, o estudante acaba aprendendo a se expressar melhor e a refletir sobre suas decisões. “Atualmente, estamos acostumados a ter tudo muito rápido. E o diário requer que ele pare, registre e pense até mesmo em novas questões”, completa a professora.
E para que valeu todo esse esforço? Há prêmios, claro. Além daqueles oferecidos pela própria organização da Febrace, grandes empresas ofertam presentes aos vencedores. Mas, pelo que tudo indica, não é nos prêmios que esses pesquisadores mirins investem seu tempo. Do alto do pódio, com seus cinco prêmios, Larissa Guerra afirma sem hesitar: “Vale mesmo é pelo conhecimento, pelo aprendizado”.
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| No estande do projeto “O Pássaro Feito pelo Homem!”, os visitantes viam tudo de cima. Havia até um sósia de Santos Dumont. |
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» Veja a lista completa de projetos vencedores da 4.ª Febrace.
» Veja entrevista com a Prof.ª Dr.ª Roseli de Deus Lopes, organizadora da Febrace.
Por César Munhoz
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