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Foto: Divulgação

Alex Balduino de Souza é biomédico, mestre em Ciências Morfológicas, doutorando do Programa de Pós-Graduação em Ciências Morfológicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e futuro coordenador do Laboratório de Pesquisa Básica e Aplicada do Grupo de Pesquisa do Instituto Nacional de Tráumato-Ortopedia (Into), no Rio de Janeiro.

 

"Estamos ajudando pacientes a saírem da fila do transplante"

Dona Maria das Graças teve um acidente vascular cerebral (AVC) em 2004 e corria o risco de perder boa parte dos movimentos do corpo. Mas, apenas sete dias depois, já podia andar e mexer os braços.

Seu Nelson, na casa dos 70, possuía menos da metade do coração funcionando e mal tinha forças para realizar suas atividades diárias. Hoje, ele pratica exercícios físicos nas praias do Rio de Janeiro.

Essas duas histórias bem que poderiam fazer parte de um seriado de ficção científica ou, então, de uma lenda fantástica sobre alquimistas, poções mágicas e a fonte da juventude, mas é a realidade vivida por gente como o jovem cientista Alex Balduino, doutorando do Programa de Pós-Graduação em Ciências Morfológicas, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e futuro coordenador do Laboratório de Pesquisa Básica e Aplicada do Grupo de Pesquisa do Instituto Nacional de Tráumato-Ortopedia (Into), no Rio de Janeiro.

Ele é um dos pesquisadores brasileiros que se dedicam a compreender o funcionamento das células-tronco, que são como “células-coringa”, capazes de ajudar na regeneração de tecidos do corpo humano. Nesta entrevista, Alex explica em que estágio estamos hoje na pesquisa desse tipo de célula e que perspectivas essas descobertas podem trazer para o tratamento de diversas doenças.

Quais são os tipos de células-tronco conhecidos atualmente e de que forma eles podem ser utilizados?
Basicamente, as células-tronco se dividem em duas grandes categorias: as embrionárias e as adultas. Teoricamente, a “melhor” célula-tronco para tratar qualquer tecido seria a embrionária — ou célula-tronco multipotente embrionária —, porque possui potencial para formar qualquer tecido. Ela é chamada assim porque é extraída no momento em que o embrião vai começar a se desenvolver. Por fazer parte dessa “massa” de dentro do embrião que acaba gerando um indivíduo inteiro, ela teria o potencial para formar todo e qualquer tecido que você encontra em uma pessoa.

A formação de cada tecido do corpo acontece à medida que as células-tronco embrionárias vão especializando-se, isto é, as células que constituirão o fígado se tornam “células de fígado”, as que formarão o osso viram “células de osso”, e assim sucessivamente. Teoricamente, todas elas se especializariam inteiramente, e não haveria outra célula capaz de produzir mais de um tipo de tecido. Ao longo do tempo, os pesquisadores observaram que nem todas as células de um tecido se especializam por inteiro. Por exemplo: hoje se sabe que, da medula óssea, é possível isolar uma célula que seja capaz de gerar não apenas osso, mas também cartilagem e tecido adiposo. Esse fenômeno acontece com vários outros tecidos do corpo. Essas células são capazes de formar diferentes tecidos, mas, ao contrário das células-tronco embrionárias, têm uma ação limitada, ou seja, não criam qualquer um, apenas alguns. Elas se chamam células-tronco pluripotentes adultas. Apesar de serem uma fonte importante para uso em terapia, sua utilização apresenta algumas desvantagens. Entre essas desvantagens, posso citar o fato de que as células-tronco adultas de alguns tecidos ainda não foram descobertas ou descritas, e outras são de difícil obtenção. No cérebro, por exemplo, há células-tronco que são capazes de gerar novos neurônios, mas elas ficam numa região de difícil acesso, o que dificulta sua obtenção e uso.

Por volta de 2003, uma equipe de pesquisadores liderada pela Dra. Catherine Verfaillie, nos EUA, conseguiu descobrir outro tipo de célula-tronco dentro do organismo adulto que tem um potencial semelhante ao da embrionária: é o que chamamos de célula-tronco mesodermal adulta. A partir de então, começaram a surgir trabalhos que mostravam a utilização de células-tronco da medula óssea para a regeneração de sistema nervoso, fígado, pele, enfim, de vários tecidos. Esse potencial das células-tronco derivadas da medula trouxe uma nova esperança para o tratamento de vários órgãos dos quais ainda não sabemos isolar e manipular as células-tronco. Além disso, com a injeção dessas células, começou-se a observar também que novos vasos sangüíneos surgiam dentro do órgão que se estava tentando recuperar e que, com isso, era possível voltar a irrigar uma região antes danificada. Dessa forma, as células do próprio órgão eram capazes de atuar nessa regeneração, identificando uma ação indireta das células da medula injetadas no tecido danificado. Por exemplo: injetando-se essa célula-tronco no fígado, pode-se não necessariamente produzir novas células de fígado, mas novos vasos que vão revascularizar a região danificada e permitir a geração de novos “hepatócitos” (que é como são chamadas as células que formam o fígado) pelo próprio órgão. No infarto do miocárdio, ocorre um bloqueio da corrente sangüínea, e o tecido morre por falta de sangue. Em um acidente vascular cerebral (AVC), a circulação sangüínea é obstruída, e uma porção do cérebro morre porque não há sangue. Temos observado que essas células-tronco podem se diferenciar em células desses órgãos ou gerar novos vasos que permitem a regeneração deles ou, ainda, realizar as duas ações ao mesmo tempo.


E quanto às células do cordão umbilical?

Do cordão umbilical não se extraem células-tronco embrionárias. Normalmente, as células-tronco extraídas dele se encaixam na mesma categoria das adultas. Ele é utilizado somente como fonte de células hematopoiéticas (que atuam na formação do sangue) para transplante de medula, caso o indivíduo venha a precisar disso.

No cordão umbilical também existe uma categoria de células semelhante àquela descoberta por Catherine Verfaillie. Essas células estão sendo estudadas e podem ser uma promessa para o futuro. Ou seja, caso as pesquisas se confirmem, futuramente poderemos usar células-tronco do cordão em terapias de diversos órgãos e não apenas para a medula óssea.


Que tipo de resultado prático tem sido percebido nos pacientes que recebem algum tipo de tratamento com células-tronco?

Em nosso grupo de pesquisa, temos observado que eles vêm recuperando-se muito bem. Os pacientes cardíacos que estavam na fila do transplante e foram tratados com células da medula óssea, hoje não precisam mais do transplante. Os que tiveram AVC recentemente também se restabelecem muito bem. Em questão de meses, tem-se a recuperação quase total das áreas nas quais se injetam as células. E se reduz muito a probabilidade de seqüelas quando são introduzidas células-tronco no lugar da lesão. No caso de dona Maria das Graças, a região afetada pelo AVC traria seqüelas para os movimentos, mas ela já consegue andar normalmente e, agora, está apenas se tratando para recuperar totalmente a fala. Sete dias depois da injeção das células, ela já andava e mexia os braços. Há também o caso do senhor Nelson, que foi um dos primeiros pacientes com infarto do coração a ser tratado com as células da medula. Antes, ele não conseguia subir dois degraus, pois não conseguia respirar direito e sempre tinha de parar o que estava fazendo para descansar. Tinha 71 anos e 70% do coração comprometido. Ele se tratou há cerca de três anos e, hoje, trabalha e faz exercícios na praia. Pacientes com outras doenças teriam esses mesmos benefícios. O pâncreas de uma pessoa com diabete tipo 1, por exemplo, não produz insulina porque possui uma deficiência. Com as células-tronco, pode-se criar novas células da Ilhota de Langerhans, parte do pâncreas responsável pela produção de insulina. Mas nosso grupo de pesquisa ainda não trabalha com pâncreas nem do fígado. Além do coração e do sistema nervoso, trabalhamos também um pouco com pele.


Por que há tanta polêmica envolvendo o uso de células-tronco embrionárias?

Além das discussões éticas e religiosas, existe um problema técnico. Ao longo do processo de desenvolvimento do embrião que dará origem a um indivíduo, a natureza dita a cada uma das células-tronco que papel deve cumprir (ou seja, se vai se tornar uma célula do fígado, muscular, do sistema nervoso, etc.). Muitos pesquisadores conseguem reproduzir esse processo em laboratório, isolando as células-tronco embrionárias e induzindo-as, na placa de cultura, a formar um tecido especifico. Mas aí surge uma grande questão: quando se faz essa indução de diferenciação em uma placa de cultura, as células resultantes são iguais àquelas formadas durante o desenvolvimento embrionário natural? Testes feitos no cérebro de camundongos mostraram que algumas das células-tronco embrionárias injetadas podem acabar revertendo seu processo de diferenciação, isto é, “desdiferenciarem-se” e voltar a ser “células-tronco embrionárias”. E isso é um grande problema, porque, se for injetada uma célula-tronco no cérebro e ela não se tornar um neurônio, primeiro, ela não será útil e, segundo, vai se transformar em uma massa indefinida que poderá dar origem a um tumor.

Nesse aspecto, a vantagem de usar uma célula-tronco adulta é que não é preciso “guiá-la”, pois ela já passou pelo processo de desenvolvimento embrionário e “sabe” no que pode e deve se transformar. A probabilidade de ela formar tumor é muitíssimo menor que no caso de uma embrionária. Ela tem uma potencialidade limitada, ou seja, não pode ser utilizada para tudo, mas pode ser usada com mais segurança. Mas, a partir do momento que se descobrir como gerar exatamente uma célula especializada a partir de uma célula-tronco embrionária, teremos a faca e o queijo na mão.

Eu não diria que a discussão sobre as células-tronco embrionárias é apenas religiosa. Há essas questões técnicas que citei e também a questão sobre “onde começa a vida”. Isso depende do ponto de vista de cada cientista ou cidadão. Algumas pessoas dizem que, desde o zigoto (formado pela união dos gametas masculino e feminino), já se tem toda a programação da vida e, teoricamente, um indivíduo em potencial. De outro lado, existem pesquisadores que encaram o embrião como uma “maçaroca” de células que, uma vez fora da barriga da mãe, pode ser utilizada sem problemas.


Qual é a sua opinião sobre o assunto?

Honestamente, ainda não tenho uma opinião formada sobre isso. Reconheço que é uma posição um pouco “em cima do muro”, até porque o estudo e o possível uso de células-tronco embrionárias já são quase um fato. Por um lado, estamos lidando com vidas em potencial. Por outro, esses embriões podem ser utilizados em pesquisas e ajudar na criação de outras terapias. E, quando se pensa nas clínicas de fertilização in vitro, é claro que, em vez de jogar um embrião fora, é melhor doá-lo para estudos.


E a clonagem terapêutica? Como funciona e para que serve?

Com exceção dos linfócitos, todas as células do meu corpo têm o mesmo genoma — ou material genético — completo. Ou seja, possuem todas as informações necessárias para formar um indivíduo igualzinho a mim.

A clonagem terapêutica funciona assim: pega-se um ovócito (o gameta feminino) e substitui-se o material genético dele pelo de uma célula adulta do paciente a ser tratado, gerando-se um novo zigoto. Então, este se desenvolve até o estágio de blastocisto, que é quando surgem as células-tronco embrionárias, e essas células são extraídas. A vantagem da clonagem é que, nesse caso, não há rejeição das células injetadas, porque o paciente recebe células-tronco que possuem o mesmo genoma que ele.

Mas aí voltamos àquela questão: se o paciente doou o material genético para a formação daquele embrião, e foi tudo feito in vitro, teoricamente ele deve ser o dono dessas células. No entanto, se pararmos para pensar, esse embrião é um “irmão gêmeo” do paciente e uma vida em potencial. Afinal, ele é um novo indivíduo ou é um conjunto de células de propriedade do paciente?


Por que a terapia com células-tronco, no estágio em que se encontra atualmente, não serve para pessoas com doenças genéticas?

Se uma pessoa tiver um problema genético no osso e forem usadas suas células-tronco adultas, que possuem a informação genética dela, o problema não será resolvido. Fazer a clonagem terapêutica não vai adiantar pela mesma razão. A não ser que ela tivesse um problema pontual, como, por exemplo, se uma de suas células sofreu mutação (o que não deixa de ser um problema genético). Alguns tipos de câncer surgem assim: uma célula sofre mutação genética e se descontrola. Nesse caso, isola-se o tumor e trata-se o defeito com as células-tronco adultas ou embrionárias clonadas normais, mas isso não pode ser feito quando o defeito genético é generalizado, isto é, atinge todas as células.


Atualmente, quais são os países mais avançados na pesquisa com células-tronco e qual é a posição do Brasil nesse contexto?

Isso depende do tipo de célula estudado. Na Itália, as pesquisas com células-tronco mesenquimais e a utilização destas em terapias de osso e cartilagem estão muito avançadas. O Brasil é pioneiro nos estudos de coração e está no mesmo nível da Inglaterra em relação ao uso de células-tronco adultas da pele. Os EUA têm grandes grupos espalhados pesquisando vários tipos de células-tronco, principalmente as do sistema nervoso. É um país avançado também nos estudos básicos de células-tronco da pele e do intestino. Já no Brasil, desenvolvemos mais a parte clínica da utilização dessas células. Sobre o uso das embrionárias, ainda não temos um pólo definido. Pensávamos que a Coréia estava à frente, até com a clonagem, mas descobrimos que os dados desse país eram falsos. A Inglaterra possui algumas pesquisas sobre células-tronco embrionárias e parece ser pioneira no estudo da clonagem terapêutica.

Todos as nações que até hoje se mostraram capazes de pesquisar essas células têm alguma regulamentação, seja concedendo incentivos ou criando impedimentos. Nos EUA, por exemplo, não é permitido empregar dinheiro público para estudar células-tronco embrionárias. No Brasil, pode-se usar os embriões das clínicas de fertilização in vitro, mas somente quando estão congelados há três anos. Nós, brasileiros, também não podemos realizar nenhum tipo de trabalho gênico em células-tronco embrionárias, mas apenas estudá-las na íntegra. E a clonagem é proibida no Brasil.


Quais são os principais obstáculos enfrentados pelos pesquisadores de células-tronco em nosso país atualmente?

Os mesmos enfrentados por todos os pesquisadores, e o principal é a falta de financiamento. A maioria dos produtos que utilizamos é importada, ou seja, muito cara. E o investimento é pouco. Eu faço parte de um grupo grande, que conta com uma boa ajuda, mas a maioria dos cientistas não.

Os cientistas brasileiros são realmente bons. Quando vão para o exterior, conversam no mesmo nível dos norte-americanos e europeus. Mas, nos EUA e na Europa, eles têm muito mais financiamento que a gente. Podem comprar mais e melhores equipamentos e produtos, e isso acelera o processo. Então, o que fazemos em um ano, eles realizam em três meses, apesar de termos o mesmo nível de conhecimento.

Nós, no Brasil, podemos receber verbas tanto do governo quanto da iniciativa privada. Cheguei a ler pesquisas de cerca de três anos atrás em que se fazia uma comparação de investimentos no Brasil e EUA. Foi um pouco depois que o presidente Bush proibiu o financiamento federal de estudos com células-tronco embrionárias. Nos EUA, 90% do dinheiro aplicado em estudos com células-tronco vem da iniciativa privada. No Brasil, é exatamente o contrário. Não sei se esse percentual mudou, mas esse é o dado mais atual que tenho.


Que desdobramentos da terapia com células-tronco você imagina que ocorrerão no futuro?

Está sendo estudada — algo para daqui a uns 20 anos — uma associação da utilização das células-tronco com a terapia gênica. Isolam-se as células-tronco adultas do paciente que tenha um defeito genético generalizado, remove-se o gene problemático, substitui-se por um normal e implanta-se o material no paciente para tentar recuperar o órgão danificado. Além disso, penso que no futuro também será possível criar tecidos in vitro com mais eficiência, o que seria a tal “bioengenharia tecidual”, isto é, conseguir gerar, em laboratório, na placa de cultura, tecidos iguais aos produzidos in vivo (aqueles gerados naturalmente, durante o desenvolvimento do indivíduo). Talvez possamos criar órgãos ou pedaços deles em laboratório. Assim, em vez de injetarmos as células no paciente e deixar que elas se organizem e regenerem o tecido, geraríamos o tecido in vitro e o implantaríamos “pronto” no indivíduo.

Por César Munhoz

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