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Alberto Fraga é
deputado federal (PFL-DF), bacharel em Segurança
Pública pela Academia de Polícia
Militar de Minas Gerais e coronel aposentado da
Polícia Militar. Preside a Frente Parlamentar
pelo Direito à Legítima Defesa,
a Frente Parlamentar em Defesa da Segurança
Pública e o Comitê Suprapartidário
Pró-Legítima Defesa no Distrito
Federal. |
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Desarmem o bandido antes
O deputado federal Alberto Fraga (PFL-DF) quer uma sociedade desarmada, mas
vai votar em “não” no referendo de 23 de outubro, que vai
consultar a população sobre a proibição do comércio
de armas e munições no Brasil. Ele é o presidente da
Frente Parlamentar pelo Direito à Legítima Defesa.
“Dediquei 25 anos da minha vida à segurança pública.
Fui policial militar e sempre tive arma em casa. Nunca houve um incidente.
Meus filhos nunca pegaram em arma”, conta. É assim que ele descreve
o que chama de “cidadãos de bem”: pessoas que não
têm a intenção de cometer crimes, mas que, por não
confiarem na eficiência da segurança pública, possuem
armas em casa para autodefesa.
“O cidadão que compra uma arma legalmente faz isso com o único
objetivo de proteger sua propriedade e sua família. Quem quer cometer
um crime compra armas com facilidade nas chamadas feiras do rolo. Em qualquer
lugar do país, é muito fácil adquirir uma arma de forma
ilegal, até mesmo de policiais”, diz.
Na opinião dele, a proibição do comércio de produtos
bélicos no Brasil, caso aprovada pela população, será
“um tiro no pé”, pois, além de não resolver
o problema da violência, pode estimular o mercado negro de armas e deixar
os cidadãos indefesos contra os criminosos. Com base nessa idéia,
ele propõe que, antes do desarmamento da população, o
governo tome medidas que resolvam os problemas sociais do país, que,
segundo ele, são as reais causas da violência.
“Tive um irmão assassinado por dois bandidos que portavam uma
arma de fogo ilegal. Portanto, eu teria motivo suficiente para ser a favor
do desarmamento, se eu acreditasse nele. É claro que eu quero uma sociedade
desarmada, mas não antes de ver os bandidos desarmados”, opina.
Leia, a seguir, essa e outras idéias de Fraga, na íntegra.
Por que você é contra a proibição da venda
de armas e munições no Brasil?
O Estatuto do Desarmamento, em vigor, já restringe o comércio
de armas e munições, e as restrições são
mais que suficientes. Mas, com o estatuto, o governo não conseguiu
conter o comércio ilegal. As armas filmadas pela dona Vitória
no Rio de Janeiro, como metralhadoras AR-15 e pistolas 9 mm, não são
vendidas em lojas. Das armas envolvidas em crimes de segurança pública,
87% são ilegais. Portanto, não faz sentido achar que, além
de restringir ao máximo, pode-se retirar o direito do cidadão
de escolher pela autodefesa. Isso mostra um total desconhecimento do governo
com relação às políticas de segurança pública.
Eu sou contra o objeto do referendo, entre outras razões, por causa
da quantidade de armas comercializadas no Brasil. Para se ter uma idéia,
em 2004 foram vendidas para o mercado doméstico 1.044 armas. Em 2005,
apenas 352. Esses são dados fornecidos pelas fábricas de armas
e munições. Só não fazem parte desses números
as armas vendidas para a Polícia, o Exército e as empresas de
segurança.
Não é razoável o governo gastar tanto com esse referendo
para proibir que mil armas sejam vendidas. Esse dinheiro deveria estar sendo
investido em condições de trabalho para a polícia, para
que ela possa retirar das ruas as verdadeiras armas que matam, que são
as ilegais.
O que nós vamos votar é a retirada de um direito do cidadão:
o de se defender. Aquelas pessoas que se sentem seguras no Brasil não
precisam comprar uma arma e vão continuar assim. Mas para que tirar
o direito de alguém que mora em uma fazenda ou chácara afastada
da cidade e quer uma arma para defender sua propriedade e sua família?
Isso não é correto nem democrático.
E há uma questão mais grave ainda: se o referendo for aprovado,
as pessoas que possuem armas e não quiserem devolver não terão
mais onde comprar a munição. Ou seja, o referendo também
mexe com outro direito: o de propriedade.
O que o senhor tem a dizer sobre os principais argumentos da Frente Brasil
sem Armas?
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Menos armas, menos crimes: dados do Ministério
da Saúde/Datasus mostram que a destruição de 400 mil
armas entregues pela população ajudou a poupar a vida de 3
mil pessoas em 2004, em comparação com 2003.
O SUS não tem competência nem conhecimento técnico
suficiente para fazer uma afirmação dessas. Um médico,
ao atender uma pessoa baleada, simplesmente escreve no relatório
“pessoa baleada”, sem saber se o tiro foi disparado por um bandido
ou um policial, por exemplo.
Para ser confiável, essa informação deveria ter saído
das secretarias estaduais de segurança pública ou até
mesmo do próprio Ministério da Justiça, por meio da
Secretaria Nacional de Segurança Pública.
Encaminhei dois requerimentos de informação para o Ministro
da Justiça solicitando dados estatísticos sobre criminalidade,
e a resposta que obtive é a de que o ministério não
possui esses dados. Então, como essas pessoas podem ir à imprensa
e afirmar que a criminalidade está diminuindo? Em que se baseiam
para dizer isso?
Outra fonte usada pelos desarmamentistas é a Unesco, que, pelo que
sei, não tem especialização em segurança pública.
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Armas em casa podem desencadear mortes durante
brigas ou acidentes domésticos.
Isso pode acontecer usando uma arma, evidentemente, mas também utilizando
facas, pedaços de pau, tijolos... Os pais da Suzane Richthofen foram
assassinados com uma barra de ferro. Por outro lado, o estudante de medicina
que descarregou uma metralhadora em um shopping de São Paulo não
comprou sua arma em uma loja.
De acordo com dados publicados recentemente na revista Veja, em 3,5% das
casas brasileiras existem armas de fogo e, para cada 100 mil habitantes,
há 27 assassinatos. Na Suíça, 35% das residências
estão “armadas”; no entanto, ocorre apenas um assassinato
para cada 100 mil habitantes. Indo mais longe, posso dizer que em 52% dos
lares americanos existem armas, e a proporção de homicídios
é de seis para cada 100 mil habitantes (segundo dados da ONU).
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A arma comprada legalmente pelo cidadão,
na maioria das vezes, acaba parando nas mãos de foras-da-lei.
É claro que pode ocorrer de você ter a casa assaltada e o bandido
levar sua arma. Mas dizer que isso é regra é mentira. Além
disso, a primeira providência que o bandido toma ao roubar uma arma
é retirar o número de identificação dela. Desse
modo, como se pode afirmar que uma arma apreendida das mãos de um
criminoso foi roubada da casa de um cidadão?
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Em caso de assalto a mão armada, quem reage
usando arma de fogo corre mais risco de morrer.
E quem consegue reagir tendo uma arma apontada à cabeça? Reagiu,
morreu. Os desarmamentistas dizem que, em 15 situações desse
tipo, 14 culminaram em morte. Eu diria que todas terminam dessa forma. Entretanto,
tenho recebido vários e-mails de pessoas que conseguiram se antecipar
à ação do bandido e deram tiros para o alto. Mas as
pessoas que escaparam de assaltos dessa forma não fazem registro
na delegacia, pois o estatuto prevê que, se você der um tiro
para o alto, comete um crime inafiançável. Por isso, não
temos estatísticas para provar esse argumento.
O senhor afirma em diversos artigos e entrevistas que, em países onde
houve a proibição do comércio de armas de fogo, a criminalidade
aumentou. Que exemplo pode citar?
A Inglaterra, por exemplo. Em 1997, o governo proibiu a venda de armas de
fogo para civis e, desde então, conseguiu ultrapassar os EUA em ocorrência
de crimes. Os arrombamentos totalizaram 1.550 casos por 100 mil habitantes,
contra 740 nos EUA. É por isso que o serviço jurídico
da Coroa inglesa acabou de autorizar novamente aos cidadãos ingleses
o uso de armas de fogo para legítima defesa.
Se o desarmamento não pode resolver o problema da violência
no país, o que realmente ajudaria nesse sentido?
A criminalidade é uma questão social. O governo deve investir
em educação, emprego, saúde, lazer e segurança
para o povo brasileiro. Só assim a criminalidade diminui. O investimento
do governo atual em segurança pública é de sete centavos
por pessoa. O referendo vai custar 564 milhões de reais (3,03 por pessoa),
de acordo com o relatório da Coordenação de Planejamento
e Orçamento do TSE — não são 200 milhões,
como está sendo divulgado.
Qual é a participação dos fabricantes de armas e
munição na economia brasileira atualmente? De que forma a vitória
do “sim” no referendo afetaria esse tipo de indústria no
Brasil?
Não tenho esses dados. O que sei é que, só da empresa
Taurus, o governo arrecada por ano R$ 40 milhões em impostos e outros
R$ 70 milhões com exportações.
O estatuto proíbe também a fabricação, importação
e comércio de armas de brinquedo. O que o senhor tem a dizer a esse
respeito?
Acho uma bobagem, uma hipocrisia. Cabe à família instruir
a criança sobre o fato de que matar e roubar é nocivo. Se formos
proibir uma criança de brincar com uma arma de brinquedo, precisamos
também proibir os filmes que passam na televisão, porque é
deles que elas retiram a fantasia do crime.
Em sua opinião, há pontos positivos no Estatuto do Desarmamento?
Quais?
O estatuto prevê a criação de um banco de dados balístico,
uma idéia que eu mesmo propus, em 1999, no primeiro relatório
feito sobre desarmamento no país. O objetivo é justamente criar
“impressões digitais” para as armas. Funciona assim: antes
de sair da fábrica, a arma é disparada uma vez. A cápsula
da munição usada nesse disparo é remetida para a polícia
e guardada em um arquivo. Se, no futuro, essa arma for roubada ou contrabandeada
e usada em algum crime, será possível rastrear o caminho que
ela traçou até chegar ao bandido.
Fora isso, posso destacar no estatuto os requisitos para a posse de arma,
que são bem restritivos, e a criminalização em algumas
situações, mas é só.
Um ponto que me preocupa especialmente é a situação
de quem mora no campo, que, sem armas, ficará sem um meio de proteção
eficiente, que não será fornecido nem pelo governo nem por si
próprio. Mesmo que não pareça, a proibição
do uso de armas de fogo no campo, de acordo com o estatuto, é total.
Está previsto somente o porte de arma para caçadores. Mas como
o cidadão comum, que tem arma registrada, vai comprar munição
para se proteger se não haverá mais comércio?
Qual é a estratégia da frente do “não”
para a propaganda eleitoral gratuita?
Como não temos o apoio de artistas, vamos usar a propaganda para esclarecer
a população com relação ao assunto e defender
nossos argumentos. Respeito muito o talento de Fernanda Montenegro, Roberto
Carlos e Pelé, que fazem propaganda a favor do desarmamento, mas eles
não são especialistas em segurança pública. E
desafio-os a abrir mão de seus carros blindados e seguranças
armados. Se fizerem isso, posso ser convencido por eles. As vítimas
da violência serão os “artistas” da nossa propaganda.
“O referendo é um instrumento democrático. A posse
de armas pela população como forma de defesa pessoal é
uma solução individual na qual só quem pode pagar pela
segurança está protegido. Essa não é a solução
de uma república democrática, que deve ter uma polícia
eficiente e que proteja a todos."
Essa declaração é de Antonio Rangel, coordenador do Projeto
de Controle de Armas, do movimento Viva Rio. O que o senhor teria a dizer
sobre ela?
Concordo com o argumento de que a consulta popular é um instrumento
democrático e que deve ser realizado com mais freqüência,
mas há assuntos muito mais relevantes que esse. Deveríamos ser
consultados, por exemplo, sobre o fim da impunidade do menor, a pena de morte
e o aborto. Gastar tanto dinheiro para perguntar sobre o fim do comércio
de armas não é democrático. É burrice.
Por César Munhoz
Colaborou Priscila Pugsley Grahl
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