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Isabel Cristina Hierro Parolin é pedagoga, especialista em Psicodrama Pedagógico e Psicopedagogia, mestre em Psicologia da Educação pela PUC/SP e psicopedagoga credenciada pela ABPp. É conselheira nata da Associação Brasileira de Psicopedagogia — Paraná Sul e autora de artigos em livros, revistas, jornais e sites de temas relacionados a aprendizagem e educação. Escreveu Pais Educadores: É Proibido Proibir? (Porto Alegre: Mediação, 2003) e Professores Formadores: a Relação entre a Família, a Escola e a Aprendizagem (Curitiba: Positivo, 2005).

 
Leia também a entrevista com
Maria Irene Maluf
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O mundo está hiperativo

Para a psicopedagoga Isabel Parolin, as pessoas estão olhando para as crianças de forma muito desatenta e esse é o maior problema enfrentado pela sociedade atual: “Nós vivemos em uma sociedade hiperativa, então acabamos gerando comportamentos hiperativos”.

Isabel afirma que o mais importante é olhar de modo mais atento para as crianças para perceber como elas são e suas necessidades. Pais, escola, médicos e terapeutas devem “perder” um pouco mais de tempo com elas para obterem um diagnóstico correto. E, aí sim, em conjunto, podem construir uma avaliação e, com base nela, agir da melhor maneira para fazer essas crianças aprenderem a trabalhar e a conviver com seu modo de ser.

Em entrevista ao portal, a psicopedagoga explica que a correria do mundo moderno nos deixa desatentos a crianças com o transtorno do déficit de atenção e hiperatividade, o que pode prejudicar um tratamento adequado.

O que é TDAH?
Essa sigla significa transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (é importante ressaltar a presença da hiperatividade). Nas escolas, o que tem chamado mais atenção é a hiperatividade, que influi diretamente nas atitudes da criança, e é o comportamento inadequado que acaba atrapalhando mais. Já o déficit de atenção acaba ficando em segundo plano, interferindo na produção da criança e na qualidade da aprendizagem.

Como é possível identificar esse transtorno?
Isso pode ser feito observando-se uma série de fatores. Por exemplo: a criança é mais agitada ou falante que o normal; ela pode ficar horas “no mundo da lua”; tem uma tendência à dispersão; é mais desatenta; e tem mais dificuldade de assimilação. A dificuldade para identificá-lo está em definir o que é o normal. A criança que tem o transtorno é aquela que parece ter “uma pilha que não acaba”, que “faz hiperfoco” ou se dispersa em múltiplos focos. É uma criança que dizem ser inteligente para algumas coisas e, no entanto, não consegue aprender outras. Ela deixa os adultos em torno dela confusos em relação ao seu comportamento.


E, na escola, como os professores podem identificar o transtorno?
Geralmente, pela dificuldade que a criança tem para aprender. O déficit de atenção provoca um certo bloqueio de memória mesmo: ela até aprende, mas não se lembra das informações quando é preciso. Além disso, não consegue permanecer sentada, está sempre se mexendo e comumente é desorganizada. É importante que os professores percebam que essa criança tem necessidade de se movimentar, de fazer “descargas motoras”. Complementando, é uma criança que tem dificuldade de prestar atenção e controlar suas emoções, que não pensa antes de agir e assume riscos desnecessários. Mas é preciso lembrar que essas características devem aparecer antes dos 7 anos e serem constantes e mais acentuadas que em uma criança “espoleta”, por exemplo.

A partir de que idade já é possível perceber esses sintomas?
Não existe uma idade certa; eles vão aparecendo, e os familiares vão percebendo que a criança não dorme direito, é superagitada, derruba tudo e não presta atenção quando falam com ela. Aproximadamente aos 6 anos, quando entra na escola, a professora percebe essa agitação, pois é um aluno que fala excessivamente, começa a fazer uma coisa e não termina, não aceita limites e parece não ouvir o que ela diz. Isso tudo ajuda a fazer o diagnóstico por volta dos 7 ou 8 anos, até porque nessa idade a criança já teria condições de ser menos impulsiva, controlar mais suas emoções e lidar melhor com frustrações.

É preciso haver uma predisposição para que se desenvolva o transtorno?
De acordo com a literatura especializada, deve existir uma propensão genética, uma tendência. Percebe-se que, na família em que um dos pais apresenta o transtorno, muitas vezes o filho também o tem, mas isso ainda não é comprovado.

E a influência do meio pode fazer com que a criança desenvolva o transtorno?
Sem dúvida. Vivemos em uma sociedade hiperativa. Hoje, as crianças ficam muito tempo em frente à televisão — segundo pesquisas, o período médio é de quatro horas — e, com isso, ficam passivas. Mas os filmes vistos tanto por adolescentes quanto por crianças são extremamente violentos, cheios de raios, trovões, etc., com pouco diálogo e interação e muito movimento. Quando a criança chega à escola, encontra uma pessoa real, o oposto daquilo. Ela deixa de ser espectadora para ser participante, mas não está preparada para essas relações. Então, ela quer extravasar toda energia que guardou e tenta reproduzir o que viu durante aquelas quatro horas em que ficou em frente à TV. Além disso, os adultos estão extremamente apressados e estressados. A própria sociedade é hiperativa, geramos comportamentos hiperativos e, para contornar essa situação, acabamos querendo resolver isso com medicamentos. A verdade é que nossa sociedade precisa ter um olhar mais atento a essa situação. Até mesmo o olhar para o TDAH está sendo hiperativo, ou seja, as pessoas que olham para as crianças com o transtorno não têm tempo de fazer um diagnóstico dessa situação. Por exemplo: eu participei de um evento em que uma neurologista me disse que tinha uma proposta de diagnóstico que englobava a professora dessa criança, a orientadora, os pais e o psicólogo ou psicopedagogo. E ela tocou em um ponto muito importante ao fazer a seguinte pergunta: como fazer um diagnóstico assim, completo, se temos apenas 15 minutos para isso? E acho que isso realmente é um problema. No sistema público de saúde, os convênios oferecem um atendimento de 15 minutos, e os profissionais acabam fazendo o diagnóstico nesse período. Existem muitas crianças portadoras do transtorno que não recebem a atenção devida porque não têm ninguém que tenha tempo para isso. Essas crianças acabam crescendo longe do olhar de seus pais, e precisam de atenção e afeto para sobreviver. Quando não recebem isso, agem de forma a chamar a atenção.

As crianças que desenvolveram o TDAH podem se curar?
O transtorno vai acompanhar essa pessoa, fazer parte de seu funcionamento. O papel da psicopedagogia nessa situação é orientar pais e escola e trabalhar com a criança para que ela aprenda a lidar com essa situação, pois ela é desse jeito e precisa aprender como viver normalmente, ir bem na escola, realizar suas tarefas e se relacionar.

Como os pais podem ajudar?
Principalmente sendo muito objetivos com a criança. Por exemplo: devem distribuir as tarefas uma a uma, dar limites, ajudar a criança a se enxergar e se perceber e oferecer suporte para que ela possa se organizar. O principal é que eles estejam atentos para que possam atuar adequadamente. Não é preciso muito conhecimento para saber o que uma criança precisa se prestarmos atenção no comportamento dela. Um olhar mais cuidadoso revela se ela necessita de mais limites, orientação, conselhos, brinquedos, exercício, estudo, tarefas, passeios, beijos, abraços ou de menos televisão.

Como é possível diferenciar uma criança ativa de uma hiperativa?
Somente por meio do diagnóstico, que deve ser um processo conjunto entre neurologista, escola, pais e psicólogo ou psicopedagogo. Cada profissional tem um olhar para a criança, de acordo com sua área. A tarefa é juntar esses olhares, construir uma avaliação e, com base nela, fazer a intervenção. O que tenho visto é o diagnóstico ser considerado o fim, ou seja, tudo se acaba com ele, quando a criança recebe um rótulo (TDAH). Entretanto, a partir do diagnóstico de todos os envolvidos com a criança, estes devem conversar para construir uma avaliação e um prognóstico e, aí sim, responder à pergunta: Como vamos ajudar essa criança a se comportar e aprender melhor? Eu vejo muitos casos em que a família comunica à escola que a criança foi a um neurologista, psicólogo ou psicopedagogo, que disse que a criança tem TDAH e, a partir daí, encerra-se a tarefa. Mas isso é um erro, pois nessa etapa o trabalho está apenas começando. A avaliação e a reunião dos diferentes diagnósticos só pode ter um sentido: propiciar uma vida com mais qualidade para essa criança.

Qual é o melhor tratamento?
Isso deve ser definido na reunião de todos os envolvidos (neurologista, escola, pais, psicopedagogo ou psicólogo) com essa criança. Cada um vai expor seu ponto de vista para depois, em conjunto, decidir sobre a melhor opção. É preciso haver atenção a cada caso e não padronizar. Algumas crianças se beneficiam com medicamentos; outras, não. Existem crianças que podem esperar; outras, não. Há pais que não admitem que seja usado medicamento e oferecem outros recursos para substituir esse estímulo (pois ele não deixa de ser um estímulo); outros, não. E, ainda, para algumas crianças, apenas orientação basta; enquanto para outras, não.

Que terapias podem ser usadas?
Massagens terapêuticas e sessões de psicomotricidade para descarregar a agressividade da criança podem trazer sucesso. Minha grande preocupação é com essa profusão de crianças sendo medicadas e de pais sossegados porque seus filhos não incomodam mais.

O uso de medicamentos causa dependência?
A literatura diz que não. No entanto, eu costumo prestar atenção em cada alimento que meu filho ingere. Quando fico sabendo que morango tem muito agrotóxico, não compro. Da mesma forma, sinto receio quando se trata da ingestão de remédios com tarja preta.

Por que não é recomendado o uso de medicamentos nos fins de semana?
O uso de remédio deve ser feito de acordo com as recomendações do médico. Se ele recomendou usar apenar em dias de aula, assim deve ser feito. É muito sério quando os pais medicam a criança para que não incomode. É preciso entender que o incômodo que ela sente se deve ao fato de que não está sabendo direcionar sua vida, seus gestos e suas brincadeiras.

Em que casos o uso de medicamentos é adequado?
A decisão de dar remédios deve ser tomada em conjunto, com a família, neurologista, terapeutas e escola, para que a criança não seja medicada em 15 minutos. Vou relatar uma história interessante que ilustra isso: um pai me contou que levou seu filho a um neurologista, e este pediu à criança que lesse um texto e andasse sobre uma linha e, depois, fez a ela duas ou três perguntas sobre matemática. Então, disse que a criança tinha TDAH, estava na escola errada, receitou-lhe ritalina e aconselhou a tirá-la da escola. Esse pai me procurou porque estava perdido, sem entender o que tinha acontecido. Por isso o trabalho conjunto entre os envolvidos com a criança é muito importante, para que o diagnóstico seja correto. Como o neurologista pode dizer que a escola era a errada? Que autoridade tinha no assunto? É a mesma que eu tenho para receitar um medicamento. Deve-se construir em conjunto o diagnóstico. Acho que precisamos tomar mais cuidado com o outro e com o lugar que ocupamos na sociedade. O compromisso de todos os adultos que estão avaliando é crucial para o sucesso no tratamento, com medicamento ou não.

Que orientação você dá para os professores lidarem de forma adequada com os alunos portadores de TDAH?
Pedir orientação e informação. Quando o professor perceber que a criança é muito impulsiva e não consegue prestar atenção, deve tentar criar um vínculo com ela. Então, se achar que realmente há uma dificuldade, deve buscar informações sobre ela, conversar com os pais, por exemplo, para verificar se é preciso auxílio externo ou não.

De que maneira a aprendizagem da criança com TDAH é afetada?
Na qualidade da assimilação. Isso não significa que ela não tenha potencial para aprender, mas, sim, que ela vive pensando em outra coisa. É a mesma coisa que estar em um lugar onde há vários estímulos e é preciso selecionar um deles em que prestar atenção. A sala de aula, como se apresenta, não é o estímulo que muitas crianças escolheriam e, como não prestam atenção, não aprendem.

Por Gizáh Szewczak

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