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O mundo está hiperativo
Para a psicopedagoga Isabel Parolin, as pessoas estão olhando para as
crianças de forma muito desatenta e esse é o maior problema enfrentado
pela sociedade atual: “Nós vivemos em uma sociedade hiperativa,
então acabamos gerando comportamentos hiperativos”.
Isabel afirma que o mais importante é olhar de modo mais atento para
as crianças para perceber como elas são e suas necessidades. Pais,
escola, médicos e terapeutas devem “perder” um pouco mais
de tempo com elas para obterem um diagnóstico correto. E, aí sim,
em conjunto, podem construir uma avaliação e, com base nela, agir
da melhor maneira para fazer essas crianças aprenderem a trabalhar e
a conviver com seu modo de ser.
Em entrevista ao portal, a psicopedagoga explica que a correria do mundo moderno
nos deixa desatentos a crianças com o transtorno do déficit de
atenção e hiperatividade, o que pode prejudicar um tratamento
adequado.
O que é TDAH?
Essa sigla significa transtorno do déficit de atenção com
hiperatividade (é importante ressaltar a presença da hiperatividade).
Nas escolas, o que tem chamado mais atenção é a hiperatividade,
que influi diretamente nas atitudes da criança, e é o comportamento
inadequado que acaba atrapalhando mais. Já o déficit de atenção
acaba ficando em segundo plano, interferindo na produção da criança
e na qualidade da aprendizagem.
Como é possível identificar esse transtorno?
Isso pode ser feito observando-se uma série de fatores. Por exemplo:
a criança é mais agitada ou falante que o normal; ela pode ficar
horas “no mundo da lua”; tem uma tendência à dispersão;
é mais desatenta; e tem mais dificuldade de assimilação.
A dificuldade para identificá-lo está em definir o que é
o normal. A criança que tem o transtorno é aquela que parece ter
“uma pilha que não acaba”, que “faz hiperfoco”
ou se dispersa em múltiplos focos. É uma criança que dizem
ser inteligente para algumas coisas e, no entanto, não consegue aprender
outras. Ela deixa os adultos em torno dela confusos em relação
ao seu comportamento.
E, na escola, como os professores podem identificar o transtorno?
Geralmente, pela dificuldade que a criança tem para aprender. O déficit
de atenção provoca um certo bloqueio de memória mesmo:
ela até aprende, mas não se lembra das informações
quando é preciso. Além disso, não consegue permanecer sentada,
está sempre se mexendo e comumente é desorganizada. É importante
que os professores percebam que essa criança tem necessidade de se movimentar,
de fazer “descargas motoras”. Complementando, é uma criança
que tem dificuldade de prestar atenção e controlar suas emoções,
que não pensa antes de agir e assume riscos desnecessários. Mas
é preciso lembrar que essas características devem aparecer antes
dos 7 anos e serem constantes e mais acentuadas que em uma criança “espoleta”,
por exemplo.
A partir de que idade já é possível perceber esses
sintomas?
Não existe uma idade certa; eles vão aparecendo, e os familiares
vão percebendo que a criança não dorme direito, é
superagitada, derruba tudo e não presta atenção quando
falam com ela. Aproximadamente aos 6 anos, quando entra na escola, a professora
percebe essa agitação, pois é um aluno que fala excessivamente,
começa a fazer uma coisa e não termina, não aceita limites
e parece não ouvir o que ela diz. Isso tudo ajuda a fazer o diagnóstico
por volta dos 7 ou 8 anos, até porque nessa idade a criança já
teria condições de ser menos impulsiva, controlar mais suas emoções
e lidar melhor com frustrações.
É preciso haver uma predisposição para que se
desenvolva o transtorno?
De acordo com a literatura especializada, deve existir uma propensão
genética, uma tendência. Percebe-se que, na família em que
um dos pais apresenta o transtorno, muitas vezes o filho também o tem,
mas isso ainda não é comprovado.
E a influência do meio pode fazer com que a criança desenvolva
o transtorno?
Sem dúvida. Vivemos em uma sociedade hiperativa. Hoje, as crianças
ficam muito tempo em frente à televisão — segundo pesquisas,
o período médio é de quatro horas — e, com isso,
ficam passivas. Mas os filmes vistos tanto por adolescentes quanto por crianças
são extremamente violentos, cheios de raios, trovões, etc., com
pouco diálogo e interação e muito movimento. Quando a criança
chega à escola, encontra uma pessoa real, o oposto daquilo. Ela deixa
de ser espectadora para ser participante, mas não está preparada
para essas relações. Então, ela quer extravasar toda energia
que guardou e tenta reproduzir o que viu durante aquelas quatro horas em que
ficou em frente à TV. Além disso, os adultos estão extremamente
apressados e estressados. A própria sociedade é hiperativa, geramos
comportamentos hiperativos e, para contornar essa situação, acabamos
querendo resolver isso com medicamentos. A verdade é que nossa sociedade
precisa ter um olhar mais atento a essa situação. Até mesmo
o olhar para o TDAH está sendo hiperativo, ou seja, as pessoas que olham
para as crianças com o transtorno não têm tempo de fazer
um diagnóstico dessa situação. Por exemplo: eu participei
de um evento em que uma neurologista me disse que tinha uma proposta de diagnóstico
que englobava a professora dessa criança, a orientadora, os pais e o
psicólogo ou psicopedagogo. E ela tocou em um ponto muito importante
ao fazer a seguinte pergunta: como fazer um diagnóstico assim, completo,
se temos apenas 15 minutos para isso? E acho que isso realmente é um
problema. No sistema público de saúde, os convênios oferecem
um atendimento de 15 minutos, e os profissionais acabam fazendo o diagnóstico
nesse período. Existem muitas crianças portadoras do transtorno
que não recebem a atenção devida porque não têm
ninguém que tenha tempo para isso. Essas crianças acabam crescendo
longe do olhar de seus pais, e precisam de atenção e afeto para
sobreviver. Quando não recebem isso, agem de forma a chamar a atenção.
As crianças que desenvolveram o TDAH podem se curar?
O transtorno vai acompanhar essa pessoa, fazer parte de seu funcionamento. O
papel da psicopedagogia nessa situação é orientar pais
e escola e trabalhar com a criança para que ela aprenda a lidar com essa
situação, pois ela é desse jeito e precisa aprender como
viver normalmente, ir bem na escola, realizar suas tarefas e se relacionar.
Como os pais podem ajudar?
Principalmente sendo muito objetivos com a criança. Por exemplo: devem
distribuir as tarefas uma a uma, dar limites, ajudar a criança a se enxergar
e se perceber e oferecer suporte para que ela possa se organizar. O principal
é que eles estejam atentos para que possam atuar adequadamente. Não
é preciso muito conhecimento para saber o que uma criança precisa
se prestarmos atenção no comportamento dela. Um olhar mais cuidadoso
revela se ela necessita de mais limites, orientação, conselhos,
brinquedos, exercício, estudo, tarefas, passeios, beijos, abraços
ou de menos televisão.
Como é possível diferenciar uma criança ativa
de uma hiperativa?
Somente por meio do diagnóstico, que deve ser um processo conjunto entre
neurologista, escola, pais e psicólogo ou psicopedagogo. Cada profissional
tem um olhar para a criança, de acordo com sua área. A tarefa
é juntar esses olhares, construir uma avaliação e, com
base nela, fazer a intervenção. O que tenho visto é o diagnóstico
ser considerado o fim, ou seja, tudo se acaba com ele, quando a criança
recebe um rótulo (TDAH). Entretanto, a partir do diagnóstico de
todos os envolvidos com a criança, estes devem conversar para construir
uma avaliação e um prognóstico e, aí sim, responder
à pergunta: Como vamos ajudar essa criança a se comportar e aprender
melhor? Eu vejo muitos casos em que a família comunica à escola
que a criança foi a um neurologista, psicólogo ou psicopedagogo,
que disse que a criança tem TDAH e, a partir daí, encerra-se a
tarefa. Mas isso é um erro, pois nessa etapa o trabalho está apenas
começando. A avaliação e a reunião dos diferentes
diagnósticos só pode ter um sentido: propiciar uma vida com mais
qualidade para essa criança.
Qual é o melhor tratamento?
Isso deve ser definido na reunião de todos os envolvidos (neurologista,
escola, pais, psicopedagogo ou psicólogo) com essa criança. Cada
um vai expor seu ponto de vista para depois, em conjunto, decidir sobre a melhor
opção. É preciso haver atenção a cada caso
e não padronizar. Algumas crianças se beneficiam com medicamentos;
outras, não. Existem crianças que podem esperar; outras, não.
Há pais que não admitem que seja usado medicamento e oferecem
outros recursos para substituir esse estímulo (pois ele não deixa
de ser um estímulo); outros, não. E, ainda, para algumas crianças,
apenas orientação basta; enquanto para outras, não.
Que terapias podem ser usadas?
Massagens terapêuticas e sessões de psicomotricidade para descarregar
a agressividade da criança podem trazer sucesso. Minha grande preocupação
é com essa profusão de crianças sendo medicadas e de pais
sossegados porque seus filhos não incomodam mais.
O uso de medicamentos causa dependência?
A literatura diz que não. No entanto, eu costumo prestar atenção
em cada alimento que meu filho ingere. Quando fico sabendo que morango tem muito
agrotóxico, não compro. Da mesma forma, sinto receio quando se
trata da ingestão de remédios com tarja preta.
Por que não é recomendado o uso de medicamentos nos fins
de semana?
O uso de remédio deve ser feito de acordo com as recomendações
do médico. Se ele recomendou usar apenar em dias de aula, assim deve
ser feito. É muito sério quando os pais medicam a criança
para que não incomode. É preciso entender que o incômodo
que ela sente se deve ao fato de que não está sabendo direcionar
sua vida, seus gestos e suas brincadeiras.
Em que casos o uso de medicamentos é adequado?
A decisão de dar remédios deve ser tomada em conjunto, com a família,
neurologista, terapeutas e escola, para que a criança não seja
medicada em 15 minutos. Vou relatar uma história interessante que ilustra
isso: um pai me contou que levou seu filho a um neurologista, e este pediu à
criança que lesse um texto e andasse sobre uma linha e, depois, fez a
ela duas ou três perguntas sobre matemática. Então, disse
que a criança tinha TDAH, estava na escola errada, receitou-lhe ritalina
e aconselhou a tirá-la da escola. Esse pai me procurou porque estava
perdido, sem entender o que tinha acontecido. Por isso o trabalho conjunto entre
os envolvidos com a criança é muito importante, para que o diagnóstico
seja correto. Como o neurologista pode dizer que a escola era a errada? Que
autoridade tinha no assunto? É a mesma que eu tenho para receitar um
medicamento. Deve-se construir em conjunto o diagnóstico. Acho que precisamos
tomar mais cuidado com o outro e com o lugar que ocupamos na sociedade. O compromisso
de todos os adultos que estão avaliando é crucial para o sucesso
no tratamento, com medicamento ou não.
Que orientação você dá para os professores
lidarem de forma adequada com os alunos portadores de TDAH?
Pedir orientação e informação. Quando o professor
perceber que a criança é muito impulsiva e não consegue
prestar atenção, deve tentar criar um vínculo com ela.
Então, se achar que realmente há uma dificuldade, deve buscar
informações sobre ela, conversar com os pais, por exemplo, para
verificar se é preciso auxílio externo ou não.
De que maneira a aprendizagem da criança com TDAH é afetada?
Na qualidade da assimilação. Isso não significa que ela
não tenha potencial para aprender, mas, sim, que ela vive pensando em
outra coisa. É a mesma coisa que estar em um lugar onde há vários
estímulos e é preciso selecionar um deles em que prestar atenção.
A sala de aula, como se apresenta, não é o estímulo que
muitas crianças escolheriam e, como não prestam atenção,
não aprendem.
Por Gizáh Szewczak
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