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"O Brasil e a Segunda Guerra Mundial"
Historiador comenta sobre a participação brasileira nesse
conflito.
Sua posição geográfica e a extensão de seu litoral
foram algumas características que fizeram com que nosso país não
ficasse neutro durante a Segunda Guerra Mundial por muito tempo. No início
de 1942, o governo brasileiro rompeu com o Eixo — Alemanha, Itália
e Japão — e se posicionou a favor dos Aliados. Mas, em agosto desse
mesmo ano, após navios brasileiros serem torpedeados supostamente por
submarinos alemães e por causa da pressão dos EUA, o Brasil decidiu
participar da guerra, contra a Alemanha e a Itália.
Mais de 25 mil homens fizeram parte da Força Expedicionária Brasileira
— FEB — e desembarcaram em Nápoles, Itália. Eles tiveram
conquistas importantes, mas também sofreram preconceitos durante a guerra
e quando voltaram para casa.
Leia a seguir a entrevista com Dennison de Oliveira e entenda mais sobre a
participação brasileira nesse fato histórico que mudou
o mundo.
Por que o Brasil entrou na Segunda Guerra Mundial?
A posição geográfica do país — que ocupa
a parte mais estreita do Atlântico próximo à África
—, seu tamanho e população tornavam, no mínimo, difícil
a manutenção da neutralidade do Brasil. Desde 1940, os EUA nos
pressionavam para que fizessem uma ocupação "preventiva"
do território nordestino e a instalação, ali, de bases
aéreas que permitissem escala para os vôos rumo à África
e ao Oriente. Ao mesmo tempo, pretendiam impedir que essa rota aérea
e esses locais para bases fossem ocupados por países do Eixo. Em meados
de 1941, seis meses antes da entrada dos EUA na Segunda Guerra Mundial, essas
bases e rotas aéreas já eram uma realidade. Por aqui, passaram
dezenas de milhares de aeronaves armadas e municiadas para combate, rumo aos
campos de batalha africano e asiático. Simultaneamente, o Brasil passou
a fornecer importantes materiais estratégicos aos Aliados, como minerais,
borracha, etc. Diante desses fatos, os alemães perceberam que a neutralidade
do Brasil era apenas teórica e passaram a atacar maciçamente nossos
navios mercantes. Os sucessivos torpedeamentos de nossos navios é que
levaram nosso país a declarar guerra aos países do Eixo.
Qual era o perfil de nossos soldados e como foi seu treinamento?
Pouquíssimos soldados profissionais, com longo tempo de serviço,
foram aproveitados. Metade dos oficiais subalternos eram reservistas, e também
cerca de metade dos efetivos eram recém-recrutados (a maioria oriunda
da zona rural e com baixos níveis de saúde e educação).
A maior parte do oficialato da ativa conseguiu escapar do envio para a guerra.
Justamente os mais pobres e menos instruídos, com poucos contatos sociais
influentes que lhes permitissem se evadir, é que foram recrutados. Como
admitiu o chefe do Estado-Maior da Força Expedicionária Brasileira
(FEB) ao embarcar no navio que levaria nosso primeiro escalão de combatentes
para a Europa: "A bordo, só estavam os que não conseguiram
escapar". Dos 25 mil homens enviados para a luta, menos de 1.500 eram voluntários.
A artilharia teve oportunidade de treinar aqui no Brasil usando o mesmo tipo
de material que seria empregado na linha de frente, mas a infantaria não
teve a mesma sorte. Dos três regimentos de infantaria enviados, apenas
um recebeu treinamento condizente com a realidade da luta que seria travada
(treino esse quase todo feito por instrutores norte-americanos). Os outros,
como admitiu o próprio comandante da FEB, partiram do Brasil "praticamente
sem instrução". Pior ainda, a FEB jamais realizou um treino
em conjunto, que permitisse detectar falhas na sincronização das
manobras.
Sabe-se que a maior parte das tropas aliadas que participaram da Segunda
Guerra era segregada, isto é, os negros ficavam de um lado; e os brancos,
de outro. Como era a situação das tropas brasileiras?
A 1.ª Divisão de Infantaria da FEB que lutou nos campos da
batalha da Itália na Segunda Guerra Mundial foi a única tropa
racialmente integrada que foi empregada em combate naquele front e em
qualquer outro. Naquela mesma frente, lutaram divisões de infantaria
das mais diversas nacionalidades, como norte-americana, inglesa e francesa.
Entre os primeiros, cabe destacar a política oficial de segregação
que apresentavam: brancos e negros jamais lutavam juntos, havendo uma unidade
específica para os negros (a 92.ª Divisão de Infantaria)
e um regimento inteiramente composto por descendentes de japoneses (o 442.º
Regimental Combat Team). Nessas formações, os cargos de oficial
superior eram preenchidos predominantemente ou totalmente por brancos, cabendo
às outras etnias integrar “o grosso” do efetivo da tropa.
No caso da FEB, está confirmada a recorrência das ordens para se
excluírem os soldados que não fossem brancos dos desfiles e demonstrações
públicas ou, no caso de isso não ser possível, colocá-los
no interior das fileiras, onde seriam menos vistos. Havia ainda total exclusão
dos negros na formação de guardas de honra, em particular aquelas
que se destinassem à recepção de autoridades estrangeiras.
Enfim, apesar da integração, a FEB padecia do mesmo tipo de racismo
que era típico da sociedade brasileira naquela época.
Com relação às operações, sabe-se que
as tropas brasileiras davam apoio ao exército norte-americano. Nas campanhas
de que nosso exército participou, qual foi a participação
brasileira e a americana?
Responder a essa pergunta exigiria uma descrição detalhada
da campanha toda, o que não é possível porque tomaria muito
espaço. Resumindo ao máximo, pode-se afirmar que, das cinco tentativas
de tomar o famoso Monte Castelo, as três últimas foram feitas
exclusivamente com tropa e comando brasileiros. A tomada de Montese e a captura
da 148.ª Divisão de Infantaria alemã também foram
efetuadas exclusivamente por tropa brasileira. Na fase final da campanha da
Itália, a FEB agia conjuntamente com a 10.ª Divisão de Montanha
norte-americana, levada para esse front justamente para precipitar o
fim da guerra na Itália.
As enfermeiras brasileiras tiveram participação fundamental
durante a Segunda Guerra, e as que participaram do conflito ganharam a patente
de oficial. Por quê?
Era um procedimento comum no exército norte-americano que o comando brasileiro
achou válido imitar.
Em Natal (RN), estava instalada a maior base militar americana fora dos
EUA. Qual foi a importância dela e como era o cotidiano naquele lugar?
Existiram outras bases aliadas no Brasil?
Originalmente, os EUA pretendiam construir bases por todo o nosso continente
para impedir a invasão da região por parte do Eixo. Posteriormente,
decidiram concentrar seus esforços no Nordeste do país porque
por ali poderiam enviar aeronaves diretamente para as frentes de luta. Com o
inverno rigoroso no Atlântico Norte, os aviões que faziam a rota
da Groelândia rumo à Grã-Bretanha tiveram, por causa das
horríveis condições climáticas, que realizar a rota
do Brasil. Enfim, a região teve uma importância fundamental na
vitória dos Aliados na guerra.
Qual foi o grande feito do Brasil durante a Segunda Guerra?
Houve vários. Por ordem de importância, eu cito os seguintes:
ter servido como ponte aérea para o envio de grandes aeronaves dos EUA
para todas as frentes de batalha; fornecer alimentos e matérias-primas
para o esforço industrial norte-americano; cooperar com o patrulhamento
do Atlântico e ajudar a impedir o tráfego de navios e submarinos
do Eixo naquela área; e disponibilizar uma divisão de infantaria
para lutar na Itália. No contexto italiano de operações,
gostaria de destacar dois grandes feitos da FEB. O primeiro é a tomada
de Montese, em 14 de abril de 1945, que praticamente salvou o dia. Tratava-se
do primeiro dia da Ofensiva da Primavera, o esforço final para
acabar com a guerra na Itália. A tomada de Montese atraiu para a área
da FEB a maior parte do fogo defensivo de artilharia do inimigo, aliviando consideravelmente
a pressão sobre a 10.ª Divisão de Montanha, que liderava
a ofensiva. O segundo é a captura em combate da 148.ª Divisão
de Infantaria alemã e dos remanescentes das Divisões Itália
e Monte Rosa (que constituíam o chamado Exército da Ligúria,
última formação importante ainda em condições
de combater na Itália). A captura dessas formações ajudou
a apressar o fim da guerra na Itália, que se deu poucos dias depois.
O Brasil sofreu muitas baixas durante a guerra?
A FEB teve 443 mortos, uns 1.500 feridos e aproximadamente 8 mil doentes
— a maioria vítima do clima pavoroso (até 20 graus negativos)
nas montanhas dos Apeninos durante o inverno. No mar, morreram certa de 900
pessoas em decorrência de torpedeamentos. São baixas pouco expressivas
se comparadas às que os outros combatentes sofreram. De longe, quem sofreu
as maiores perdas foram os russos, que tiveram aproximadamente 20 milhões
de cidadãos e 5 milhões de combatentes mortos.
E qual foi o papel da Força Aérea Brasileira (FAB) no conflito?
Foi enviado um único esquadrão de caça, que foi inteiramente
equipado e treinado pelos norte-americanos e estava subordinado a um de seus
grupos de caça. Composto de cerca de 60 pilotos, usava aviões
de caça monomotores, os famosos P-47. A inexistência de aeronaves
alemãs naquele front limitou os pilotos às missões
de ataque ao solo, ação muito mais perigosa que o combate entre
aeronaves.
A contribuição desse esquadrão para o esforço de
guerra na Itália foi notável. Com menos de 6% das aeronaves desse
grupo, os brasileiros destruíram mais de 12% dos alvos. Esse desempenho
colocou o grupo brasileiro entre os melhores de toda a Segunda Guerra Mundial.
Como foi o retorno dos pracinhas brasileiros? Como eles foram recebidos
em nosso país?
A recepção foi eufórica, fazendo dos veteranos da
FEB pessoas muito prestigiadas. Contudo, essa euforia durou pouco, e aos ex-combatentes
restou uma rotina penosa de readaptação à realidade da
vida civil, nem sempre possível para muitos. Traumas psicológicos
de todo tipo e a rotina da luta pela sobrevivência no mercado de trabalho
dificultaram o retorno de milhares de brasileiros que estiveram nos campos de
batalha à vida normal. As primeiras leis de amparo aos ex-combatentes
só foram aprovadas em 1947. Além disso, na ânsia de se livrarem
da FEB, tida como politicamente não-confiável pelo presidente
Vargas, os pracinhas foram rapidamente desmobilizados sem que tivessem se submetido
a exames médicos, que mais tarde seriam fundamentais para que obtivessem
pensões e auxílios no caso de doenças ou ferimentos adquiridos
no front. Para provar incapacidade decorrente do serviço na linha
de frente e, assim, receber as pensões, os pracinhas tiveram de se submeter
a todo tipo de vexames e sacrifícios, os quais seriam dispensáveis
se sua desmobilização tivesse ocorrido de forma racional e planejada.
Ao longo do tempo, várias leis de apoio aos ex-combatentes foram sendo
promulgadas, até chegarmos à famigerada Lei da Praia, criada nos
anos 60. De acordo com essa lei, qualquer pessoa que tivesse sido enviada à "zona
de guerra" teria direito aos auxílios, pensões e promoções
que estavam sendo reservados para aqueles que, de fato, foram à Itália.
Mas acontece que, em todo o litoral do Brasil, vias navegáveis e cidades
economicamente importantes se encontravam dentro dessa "zona de guerra".
Dessa forma, o sujeito que estava de sentinela num fox hole (abrigo individual)
nos Montes Apeninos, suportando temperaturas subárticas e todos os riscos
de morte e invalidez, estava na "zona de guerra" tanto quanto o bancário
ou o PM que havia sido transferido para uma cidade litorânea do Brasil.
Ou seja, se essa lei auxiliou de fato os ex-combatentes, beneficiou também
um enorme conjunto de servidores públicos, civis e militares que, ainda
hoje, gozam de polpudas pensões, que fazem deles autênticos "marajás"
entre os aposentados do serviço público.
Houve mudanças no Exército brasileiro em decorrência
da guerra?
Não. O Exército fez o possível para marginalizar e
desconsiderar quem esteve na linha de frente. Havia enorme preconceito e inveja
daqueles que estiveram com a FEB e que, com seu sacrifício e dedicação,
conquistaram numerosas glórias militares. Também o “varguismo”
fez o possível para erradicar a FEB e suas memórias, justamente
por causa do papel que seus membros exerceram na luta contra o nazi-fascismo.
Toda experiência militar adquirida na luta contra o Eixo foi desprezada,
esquecida e inutilizada, contrariando até mesmo o conselho dos EUA de
que se visse a FEB como núcleo de um esforço de renovação
e modernização de nosso Exército.
Por Gizáh Szewczak
Para saber mais:
http://www.academiamontese.rg3.net
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