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Natal Jataí de Camargo é coordenador do Centro de Saúde Ambiental da Secretaria de Saúde do Paraná.

 
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"Mal de Chagas assusta o Sul do país"

Cinco pessoas morreram após consumirem caldo de cana contaminado no estado de Santa Catarina.

A Doença de Chagas é motivo de muita preocupação no país, porque em regiões endêmicas já provocou muitas mortes. No início desse ano, pegou muita gente de surpresa no litoral de Santa Catarina, quando algumas pessoas, apresentaram os sintomas da doença. Segundo a Vigilância Epidemiológica de Santa Catarina, o principal local de transmissão da doença foi um quiosque às margens da BR-101, entre Navegantes e Penha. A contaminação poder ter ocorrido de duas maneiras: o barbeiro foi moído junto com a cana ou algum animal contaminado defecou ou urinou sobre ela.

Pessoas que tomaram a bebida lotaram os postos de saúde e laboratórios para fazer o exame que detecta a doença. A Secretaria da Saúde do Estado de Santa Catarina e o Ministério da Saúde realizaram várias buscas a focos do barbeiro, o percevejo transmissor da doença, em locais onde é produzida a cana de açúcar. Depois de uma grande mobilização, foi encontrado o barbeiro que estava infectado com o protozoário Trypanosoma cruzi escondido em uma toalha no Quiosque da Penha 2, em Navegantes. Também foram encontrados um gambá e quatro filhotes próximos ao local que estavam contaminados. A principal hipótese continua sendo a de que a contaminação tenha se dado em áreas de armazenamento e moenda da cana.

Em entrevista ao portal, o coordenador do Centro de Saúde Ambiental da Secretaria de Saúde do Paraná, Natal Jataí de Camargo, falou sobre a doença e o último surto ocorrido no país.

O que é a doença de Chagas?
Vamos começar pelo nome: muita gente pensa que a doença de Chagas provoca feridas no corpo, ou seja, chagas, mas não é nada disso. Ela recebeu esse nome porque, em 1909, um médico brasileiro chamado Carlos Chagas, em Minas Gerais, descobriu como a doença era transmitida para as pessoas. O mal de Chagas é causado por um protozoário, o Trypanosoma cruzi, que é transmitido por um inseto conhecido como barbeiro, o Triatoma infestans. Quando esse inseto se contamina, depois de algumas semanas, o protozoário se multiplica no intestino dele. O barbeiro precisa sugar o sangue de pessoas ou animais para se desenvolver e, após picar, defeca no local. Dessa forma, o protozoário vai para o sangue da pessoa, atingindo várias partes do corpo, como o esôfago, o intestino, o baço e, principalmente, o coração. Então, ele começa a se multiplicar e a destruir os tecidos, um processo que pode levar de 10 a 30 anos. O coração do indivíduo vai enfraquecendo, e o doente acaba tendo insuficiência cardíaca.

Essa doença tem cura?
Se for diagnosticada no início, a pessoa pode se curar totalmente. Quando o doente já tem as lesões que mencionei há pouco, a cura é muito difícil, mas existe uma possibilidade cirúrgica. Aproximadamente 20 anos atrás, foi feito o primeiro transplante de coração no Brasil em um paciente que tinha a doença de Chagas, pois sua única chance de sobreviver era receber outro coração.

Quais são as formas de transmissão do mal de Chagas?
A transmissão pela picada do barbeiro está praticamente erradicada no país. Ainda existem alguns focos em Minas Gerais e na Bahia, principalmente nas áreas rurais — cujas habitações de pau-a-pique têm frestas em que o barbeiro se esconde —, mas estão sendo combatidos pelo Ministério da Saúde. E há outras maneiras de transmissão. A mulher grávida que tem o mal de Chagas passa a doença para o bebê por meio da placenta ou posteriormente, através do leite materno. Na época em que o sangue doado não era examinado, muitas pessoas acabaram contaminando-se nas transfusões. Hoje, em todos os bancos de sangue do país, é feito o exame para detectar o Trypanosoma cruzi. No caso ocorrido em Santa Catarina no início deste ano, a transmissão se deu por alimento contaminado — caldo de cana. Nessa forma de transmissão, que é muito rara, o protozoário atravessa o estômago da pessoa e vai para o sangue, e esta pega a doença de modo mais rápido e grave, principalmente se for criança. Existe também uma particularidade: o Triatoma infestans foi praticamente extinto no Brasil inteiro, mas há outra espécie de barbeiro, chamada Panstrongylus megistus — que não fica dentro das casas, pois é meio selvagem: fica no mato, na área rural, próximo a fontes de infecção como buracos de tatu e galinheiros, o que torna seu controle impossível — e também pode estar contaminada pelo protozoário Trypanosoma cruzi. Mas a transmissão por essa espécie é muito mais rara.

Quando o Trypanosoma cruzi é ingerido, ele resiste ao suco gástrico?
Sim, ele atravessa a mucosa gástrica e cai na corrente sangüínea.

E se a pessoa tem gastrite ou úlcera, isso facilita sua contaminação?
Não, pois ele sempre resiste ao pH do estômago, que é muito ácido.

Quem tomou o caldo de cana contaminado em Santa Catarina necessariamente terá a doença?
Sim. Nesse caso, não se sabe se foi o bicho barbeiro que caiu no caldo de cana ou se este foi contaminado pela urina ou as fezes de outro animal, como um rato ou gambá. A contaminação foi muito grande, por isso, houve vários casos da forma aguda do mal de Chagas: quanto maior é o número de parasitas que atingem o sangue, mais rápida e grave é a doença. Na transmissão pela picada do barbeiro, a quantidade de protozoários é pequena, o que resulta em uma forma crônica da doença 10 a 20 anos depois.

Como uma pessoa pode saber se está contaminada?
Somente fazendo exame de sangue. As pessoas que tomaram caldo de cana nas localidades entre Garuva e Itapema no período de 1.º de fevereiro a 20 de março, tendo sintomas ou não, devem consultar um médico, que solicitará um exame de sangue, que é gratuito. Há indivíduos, principalmente entre os adultos, que no início não apresentam sintomas, somente depois de uns 10 anos, mas então já é tarde. E aqueles que têm sintomas devem procurar um médico com urgência.

E quais são esses sintomas?
O mais comum é uma febre baixa, de 38ºC a 38,5ºC, que dura de duas a quatro semanas e surge mais à tarde ou à noite. A pessoa fica abatida e sem apetite, sente muito cansaço e dores no corpo e pode ter inchaço nas pernas, nos braços e no rosto.

Em 2002, a Fundação Oswaldo Cruz da Bahia fez uma pesquisa que mostrou o risco oferecido por alimentos contaminados pelas fezes ou urina do barbeiro. Está sendo feito algum trabalho para prevenir essa forma de contágio?
A prevenção de casos assim é bem complicada porque o caldo de cana, por exemplo, é um alimento que não passa por processo industrial, que mataria o protozoário. O trabalho que está sendo feito consiste em fiscalizar e orientar os “garapeiros”. Estes precisam ter alguns cuidados com a higiene, como, por exemplo, não deixar os feixes de cana no chão para evitar que um rato ou outros animais passem sobre eles; lavar bem a cana e tirar sua casca somente um pouco antes de triturá-la; evitar moer cana rachada, que pode servir de esconderijo para o barbeiro; e usar água potável. Quanto ao vendedor de caldo de cana, deve utilizar uniforme e ter um bom padrão de higiene para minimizar o risco, que não pode ser eliminado.

Existem registros de casos dessa doença provocados por ingestão de outros alimentos?
Sim, qualquer alimento que é consumido cru oferece risco. No Pará, ocorreu um surto por causa de suco de açaí contaminado e suspeita-se que o barbeiro tenha caído dentro da moenda em que ele era feito. No Rio Grande do Sul, relatou-se que muitas pessoas contraíram o mal de Chagas consumindo verduras que estavam no chão e foram contaminadas por urina de gambá. Mas, em 500 anos de história, o Brasil sofreu quatro surtos, o que mostra que é difícil a transmissão ocorrer desse modo.

Por Gizáh Szewczak

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